14 maio 2008

Ainda não cheirava a castanhas assadas na rua!



Deito-me.
Ando a ler o Segundo Livro de Crónicas do António Lobo Antunes. Tem uma sensibilidade que escapa ao écran televisivo. Já o tinha visto, numa "conversa" no Porto 2001 e identifiquei-me com aquele estilo de "Desde que não me chateiem muito, vou respondendo, mas não quero demasiada intimidade!"

Vou lendo sempre até ter a sensação (sempre a mesma) de que posso dormir. Já tomei as pastilhas... Devo conseguir dormir.
E apago a luz. Então, a escuridão e a solidão da noite agigantam-se.
Abre-se a porta desse triste paraíso longínquo da saudade, fecho os olhos...

Mas o David chama-me; e vou saber o que quer. Como sempre fiz, a qualquer hora da noite, aqui ou noutro lugar qualquer, por onde andámos.
Chama-me da cama do quarto 24. O sol está alto, porque estamos a meio da tarde. O quarto é luminoso.
Pergunto-lhe se quer ir dar uma voltinha, pelo corredor até ao átrio principal. Sorri-me e diz "Pode ser!".
Sento-o na cadeira de rodas, penduro a botija de oxigénio nas costas da cadeira.
E lá vamos nós. As enfermeiras sorriem-nos e nós sorrimos, também.
Sorrimos, sempre, os dois e piscamos o olho um ao outro, como se guardássemos um segredo que não desvendamos. É um truque nosso...um pacto silencioso, para não termos que dar explicações.
Somos uma mãe e um filho serenos, no amor que sabemos que os une. Nunca deixaremos que o outro fique só.

O David encosta a cabeça num dos meus braços, para se apoiar. Conduzo com o outro.
Paramos um pouco, vê-se o Porto. É uma cidade bonita, cheia de sol, com ameaços de rio ao fundo, a desaguar no mar. É um Outubro quente.
A Carla sai do elevador. Vem visitar-nos. O David sorri à sua cunhadinha. Sempre a recebeu com o seu mais belo sorriso. Diz-lhe qualquer coisa simpática, que não recordo.
Ela também lhe sorri, com a doçura que lhe é habitual, e elogia-o por ter vindo dar um passeio.

Mas o David cansa-se, quer dormir um pouco mais. As pálpebras pesam. E regressamos.
Nem meia hora demorou, aquele passeio. Mas ele está orgulhoso da sua força de vontade...

Agora que respondi à chamada do meu filho, talvez tente, de novo, dormir.
Já sem receio de que se apaguem estas imagens da minha memória. Não as quero perder no tempo. O tempo não é de fiar.
Entretanto, reparo que começou a chover.
Com chuva, durmo melhor.

"O que o AMOR exige reciprocamente é força plástica. Por isso há no amor, como na arte, tantos esboços gorados, sem a força suficiente para a execução."
Hugo von Hofmannsthal


1 comentário:

Ana Cristina disse...

Ando a ler o "blog a casa da venância".
Tenho a sensação de que me é familiar, como se estivesse a ler um livro a começar pelo final que conheço de cor.
Vou lendo todos os capítulos e a par da saudade e do abandono acumula-se um enorme sentimento de culpa por não ter estado sempre presente.
O tempo não é de fiar, mas será que algo é!?
O "príncipe" Miguel vai trazer-nos luz como os palcos iluminados pelo David !
Beijinhos.
Nini.