02 março 2008

Os labirintos da memória


As recordações instalam-se, a qualquer hora do dia, sem que as chame e tenho que as transpor para o papel antes que fique submersa e não consiga subir à tona.
Devo isso aos que estão comigo e vivem comigo. São a minha âncora.
Por isso, este é um Blog triste; feito só para mim, como terapia...
Falarei, até à exaustão, do David – um filho que perdi!!!
Se puder consolar alguma mãe como eu...ainda bem!


E era assim o meu filho David Sobral

Para além da paixão da música, do espectáculo e das luzes bonitas, tinha um inigualável sentido de humor, bem conhecido de todos os que com ele lidaram até ao fim.
O dinheiro, não muito, que tinha, gastava-o em música. Para ele e para dar aos amigos. O prazer dele era passear-se pelas FNAC e ouvir música.
Roupa, sapatos, camisas novas não lhe diziam nada. Era um “rapazinho” de gostos simples.
Amigos…tinha muitos. Não os posso referir todos, porque a todos cativava, como a raposinha do principezinho de Saint Éxupery, pelo cantinho do olho, pela bondade, pela solidariedade, pela entrega total.
Só não foi assim com quem não olhou verdadeiramente para ele.
Era um “rapazinho” de grandes sonhos e paixões, de grandes projectos, de grande profissionalismo na sua profissão.
No dia 22 de Março de 2006, “eu soube”, antes de saber, que o David tinha um cancro. O meu pesadelo de sempre, em relação aos meus filhos!...
Foi um ano e meio de muita coragem e grandeza impressionante da parte dele, gostava de viver e não desistia… O sonho e a música acompanharam-no sempre. Ia, de quimioterapia em quimioterapia, com a malota de CDs, para não ouvir nem ver o que se passava à volta. Não queria pensar que poderia ter que fazer o mesmo percurso longo a que assistia no caso de outros doentes que estavam, também, ali! Isolava-se num mundo paralelo, durante as quatro ou oito horas que duravam as sessões.
Era a força dele que me dava força e eu sorria com o sorriso dele. E portei-me bem. Tenho consciência disso e do desespero que escondia.
Mas tudo se foi desmantelando, dentro de mim, à medida que o tempo passava. E fui deixando de existir. Esqueci-me de como se vivia. Não descubro rotinas. Não encontro o meu espaço..
Ando a apanhar os meus pedacinhos, espalhados por aí, por todos os sítios onde estive com ele, desde Barcelona, Paris, Madrid (por causa da doença!) ... até Moncorvo ou Portalegre ou Castro Verde ou Estarreja ou Santiago de Compostela ... (para espectáculos!). Tento colá-los.
Tenho que acreditar que o David ouvia música, via palcos cheios de luz e imaginava novos projectos, quando adormeceu, depois de dizer “Mamã, vamos dançar?”.
Tenho, mesmo, que acreditar que só pode ter sido assim...

2 comentários:

Olga disse...

Eu acredito que sim. Não tenho dúvidas que só tinha com pensamentos bons no pensamento, por isso, ficou com o seu sorriso bonito no final, como nesta foto, uma das mais bonitas.
Beijinhos

Ana Cristina disse...

Esta foto foi tirada no Natal em Moledo. O David nao gostava de poses mas ficava sempre lindo e misterioso.
Beijos.
Nini