02 junho 2009

Hoje, não!



Hoje, já vi, vezes sem conta, o aeroporto de Paris, nos noticiários.
Hoje, o Manel foi a Paris.
E choro...ao pensar em Paris.
Quase tudo, agora, me recorda quase tudo de dias semelhantes, antes de o David morrer.
Não digo muito isto "o David morrer"!
Digo perder, perder...
Alguns dias passam rapidamente e vou serpenteando por entre memórias, imagens, sons,...até que a noite vem.
E eu gosto da noite. Muito.
Há outros dias extemamente penosos.
Hoje, bastou-me conversar um pouco mais do que é meu hábito, agora, com duas amigas da escola.
Costumo sentar-me quietinha, mais ou menos silenciosa, agora, na sala dos professores, durante o intervalo.
Gosto das pessoas como gostava dantes. Mas não me aproximo.
Hoje, num impulso de velhos tempos, fui sentar-me à beira da Manela e da Ana Bela e conversámos como nos meus velhos tempos... Gostava muito de conversar com elas; sempre gostei; foi há tanto tempo...
Mas logo, logo, porque algo me trouxe o David ao pensamento, fiquei com lágrimas nos olhos.
Ali, logo ali, no meio da sala, ainda cheia de gente, só porque saí, por um bocadinho, do meu cantinho.
Não falar para não chorar! Foi assim que me aguentei muitas vezs, durante a doença do David. Não falar para não chorar.
E depois, veio Paris.
Paris, por onde andei com o meu filho já cansado e frágil, mas com o ímpeto de quem precisa de subir uma montanha.
Paris põe-me lágrimas nos olhos.
Posso ir outra vez a Paris, posso seguir com o olhar o rasto dos aviões que vão ou vêm de Paris, que nos levaram ou nos trouxeram, posso adiar conversas à mesa da sala dos professores, ... mas não posso voltar a ver o meu filho.
E é a revolta por esta cruel realiadade que, hoje, me sufoca.
Hoje, nada tenho a dizer de suave. A dor profunda não é suave nem delicada.
Hoje, nada tenho a não ser o martelar, com raiva, palavras rudes que aqui se vão soltando.
Hoje, gostava de passar a minha cabeça pela mão grande do meu filho.
Hoje, sinto-me um terreno árido e seco.
Sinto-me uma coisa inacabada.

Ne me quitte pas

6 comentários:

jaime latino ferreira disse...

FALAR CHORAR VIVER


Querida Isabel,

Falar é viver.

Chorar é viver.

Escrever também o é mas este acto não dispensa o relevo multiplicador da interacção directa que no falar encontra a descompressão que levando ao chorar, como se vive ao chorar (!), contribui para resolver, integrar a morte, a perda, ontem, hoje e amanhã.

Na noite há uma camuflagem aconchegante que a luz do dia, muitas vezes, fere, tornando-os penosos, arrastados, intermináveis ...

Camuflagem ...!?

Camuflagem é, porém, a luz do dia que vê o céu azul quando ele é escuro como o breu e a intensidade solar que impõe o astro-rei e obscurece o firmamento, a própria estrela de Seu filho, David!

A estrela de Seu filho David, porém, está lá sempre, de dia ou de noite, visível ou invisível ...

Chore para falar, fale para viver!

Fale, chore e viva, portanto, para que escreva sempre mais e melhor.

Um beijinho


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 3 de Junho de 2009

Joana disse...

E a mim doeu-me tanto ler isto e apesar de não saber o que é uma perda destas, sinto que não há dor maior. E sinto que não há palavras que cheguem para acalmar o coração magoado e que teima em não sarar. E arrepio-me cada vez que penso na morte e contínuo a negá-la como se ela nunca nos batesse à porta... Um abraço muito quentinho de quem tem muito carinho por si

Anónimo disse...

Isabel...já sabe, essa dor é e será sempre como uma grande cicatriz. Está lá, fechada, mas sempre dormente e mais sensivel. Não sei....acho que escrever só por si, pode aliviar, mas se falar, se chorar, se bater de raiva, de impotência, de dor....isso ajuda-la-ia muito mais! Pense nisso, todos temos o direito à revolta. Não tente esconder a sua dor, pois senão vai sempre transbordar...quanto menos espera e quer.
Um beijinho,
MM

manuela baptista disse...

SEM NOME

Se eu tivesse um saco cheio de destroços cortantes, pontiagudos, agressivos, partidos, decepados do que eram ou poderiam ter sido,

se eu tivesse uma faca afiada das que penetram nos sonhos e os desfazem como nada,

se eu tivesse um cavalo preto como dor, bravo como fera solta,

se eu tivesse uma máscara grega que me escondesse o rosto,

se eu tivesse um livro de segredos e poções más como o medo,

se eu tivesse uma pedra gigante que tapasse uma entrada, que impedisse um canto, que desfizesse um gigante,

se eu tivesse a força de um touro,

se eu tivesse a voz de uma tempestade perfeita, a fúria de um tufão,

espalhava cinzas e carvão neste descampado seco e sujo onde me sinto, para gritar o inominável grito do meu coração.

Manuela Baptista
Estoril,3 de Junho 2009

Ana Cristina disse...

1 grande beijinho para ti.
Nini

António disse...

Depois da Escuridão virá a Luz...