07 maio 2009

Era uma vez



Gostaria de poder corresponder aos apelos da Manuela, naqueles textos tão sensíveis que me escreve e que poderiam começar por "Era uma vez...", como na "História para enganar os dias" que é tão bonita e li aos meus alunos, sem pedir licença:-(..
Eu leio-os; releio-os e penso "Tem razão, devia ir indo devagarinho..."
Depois...espero. Talvez, amanhã.
Amanhã?
Mas amanhã é tão longe.
Tão distante do meu sentir agora.
O amanhã está-me interdito.
Diz-me que espere, até estar quase a chegar.
Perguntarão: "Mas, interdito por quem? Interdito, porquê?"
E eu não saberei responder.
É apenas isso... interdito...
Por mim própria.
Porque não sou capaz de pensar, seriamente, além.
Eu que sempre fui de planos e projectos e propostas e perguntas e programações e previsões...
Não planeio o amanhã.
O amanhã rejeita-me, diariamente.
Agora, não é ainda amanhã e faço sem custo o que me dá prazer e me serena a saudade - mostrar coisas do David.


Chet Baker


Olá, caros ouvintes!
Hoje, vamos falar sobre um trompetista que se chama Chet Baker e que foi um dos criadores e impulsionadores do estilo Cool. Já aqui falámos em rubricas passadas sobre este estilo e dissemos que se caracterizava pelos solos e sons mais calmos e ao mesmo tempo com mais textura sonora.

Chet Baker não foi famoso apenas por causa do trompete, mas também porque cantava e porque era uma pessoa muito dada à vida social. Apesar da sua fama e de ser uma pessoa bem parecida, a sua vida ficou manchada devido à sua dependência de drogas duras.

A vida deste senhor não foi fácil. O pai era guitarrista e teve de abandonar a actividade devido à grande depressão económica que atingiu os Estados Unidos, no final dos anos vinte.

Baker cantou em coros de igrejas e começou, desde cedo, a sua formação musical. No entanto, durante o resto da sua vida tocou quase sempre de ouvido sem precisar de partituras nem de ler música.

Até amanhã e oiçam o Chet Baker

Jazz Faz Tarde
(David Sobral)

5 comentários:

jaime latino ferreira disse...

AMANHÃS


Amanhãs não existem

E se existem terei cãs

E as minhas cãs são sinais

Que ilusões não são vãs

Desilusões são as tais

Que persistem onde vais

Que corroem as maçãs

E me cobrem destas lãs


( Ao som de Chet Baker )


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Maio de 2009

manuela baptista disse...

Isabel,

cada um de nós tem um tempo e um espaço.Às vezes pensamos que estamos a ir devagarinho, mas estamos parados, outras andamos depressa demais. Vá consigo.

Este aqui é o espaço da sua dor, da sua perda e dos pedaços da vida do David que vai partilhando connosco.
Tem decerto outros espaços onde também ri, sente felicidade ou se diverte. Eles coabitam e são saudáveis.

Não precisa de pedir licença para usar os textos que aqui escrevo. Eu sou a autora, mas eles são seus, noutros contextos talvez não se entendessem. Fico muito contente de os ter partilhado com os seus alunos.

Se o autor é um ladrão, também deve saber ser generoso.

Um abraço

Manuela Baptista
Estoril, 9 de Maio 2009

Brancamar disse...

Bom dia Isabel,

que bela maneira de começar o dia!
Fiquei encantada com este "But not for me", de Chet Baker e com o que aprendi sobre ele, o que agradeço ao David.
Quanto ao seu texto, como a compreendo! Eu que também sempre tinha tudo muito planeadinho com antecedência quando era mais jovem, não consigo fazê-lo agora. Agora vivo este momento, este mesmo em que estou aqui, há muitas coisas na vida que nos ensinam isso, não só a experiência e a idade, mas os grandes embates da existência, que nos mostram a efemeridade dos dias e nos fazem interiorizar que estamos apenas de passagem, uma breve passagem e por mais que esta ideia seja transmitida os homens, poucos a interiorizam, se o fizessem não haveriam tantos desamores, tantas guerras, tanto egoísmo e vaidade.
E esta viragem em mim senti-a mais marcante de há doze anos para cá, a partir do momento em que toda a família, eu, marido e dois filhos escapamos num acidente de viação por puro "milagre", por décimas de segundos em que um camião a alta velocidade ao tentar não nos apanhar, acabou por bater mais no eixo das rodas dianteiras do carro que no resto e mesmo assim o torceu todo. O marido fez um AVC, ficou logo ali inconsciente, devido a um coágulo, que saltou ao cérebro por dissecção de uma das carótidas e também aí houve um "milagre" de décimas do mílimetro, porque felizmente foi um AVC ligeiro e com uma recuparaçao total, dado o coágulozito ter saltado para uma parte do cérebro digamos que mais inofensiva, uns milimetros ao lado poderia ter feito muitos estragos, disse o neurologista. Depois eu própria tive muitos dias para reflectir, mais ou menos imobilizada com um fémur partido, passei a Páscoa no Hospital das Irmãs Franciscanas de Stª Maria e ao chegar a casa emocionei-me imenso pelo regresso com os meus filhos, que tiveram apenas algumas escoriações, fractura do cotovelo a mais nova e o Vasco, que é da idade do David, que dormia do lado do embate, nada, absolutamente nada, apenas um ponto na cabeça por estilhaço de vidro. Acho que foi nesse momento em que cheguei a casa, sózinha com eles, trazidos pelos avós e durante esses dias que pensei muito que bastava não estar um de nós para toda a nossa vida ter mudado completamente, foi aí que passei a viver apenas o momento presente. E se eu mudei só pela hipótese de ter perdido um deles, como não hei-de compreender a Isabel...o seu filho faz já parte da nossa vida, destes momentos que aqui vivemos e de outros em que anda na nosso pensamento e sinto-o assim um pouco como o meu, que também é cheio de sonhos e de ideais humanos tão parecidos.
Não é possível planear o amanhã e por vezes nem desejável, se queremos e só sabemos viver o agora, embora eu o diga por razões diferentes, por recusa de antecipar problemas, dores, a Isabel porque não consegue afastar-se delas, mas um dia de cada vez, não irá afastar-se, mas irão suavizar-se concerteza...
Um beijo imenso de mãe para mãe e de amiga.
Branca

António disse...

"Não planeio o amanhã.
O amanhã rejeita-me, diariamente."

Nunca sabemos o que nos proporciona o Dia de Amanhã.Pode ser tudo aquilo que não desejamos ou tudo aquilo que não esperamos.Pode ser também de maravilhoso o que nem nos nossos melhores sonhos imaginamos...

Brancamar disse...

Boa noite Isabel,

Desculpe o texto longo e a má pontuação com que escrevi hoje de tarde, apesar de não me ter expressado de maneira muito precisa em alguns momentos, creio que ficou a ideia essencial.
Desejo-lhe um Bom Domingo e deixo-lhe um beijo de boa noite.
Branca