09 junho 2022

Quem finge não se finge!

Que haja, então e apenas, só Música 
Ao meu redor

Se assim for
Não tenho medo

Se a Música me invadir
Partirei como quem regressa a casa.
Ou a ti.
David
Que dizias "a música é a minha paixão"

Ou a algum alguém 
Que, subitamente, me descubra
E me veja
Escondida entre sílabas e sons
Diluída entre riso e lágrima 

Ouvir?
Não é preciso.
As palavras são tão enganadoras!
As minhas assustam-se com o que dizem …
Quando se soltam!!

Basta seguir o percurso das mãos!


04 maio 2022



Sempre que penso em ti
David
Que é sempre ... ou quase sempre

Eu sei lá ...

Todas as palavras escondidas
No mais fundo de mim
Se transformam.
Como se levasse comigo
(Mas do lado de fora)
Um coração
Feito à medida
De cada situação.


Às vezes, cantas
Sobre o meu ombro e com a minha voz
Como se estivesse eu cantando.
Os olhos abertos de espanto.

Ou então
Quem sabe
As lágrimas
Que sinto escorrer
E queimam
Não me pertençam
Nem este momento
Nem este sentir este sentimento.

Afinal
Que rosto real reflete
O espelho iluminado 
Mas não me vê?

Que porta física
Tenho de abrir
E passar?
Para, finalmente, te encontrar
Ou, tão só
Me encontrar?

03 dezembro 2021

Percurso de memória





Moledo, ainda agora.
Até ao virar da esquina
O sol, lá atrás, a adormecer no mar.
Pudera, ali, um dia, a cabeça repousar!

Regresso 
Chamo-lhe, sempre, regresso
De ti, como se foras ninho,
Afogada em lembranças 
De tempo entre pinhais e chilreios
De crianças

Porque tu ficas
Agora, ficas sempre
Sou eu quem parte
E com o olhar digo adeus
À quieta imensidão da água
Que te guarda

Contínuos regressos 
Vão-se acumulando
Na memória escurecida
Tão saudosa e gasta.
Montes verdes e castanhos serpenteiam na estrada
A mesma
Mas tão diferente a vejo.

Mais longe, já no fundo de mim 
Eólicas gigantes, as pás cansadas,
De batalhas e farrapos
Onde me acena
O teu sorriso ainda ...
Mas tão distante!

Que sonhos perseguirá D. Quixote?
Se eu, Sancho Pança, deixei de sonhar.

03 julho 2021

Sob o céu cinzento de julho

 




Chegou cedo

O tempo em que o tempo se rasga.

Basta um dedilhar de guitarra 

Para que o meu sangue

Em movimento incessante

Se sobressalte

Basta, tão só

Cerrar os olhos

E regresso a ti.

À ternura.

Donde nunca saí.

Basta um som de tango

Um swing ondulante

Ou tão só o vibrar das teclas de um piano triste

Cerrar as pálpebras

Cerrar os punhos

Encerrar-me num silêncio

Musical e luminoso

E, devagar,

Ao som da dor

Regressar a mim

Despida de enfeites

De sorrisos feitos

Depois que o tempo 

Ficou vazio de ti.

Então

Na planura da saudade

Sem sonhos

Sem timbre ou melodia

Sem luz de projetores

Sem papagaios de papel

A fugir no alto

Em direção ao mar

Esqueço a claridade

Que vem de fora

Devagar

Sem dominar o porquê

Volta o tempo

Em que o tempo se estilhaçou

E eu me quebrei!


Apanho, então, cada pedacinho de mim

Da minh' alma deserta

E recomeço 

Recomeço

Recomeço

E recomeço



26 abril 2021

O meu rapazinho no Tempo
















EU mãe que perdi um filho
ainda acredito
 que há coisas que não podem acontecer ...
Como o morte do filho, 
acontecida,
sorrio por entre lágrimas, quando falo dele
choro sozinha dentro do carro 
e mergulho nos sonhos dos outros.

EU mãe que perdi um filho.
estando presente, estou sempre ausente ...
Não compreendo o tempo
que se fixou por detrás do choro das pálpebras.

Mães ... um filho
choram a perda dos filhos das outras mães ...
criam laços de ternura imensa com quem as ouve,
ouvindo só ...
como somam e subtraem dias, 
a partir daquele dia ...

Mães que perderem filho
têm  um coração imenso, ocupado por inteiro por todos os outros filhos
e filhos dos filhos ...

EU mãe que perdi um filho
perco-o todos os dias
sou devorada por uma revolta surda contra ninguém
acordo aterrorizada, envolta em suor ... 
com medo que mo levem de novo
que volte a ser esse
o dia.

EU mãe que perdi um filho
engulo raiva e calo soluços
enquanto
aguardo paciente a companhia da solidão amiga
onde choro,
 enfim, em silêncio, o mistério do não saber porquê

EU mãe que perdi um filho
procuro sinais no céu estrelado, encostada à janela da noite,
e persigo, de dia, silhuetas na rua.

Um certo arregaçar de manga
uma mochila ao ombro
um cabelo em rabo de cavalo
o capuz de uma gabardina cinza
uma cabeça erguida
talvez um olhar de frente
UM ar de quem sabe o caminho certo.

EU mãe que perdi um filho
desisto desolada 
não. o sorriso não é igual
aquele era misto de troça, ironia, tristeza ou ternura
não, o tal timbre de voz
que se fixou, eternamente jovem ...
era voz de menino
 o que partiu de mim

As mães que perderam, como eu
mergulham no baú das fotografias antigas
isolam o olhar, cortam perfis, recortam gestos doces
montam fotografias esbatidas
repassam filmes de família, remontam-nos
ouvem-nos e veêm-nos, mil vezes
constroem pontes, travessias de lá para cá...
de cá para lá

Há mães que, crendo em Deus, aguardam um reencontro
Acreditam na perda temporária
garantem-me que os filhos estão bem!
Um dia
Vão encontrá-los.

Outras não!
Dolorosamente, 
nada.
Eu! Nada!
A não ser poeira de estrelas ou talvez uma estrela no mar
Luz somente!

EU mãe que perdi um filho
Tenho
A mágoa que dói
A saudade que esmaga
A amargura do "never more".

São minhas companheiras de viagem, 
nesta travessia para o nada.
E para o tudo que é nada.

Um "Mamã, chegarei aos 30?"
Seguido de um sorriso doce, lento e esquecido
É também o que me sobra do David.
Guardo tudo, mil vezes tudo, na conchinha da minha mão fechada
e sob cada bater de pálpebras dos meus olhos
(mesmo assim)
abertos para os outros 
todos os meus outros

EU mãe que perdi um filho
Só sei viver desta forma!
Não conheço outra
E outra não busco, nem quero.

O meu filho David faria, hoje, 43 anos.

David!
Meu rapazinho sem tempo.








07 março 2021

Quis algo que nunca me pudesse ser tirado.




Começa março e o sol
tanto sol, que não posso continuar
como se nada fora.

Já tudo é novamente
já tudo foi
de tal maneira sol
de tal modo março,
março com sol,
que me fico exangue
despojada de força
para avançar
pensando no que ser
diferente do que possa já ter sido
neste círculo desencantado
de março a novo março
do sol que fez
ao sol que,
certamente,
fará.

Que não seja, então, março novamente
uma, outra e outra vez
mas, sendo, 
que não se abata sobre nós
 o mesmo sol indecoroso e pálido
que insiste em me insultar.

Mas, teimando o sol,
que não seja em março,
o mês do medo,
o mês que transforma em lágrimas suplicantes 
todas as certezas
toda a minha luz.

Mas, se houver sol
e tiver mesmo de ser março,
que nada tenha sido como foi
e eu e tu continuemos, num tempo coincidente.

Que problema tem
que haja um tempo (dir-se-ia) paralelo
em que possamos ser como se nada fora,
março ou não, brilhante de sol
ou negro de chuva? 


Ah, agora me lembro.

Vivi tão perdidamente um tempo absurdo e sem futuro
que o tempo ou a percepção dele me faz suar.

Prefiro, então, não sentir que existe tempo.

Certo 
é que este ou qualquer outro março
de sol se o for ou de chuva como sol
virá 
como veio aquele antigo
e me encontrei perdida
sem saber para onde seguir.

Sei!

Virá
o nó nas entranhas, o grito abafado na garganta.
Virá 
sempre e eu, 
outra e outra vez, sem saber por onde seguir.

Não há como escapar!
Embora eu continue de garras afiadas.


25 fevereiro 2021

As minhas dúvidas















Não sei ao certo quando o tempo deixou de acompanhar meus passos.
Se o reencontrei.
Terá passado ao lado, sem que eu o pressentisse
Ou reencontrarei.

Não sei o momento exato em que me desprendi dos meus passos, para antecipar os teus.
Mas aconteceu
Prever cada momento seguinte - chegar primeiro.
Calar palavras atrozes em que te ias perder - ouvir primeiro.
Suplicar que não ... à verdade assim tão nua - negociar primeiro.
Desclocar-me no tempo, no sentido inverso - sorrir primeiro.

Negociar um  ...  tantos "talvez" ...
Talvez com esperança!
Talvez com sorte!
Talvez com força!
Talvez a dois, a três!
Talvez a força de um amos jovem!
Talvez num embalo de música!
Talvez não mais ...

Adormecer, talvez,  num túnel de luz.








Do ser ou não ser quem sou ...





"Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter... calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e as minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorri, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderá julgar. Cada um tem a sua própria história. Não compare a sua vida com a dos outros. Você não sabe como foi o caminho que eles tiveram que trilhar na vida."

Clarice Lispector

21 dezembro 2020

Esta tremura que sinto!



Para onde correm as pessoas
Olhando em frente
Num esvoaçar atordoado?

Porque se enchem as ruas de gente 
Sem que ninguém repare 
Que não há sorrisos abertos
Nem música no falar
Nem risos
Nem abraços.

Mas é Natal!
 
Só pés cansados 
E pressa de chegar depressa
Ao sossego triste do lar? 

Vale o sentido do dever
Cumprido.

Pois é Natal.

Porque não param para olhar 
Quem passa por elas? 
Pois se até os ombros se tocam
Nos corredores apinhados 
E não sentem 
Nem reparam 
Que é a sua carne contra a carne de alguém 
Humanidade, mesmo ao lado 
Alegria ou então, talvez, dor 
Contra dor 
Contra alegria 
Saudade contra saudade. 
Melancolia a par de melancolia.

Fome até, talvez.
E é Natal!

Não sabem 
Porque não param 
Não olham 
Não falam 
Para além do preço regateado 
De mais um presente
Embrulhado
De mais um saco que se enche 
Para substituir o vazio amargo dos dias. 

E eu parada, cansada 
De ver as gentes correr 
Num rodopiar eufórico 
Elétrico 
Na busca de sentido para o nevoeiro 
Dos dias. 
Sem sentido. 

E eu, aqui, quieta, David. 
Tu ao meu lado. 
 
Sinto tão bem a tua cabeça apoiada no meu ombro!
Ainda mais, nestes dias
Em que a tremura aumenta.
Na iminência do Natal. 

E, embora estejas ausente, 
Tão inesperadamente ausente
E, eternamente, o lamente 
É, pelos teus olhos, que vejo o mundo. 
Ainda
Pelos teus olhos ausentes.

Este mundo que, num corropio, rodopia. 
Este mundo que  eu estranho
Mas 
Por onde o teu coração me guia.

24 julho 2020

TU, no passado, no presente, no futuro

Olha.

Lá anda ela a cavalgar o tempo
A navegar sentimentos
Nos soluços presos na garganta seca
Não sabe se regressa do futuro imaginado
Se recua, imprecisa e ressentida, do passado
Para, de olhos entreabertos, mergulhar
E emergir sonâmbula no presente


Lá anda ela
A louca dos sentidos
A alongar-se no largo oceano
Onde estás
Em cada grão de areia
Em cada fio de alga


Contigo
Imaginado, apenas
Sente-se cavalo-marinho
Um búzio
Ou estrela do mar

Regressa, então
à teia



10 dezembro 2019















(E)ternamente sua, Mamã!









"Devias saber que é sempre tarde que se nasce, que é sempre cedo que se morre. E devias saber também que a nenhuma árvore é lícito escolher o ramo onde as aves fazem ninho e as flores procriam."

Albano Martins

12 abril 2019

Vida quê?











sim, compreendi

desta vez
acho mesmo que compreendi
que não existe forma acertada
(ou não)
de compreender a vida

só há que volteá-la entre os dedos
qual bola de golfe
ou outra bola qualquer
que caiba numa mão quase fechada

só há que a fazer saltitar entre uma e outra mão
para que não magoe
e se torne tolerável
a dureza
o peso
a rugosidade

ou outra coisa qualquer

26 março 2019

lugar fixo



que interessa seja março ou maio, 
sei que abril se aproxima
ou outro mês com nome a inventar
há sempre um amanhã qualquer
a chegar ou já chegado
que se repete, 
renovando o bater das asas das gaivotas que vejo da janela
ou em frente ao mar
talvez as mesmas de amanhã 
as de há pouco
os gritos repetidos que se soltam dos bicos
volteando por sobre os telhados de vermelho envelhecido
como a mão que escreve sem pensar

quem sabe

terão trocado de lugar
viajado comigo
e agora lá ficou deserto
só tu
na tua rocha cinza
nas marcas das patas das gaivotas no areal húmido
nas ondas cobertas de cavalos marinhos
saídos
do verde transparente do fundo oceânico
adormecidos em conchas de luz
ou baloiços de algas

trocaram de lugar
há sempre qualquer coisa
uma agonia
ou eu
qual grão de areia mais pesado 
que se mantém fixo à base da rocha cinza
e não troca de lugar
girando o resto num vórtice
de luz e sombra
e distâncias
entre marcas de tempo indistinto
e a  percepção dos dias embaciados de memórias
presas a esta mão que escreve
e não se pensa

apenas ao de leve


15 outubro 2018

Jazz faz tarde - David Sobral - Swing



Já se fazia tarde

Estava ciente disso, embora não acreditasse

Afinal, há coisas que não podem, nunca, acontecer

A minha incredulidade, ainda hoje

Saídos de casa, no dia 13, sábado, em direção à urgência

Internamento, a dois

Um quarto branco, a dois

Sorrisos tímidos e cansados, os teus

Meigos, os olhares de frente

E francos

Conversas sussurradas

De quem não deixa nada por dizer

Entre quatro mãos entrelaçadas

Dias que se iam desfazendo, a dois

Numa enfraquecer súbito

Na lonjura da casa, os dois

Donde chegavam só rumores

Que já não ouvíamos

Nada para além daquele quarto branco

Já nem a tua música







01 outubro 2018

"terapia de checkpoint imunitário"



1
Outubro recomeça.
Um Nobel da Medicina
Ensaio clínico
Falhado em Barcelona
Já então - Imunoterapia
Obrigada, David


2
Ouço a voz da minha mãe 
"Isabelinha, quando deixarás de chorar?", 
Sabendo ela que nem eu, nem ela, deixaríamos de chorar
A par do respirar
Ouço a voz dela, ouço a tua voz, David!
O meu silêncio entre soluços inaudíveis
Uma multidão de vozes entre assuntos que se vão sobrepondo e misturando
Uma amálgama de anos que se contorcem
Sem que se sobreponham ou confundam
Protegidos pela ternura
Antes 
Agora
Dias a fio de dor
Outros de quase serenidade

Mas em outubro
Tudo é disforme, porque sim
Nada faz sentido
O que não pode acontecer
Acontece
Embora não possa acontecer

Porque há certas coisas que não podem acontecer
Diziam-me
E eu fingia que sim
Que não
Com certeza, não

E então
Aconteceu, David
Mesmo sabendo que não podia 
Porque, afinal, às vezes, acontece
Ainda que fiquem
A voz
Uns olhos verdes alegres de ternura
Uma certa ironia
O pronunciar do teu nome que me faz virar, na rua
Os palcos vazios
A luz
E o convite
"Mamã, vamos dançar?"



3
1 Outubro 07
     "A minha vida é um caos. Todas as horas são dedicadas a tratar do David, das refeições, da medicação, das idas ao Sr. António, das idas à psiquiatra. Nada disso me cansa. O furacão é cá dentro. Só o deixo um bocadinho quando vou ao supermercado ou a Santo Tirso, mas nunca fica sozinho.
Foi a nova consulta com a psiquiatra. Já falámos com o médico, no passado dia 28. Esperança? Pouca! Já morri mil vezes! Não sei porque pergunto; a resposta é sempre a mesma.
Estamos à espera de começar o tratamento no HGSA. Sinto-me endoidecer e a ter dificuldade em manter a calma e a energia que o David precisa de ver em mim. Anda com crises de diarreia; o Imodium não resolve. Fezes brancas da icterícia. Está com pensos de 100mg de morfina, 1 Servedol, ao deitar; Xanax e Kainever. Para além do Dacortin e do Lasix, por causa da retenção de líquidos e dos pés e das pernas inchados.
Mesmo assim, vou dar com ele acordado e sentado na casa de banho, às duas ou três da manhã. Lá está, magro, esguio, quietinho. Não quer incomodar ninguém e não me chama; eu é que o ouço. Continuo a não tomar nada para dormir e sinto o mais leve movi- mento dele. Às vezes, ficamos, ali, os dois sentados! Ele a cambalear de sono; eu, para estar ao pé dele e... o levar de regresso ao quarto, para o ajudar a deitar-se.
As lesões aumentaram tanto! A quimioterapia, que vai fazer, tem de dar algum resultado. Apesar de triste, delgado, muito cansado (por causa do fígado), continua com projectos de espectáculos. O que é espantoso, impressionante e comovente! Eu incentivo-o; pergunto-lhe se já conseguiu programar mais algum espectáculo ou se vendeu outros. Ofereço-lhe a minha ajuda para qualquer coisa que possa fazer se ele me ensinar.
Como se a vida continuasse normal.
Dorme muito e não tem dores, felizmente. As dores que começou a ter em Barcelona fizeram do mês de Agosto um inferno. Com a morfina fica um pouco estonteado mas conversa bem connosco sobre o que vão noticiando os telejornais; fala mal do Rui Rio, sempre que há mais notícias sobre o abandono a que é votada a cultura e deita-se no sofá a ver a Mezzo, com os pés em cima de almofadas (por causa do inchaço) e a fazer algum zapping, como antes. É bom que ele esteja, assim, um pouco sonolento!! É estranho dizer isto, mas é mesmo o que sinto. Queria que o sofrimento, as dores, a ansiedade não o atinjam, que passem ao lado. Tenho a mesma energia de sempre, para fazer tudo o que é necessário, com uma luzinha de esperança em cada sorriso que lhe dirijo.
Eu vigio; estou sempre à distância daquele “Mamã,...”, mesmo dito em voz quase inaudível! É a única forma de o proteger! Sei que a solidão o assusta, quer-me por perto e gosta de saber se algum sintoma novo será normal. Como se eu soubesse! Nada é, agora, normal... Mas digo-lhe que vou telefonar ao médico. Quer que seja, sempre, eu a falar. Nunca mais falou com o oncologista, desde Junho, quando se soube que não podia ser operado ao fígado.
“De não saber o que me espera” do Zeca Afonso é a canção que me martela os ouvidos, de tanto a ouvirmos, desde que o David me chamou a atenção para ela, já em Maio. Tal como a canção “Do que um homem é capaz” do álbum “Resistir é vencer” do José Mário Branco. Sempre me transmitiu mensagens, assim, sub- repticiamente! Nunca mais se ouviu aquela outra canção “Happy! My life is O.K.”, com que começava os dias.
Pobre David! São os olhos tristes e lentos... o que mais me dói. Dói muito e de forma indescritível. Por isso, não desabafo com ninguém; dizer o quê? Qualquer descrição desta ferida que trago escondida ficaria sempre aquém da dor real. Já repeti, para mim própria, mil vezes – a minha dor não interessa aos outros.
E a mim, só me interessa o David. Este meu filho tão doente! Como o protegerei dessa ameaça negra?
O silêncio é o escudo protector contra o choro convulsivo do meu coração rasgado."
in "Mamã, vamos dançar?"



11 setembro 2018

10 Setembro 2007



11 anos!

Tempo difuso para além de qualquer contagem em ponteiros de relógio ou sol-pôr ou alvorecer.
Tempo palpável, rugoso e lamacento.
Lodo.
Tempo retilíneo de então para hoje, pontilhado de flashes de conversas a dois, de imagens soltas na intermitência dos dias ...
Todos os dias.

11 anos!
O ensaio clínico falhou, viram-nos as costas!
David, ... nunca foi nome. Apenas código de um número atribuído quando se mergulha de cabeça num ensaio clínico.
Davides, heróis anónimos,  contra Golias.
Descobrimos que estamos assustados e sós.
Tu estás só; talvez penses ainda que eu tenho um plano!
Sossegas, dormente, ...
Afinal, a mãe já rascunhou a próxima janela.
Eu não! Eu sei que estamos sós numa jangada sem rumo.
Qualquer porto serve.

11 anos!
Anoiteceu no calor infernal daquele verão em Barcelona.
Num banco de jardim, distante dos ouvidos de um filho, entre cigarros  alvoroçados, uma prece aflita ao outro filho cá longe.
Desenhar uma janela que se chame Paris!


11 anos!
As malas, feitas à pressa, estão à porta.
O Manel chegou do Porto. Último voo, urgente.
Amanhã, um regresso desassossegado, a uma casa sem rosto.





20 outubro 2017

Ainda tu!

Há já uns tempos, num Congresso para que o Manel foi convidado, pela Casa de Mateus em Vila Real, fui como acompanhante (convidada).
O tema do encontro era "O Infinito" e contava com a presença de pessoas extraordinárias - cientistas, físicos, matemáticos, juristas, artistas, escritores, teólogos, oriundos das mais variadas instituições de investigação e do ensino superior portuguesas e estrangeiras.
Depois da sessão inicial e de apresentação, no belíssimo auditório da casa de "residências artísticas", os debates fizeram-se à volta da lareira, enquanto se jantava, à mesa do pequeno-almoço ou ao almoço.
Enquanto os ouvia, ia formulando a minha própria "teoria" sobre a questão!
Sempre gostei destes assuntos, apesar de completamente leiga em conhecimentos científicos ou matemáticos.
Sentia-me pequenina, perante tanto conhecimento.
Acabei por me encher de coragem e disse o que pensava, enquanto pessoa comum, ateia e mãe que perdeu um filho!
Falei de ti ..., do Tempo ..., da Vida ..., do livro que escrevera ...
Ouviram-me com atenção, apesar da tremura na minha voz e da humildade com que me apresentei.
Debateram sobre a minha opinião, a de alguém fora do circuito.

Um padre jesuíta, doutorado em Teologia e também em Física, um Teólogo, professor de uma universidade espanhola, e um professor de Física da Universidade Nova de Lisboa vieram conversar comigo, no fim do debate.
Ali ficámos, sentados nos sofás, em frente à lareira, já a noite se alongava.

Lembrara-me das tuas próprias palavras e repeti-lhas "Mas eu sei que o segredo da imortalidade é saber partilhar com os deuses a maravilha da criação." 

...
No último dia, acabaram por me perguntar onde poderiam comprar o livro "Mamã, vamos dançar?"
Enviei-lhes (como oferta) pelo correio.
E chegaram mails que não quero esquecer porque são, também, sobre ti, David!
Por isso, os vou colocar aqui, nesta Casa da Venância
São Teólogos, ambos. Estudiosos com uma imensa cultura, pessoas espantosas que me aceitaram como sou.
Um deles continua a lembrar-se de ti/de mim/do Sérgio, nos dias 27 de Abril (o teu aniversário) e 18 de Outubro (a tua morte) de cada ano e envia-me palavras de compreensão e acalento!
Estou-lhe tão grata!


Cara Dra. Isabel:

Finalmente, venho de novo agradecer-lhe a possibilidade que me deu de ler o belo livro sobre o seu filho David. 
Gostei imenso e comovi-me muito, muitas vezes. A leitura, para mim, constituiu uma verdadeira leitura espiritual. Tenho o livro praticamente sublinhado em todas as páginas e o título expressa bem a grandeza do seu filho: “Mamã, vamos dançar?”. São tão belas estas palavras!
Verifico que foi uma experiência muito sofrida e dolorosa, a sua e a dele, mas, acima de tudo, o livro ressalta a coragem e a grandeza de um amor grandioso, cheio de cumplicidades, entre si e o David. Pelo que descreve no livro, o David era mesmo um ser excepcionalmente dotado, quer a nível humano (com um coração terno, delicado e sem fronteiras, com uma enorme bondade e facilidade para criar laços, fazer amigos e cativar pessoas), quer a nível das muitas capacidades de que era possuidor (culto e muito profissional em tudo o que fazia). Pela leitura fiquei com vontade de o conhecer.
Notei que ao longo do livro vai retomando, muitas vezes, algumas questões: 
- a perda do filho, mas também a saudade e a esperança de que não o perdeu (o que se nota em expressões do tipo “como poderia perder-te se andámos sempre juntos?”, ou “eu vou continuar perto de ti”, ou ainda “os filhos são eternos”);
- uma mágoa compreensível de o filho ter partido tão cedo (“porquê o David?”); 
- a impotência, a recusa (“um NÃO que grito cá dentro”), a revolta e a culpa (parece que não é capaz de perdoar-se?) de não ter podido ter feito mais por ele, de não ter percebido quando ele começou a ter faltas de apetite e cansaço; 
- a não-aceitação de que os médicos que viram os primeiros sintomas da doença do David não tenham detectado logo a gravidade da situação; 
- a relação difícil com o pai do David (apesar do divórcio pacífico) e respectiva família (o desinteresse desta – particularmente da prima – pelo David); 
- o ter tido pouco tempo, durante a doença do David, para dedicar a devida atenção ao filho Sérgio; 
- o tema da existência de Deus, que vai estando também presente, para contrapor à sorte ou ao mal e atrocidade da doença do David (“já que não acredito em deuses … teria agora todas as razões para deixar de acreditar”; por outro lado, lembra-se do caso da amiga Elsa que, com “tanta dor e ‘injustiça’, acreditava em Deus!”); 
- sente a perda do David como uma injustiça para ele (a morte roubou a felicidade devida) e para si;
- sente que a sua dor não interessa aos outros;
- medo de se terem acabado os sonhos e o sentido da vida…

Cara Isabel, vejo em si uma mãe grande, a mãe que o David merecia e continua a merecer! Admiro a coragem que teve para ajudar o David no seu calvário. Como já lhe disse, eu acredito que o Amor não morre. E o seu amor de mãe e o do David por si também não morrerão nunca. Gostaria muito de um dia me encontrar com a Isabel para a ouvir falar do seu filho, de viva voz e já não através das páginas do livro.

Nestes dias em que nós, os cristãos, meditamos no mistério da morte de Cristo, lembro-me também do mistério da morte do David e da dor da Isabel, pois trata-se do mesmo mistério de amor. Tenho-a presente nas minhas orações, bem como ao David, mesmo sabendo que a Isabel não é crente. Não me esquecerei também do dia 27 de Abril, em que o David completaria 37 anos. Eu acredito que ele já possui a vida e a paz definitivas, já sem sofrimento.

Desejo que tenha um bom dia de Páscoa, com muita paz e esperança, juntamente com o Sérgio e esposa, com o seu marido Manuel, a quem peço que dê os meus cumprimentos, e, claro, com o David, que a continua a acompanhar “lá do alto”, com a mesma alegria de sempre, e a desafiar a sua corajosa mãe: “Mamã, vamos dançar?”
Um abraço agradecido e amigo do

Álvaro

14 outubro 2017

Foi assim, num dia 14 de outubro



14 Outubro 07

É Domingo, já estou com o David, no 4o piso, no quarto 24. Só ao fim da tarde, é que nos trouxeram. Tiveram de mudar doentes de enfermaria para poderem ter um espaço para o David e para mim. Pediram, muitas vezes, desculpa pela demora, mas nós estávamos bem! O Manel veio logo, assim que se fez o internamento, já como visita. Esteve até às 20h. O Manelzinho também apareceu, sozinho, um pouco mais tarde; o David gostou muito de o ver e conversaram um bocadinho sobre “as coisas deles”.
Agora, o David dorme, aqui ao meu lado. Continua com soro e oxigénio e está calmo. Ontem e hoje foram dias de completo desespero, num silêncio gritante de pânico. Não sei raciocinar sobre esta avalanche de infortúnios; não sei o que fazer! Estou aturdida, lacerada por tantos golpes contínuos. Sei que não posso chorar, mas isso é muito pouco; sempre o fiz! Nunca a situação foi tão trágica e tão sinistra como agora. O David internado, com febre, sem força para falar, com dificuldade em ingerir líquidos, tão pálido!

Logo pela manhã, a psiquiatra veio ter connosco; deixei-a a sós com o David. Fui ver o Manel que já se encontrava, novamente, à porta da urgência. Contei-lhe, como pude, o que a médica que estava, agora, a assistir o David me dissera, quando eu tinha pedido para falar com ela.
... “cancro difuso”, nada a fazer, apenas mantê-lo confortável e sem dores; está bem hidratado... não tem sede... precisa que o animem e acarinhem... e chorei, chorei baixinho lágrimas incontroláveis, sepultadas bem no fundo de mim e presas no tempo. Ela tirara-me dali para que o David não ouvisse e segurou-me na mão. Ajudou-me a sentar, ali próximo, num cantinho qualquer. E chorei muito e mais e mais baixinho ainda. Ele estava com a psiquiatra; estava bem. Eu podia chorar só por um bocadinho!

Que sensações desconexas e de endoidecer! Não se explica porque tudo é sentimento, mágoa e demência em catadupa. Soube que o David já não vai sair deste hospital. Soube que estavam a tentar libertar uma enfermaria, só para o David e para mim. Soube que não nos iam separar ! Soube que era o fim; e que não tinha dores... Que talvez perdesse a consciência! Talvez coma! Por quanto tempo? Não sabe; ninguém sabe! Tudo imprevisível! Ficarei com ele. O tempo não existe.
E foi tudo isto que fui dizer ao Manel. E vi-o ficar “pequenino”, pálido,... encolhido de tristeza, derrotado e de ombros caídos. Uma batalha perdida! E chorámos ali, os dois. Encostados ao muro. À vista de toda a gente. Que interessava a gente? É o nosso filho que se vai...

Decidimos que não haveria rostos tristes, nem olhos molhados ou inchados de choro, em frente ao David. Nem suspiros de desânimo. Nem perguntas a que ele não sabe responder. Foi o que combinámos, nesse instante. O David, quando ficar bem, vai regressar a casa. É assim que ele pensa que será. E nós con- firmaremos... Não aceitaremos desiludi-lo! Seria cruel demais!
Ele deixará sonhos, utopias, um rasto de músicas e sons, uma espantosa capacidade de se dar aos outros e uma grandiosa paixão pela vida! A herança dele é um inexpugnável castelo feito de coragem, de solidariedade e de fortes laços de ternura. A chave desse castelo... leva-a com ele. Só ele a sabe usar!

Entretanto, a psiquiatra já tinha conversado com o David e, quando cheguei à beira deles, informou-me que o David tinha repetido que não queria ficar sem a mãe e que ela já o tinha sossegado. Eu ficaria com ele! E o David acenou-me com a cabeça, como quem diz “Está tudo resolvido!”
Perguntou se a Olga já estava lá fora, tinha saudades dela; ficara de vir um pouco mais tarde; não devia tardar. Perguntou pelo Manel que o foi ver, já de olhos bem enxutos; falaram de futebol. A Carla apareceu-lhe, sorridente.
O David perguntou se o Sérgio não tinha vindo! Tinha vindo; estava, lá fora, muito perturbado e um pouco renitente em entrar! Foi a própria médica que foi ter com ele e lhe explicou que o David estava bem disposto e que tinha dito que gostaria de receber a visita do irmão. O Sérgio acatou, timidamente, e foi vê-lo. Sei que lhe estava a custar dominar-se para não demonstrar emoção. Mas só podemos pensar no David! Não vai ter muitas mais ocasiões de estar com o irmão! Já mo disseram, já o repetiram; sei que é assim, embora não consiga acreditar no que sei ou no que os outros me dizem... Há coisas que não podem acontecer!
O tempo alongou-se na urgência. O David quase nada comeu do que lhe trouxeram, apesar de passado. Na cozinha, já sabem do menino que não consegue engolir e que precisa que lhe passem a comida. Foi dormitando, acordando e conversando... dormitando... Eu fui vagabundeando entre o dentro e o fora da urgência, sem saber o que fazer, o que sentir, o que pensar. O Manel ficou mais um bocadinho só com o David. Ninguém impede a nossa entrada, desde que seja um de cada vez. Devem estar informados do que se passa. A Olga chegara e eu precisava de conversar com ela, antes de a deixar ir ver o David.
Chegara o momento cruel de toda a verdade, e eu não encontrava as palavras, não sabia como dizer-lhe. Ela sempre foi optimista, tal como o David. As nossas conversas à mesa sempre tinham tido como tema os projectos do David, os concertos do Drumming, a profissão da Olga, o nosso dia-a-dia e, por vezes, o decorrer da doença do David. Mas sempre num tom confiante!
Sentei-me, encostada ao muro, junto da Olga, a fumar e a tentar explicar-lhe, no meio de lágrimas, que o David vai viver pouco mais. Contei-lhe tudo o que a médica dissera. Senti-me tão culpada pelo sofrimento dela, por esta revelação tão súbita... Nunca lhe pude dar tempo para se preparar,... Mas como? Se eu nunca estive preparada! Se eu não estou preparada! Mesmo agora!
Custou tanto dizer esta verdade tão cruel a uma rapariguinha que sempre acreditou que o David se ia curar; que o amou e apoiou nos bons e maus momentos de um namoro tão atribulado pela
doença. Doeu muito magoar, desta forma tão áspera, aquela a quem o David sempre dissera que só era preciso ter um bocadinho de paciência. Só mais um bocadinho de paciência! Sentia-me como se estivesse a magoar, a trair o David!
Pedi-lhe perdão. Pedi-lhe compreensão. Mas não podia ter feito de outra maneira! Pelo David e pela paixão com que vivia! Também eu e o Manel acreditámos, sempre, que talvez fosse possível o David melhorar. Não podia destruir-lhe esse sonho; não era justo que ela tivesse vivido cada dia no mesmo sobressalto em que eu vivera. Porque cada momento da minha vida fora, desde há muito, vivido num medo tenebroso. Agora, a única coisa que podíamos fazer pelo David era... viver com ele como se tivéssemos todo o tempo do mundo, como se a nossa confiança nos tratamentos continuasse!
O David teria orgulho na Olga... que, serena mas muito triste, me disse que o amor pelo David era o de sempre e que eu não devia ter receio; ela saberia controlar-se à beira dele e manter-se confiante!! Se era a única e última forma de continuar com o David, fá-lo-ia, como eu e como o Manel
O pai do David, que chegara e se aproximara de nós, ouviu tudo o que eu dissera. E poderá visitá-lo? Não depende de mim... nunca dependeu, aliás! Será como o filho quiser. Tentarei falar com o David, amanhã, numa altura em que esteja sereno. E chamá-lo-ei se ele quiser a visita do pai. Mas o David espera regressar a casa...

São onze horas da noite. O David está encolerizado! O novo médico assistente veio observá-lo e conversar um bocadinho com ele. Disse-lhe que, amanhã, terá a visita de uma prima médica (de quem ele não fixou o nome!) e que virá acompanhada por uma colega dela que trabalha, aqui, no HGSA.
O David percebeu imediatamente de quem se tratava. Insurgiu-se; ficou muito inquieto e alvoroçado, “Se quiser ver alguém, eu telefono! Não a quero aqui! Nem a ela nem a ninguém... nem aqui nem em casa! Mas porque nunca respeitam a minha von- tade? Que não se atrevam a entrar! Dr., pode dizer-lhe que se a vir aqui, chamo os enfermeiros para a porem na rua. Envergonho-a!”.

Eu tinha prometido perguntar sobre a vinda do pai. Mas, perante a ameaça da visita surpresa da prima e pela reacção exaltada do David... percebi qual seria a resposta. Ele acabava de a dar! O David não tem paz! Esta rapariga não respeita a privacidade de ninguém; impõe-se às pessoas; só pensa nela. O David está vivo, ó deuses. Deixem-no manter a sua integridade até ao fim!
O médico não sabia o que dizer; desculpou-se. Disse que daria o recado! Coitado, não fora por mal, antes pelo contrário. Pensava que estava a ser simpático; que o David ficaria satisfeito! O David esclareceu-o que a mãe tem autorização do director deste serviço para permanecer aqui sempre e que não haverá nenhuma visita surpresa. Nenhuma! Porque é assim que ele quer!
Só interessa proteger o David, com calma e sem que nada haja de diferente do usual, neste quarto. Temos-lhe dito que o internamento se destina a combater a infecção e a febre e que, depois, vai para casa.
Estranharia, até, se começassem a aparecer pessoas com quem não tem tido qualquer contacto ou que pouco se aproximaram dele na fase mais difícil da doença – antes de irmos para Barcelona. Apesar de estar um pouco entorpecido e dormente (por vezes), o David é muito inteligente e perceberá que algo não está bem se começarem a rondar-lhe a cama do hospital, de forma inusitada.
Tenho de manter o sangue frio! Isto não vai transformar-se num velório. E não é! Não quero o David apoquentado! Não o quero triste! Mais triste ainda? Tudo deve ser encarado como uma fase de internamento para combater a febre. Não; sei que não é assim!! Não voltaremos os dois a casa! Mas é a única coisa que posso fazer, ainda, pelo meu filho – protegê-lo do sofrimento atroz que seria alguém dizer-lhe “Não penses no amanhã! O mais provável é que lá não chegues! Venho despedir-me.”.
Não, não posso consentir numa atrocidade dessas para este rapazinho já tão frágil, já um pouco anestesiado... mas sempre tão doce? Ele sempre me disse que havia perguntas que não fazia porque não queria saber a resposta! Que direito tenho eu de lhe dar respostas para esta situação. Fez as opções que entendeu e eu não tenho direitos. Só o dever de o respeitar.


O meu filho tem o direito de se sentir vivo, até sempre! Está vivo, ainda nos sorri! Ainda me dá o meu abraço da noite! Ainda fala da vida pela frente e dos sonhos a realizar.
Está vivo e quero olhar para ele, sem que sombras de lágrimas ou desacertos da vida o perturbem. É um direito que ele conquistou! Quem lho poderá negar? Nunca os que o amam! E são muitos os que sabem que ele se entregou por inteiro, ingenuamente e sem escudo a todos os que conseguiram penetrar na sua cidadela feita de luz e de imensa bondade.
Dorme bem, meu filho! 

06 setembro 2017

A marca das datas.














6 Setembro 07

 

Hoje, logo pela manhã, recebi um telefonema do X. Disse que o tratamento teria de ser adiado; as bilirrubinas do David estão muito altas. Comecei a suar, suores frios, e senti a força a esvair-se. Outra vez aquela sensação de precisar de vomitar!! 
    Avisei o David, ainda sonolento, tentando não demonstrar pânico, e disse-lhe que era melhor continuar a dormir. Comeu porque estava em jejum e voltou a adormecer, até à uma da tarde. Enquanto dorme, o tempo passa, não pensa nestas imprevistas alterações e descansa. Sobretudo, não pensa!!
Já tinha visto no protocolo do ensaio qualquer coisa relacionada com as bilirrubinas, mas, na altura, não prestei atenção. Não imaginei que pudesse suceder também com o David. O ensaio também é para o mieloma. Mas tudo de mau acontece ao meu filho!
As bilirrubinas estão relacionadas com o fígado! Será disso a cor amarelada da pele? A Dra M. telefonou, mais tarde, a dizer que temos uma ressonância ao fígado marcada para hoje à tarde, na Clínica dell Pilar. Lá fomos. Esperámos um bocadinho, o David entrou e deram-nos logo “as chapas”. O relatório será enviado, por fax, para a médica.
Regressámos, logo, a casa, depois de uns minutos numa esplanada para bebermos água. O cansaço não se aguenta e eu ando como um zombie. Amanhã, vamos ao hospital, saber do resultado da ressonância!! Que mais irá acontecer? Maldita pouca sorte! Tanto sofrimento! Porque não morrer-se, durante a noite... um sono que se prolongue e se alongue, alongue... profundo e sem acordares dolorosos para mais um dia de dor? Porque não, enquanto há esperança... mesmo que seja vã! Percebo melhor, agora, aquele ditado popular “Enquanto há vida, há esperança!”

Liguei à Graça Ferreira, minha colega e amiga da escola, e à Berta Ribas; preciso que me digam o que poderá estar na origem deste tom amarelado e das tais bilirrubinas. A Berta, como sempre, brinca comigo e disse-me que a icterícia é o que têm os bebé. A Graça falou com o marido. Foram sempre muito amáveis, pacientes e disponíveis para me aturarem, nas minhas crises de dúvidas e de inquietação. De forma suave, sempre me animaram, mas nunca me enganaram. Tanta gente que nunca me quis dizer que podíamos avançar com confiança; com muitos maus bocados pelo meio... mas com confiança! E uma possibilidade veio ensombrar os meus dias já tão tristes... descoberta na internet. Pode não ser nada, mas também pode ser uma metástase do fígado que aumentou e que pode estar a bloquear as vias biliares. As minhas mãos tremem! O coração desata a latejar, apesar de cansado de se debater contra o pânico, contra a amargura de ver o meu filho sofrer tanto.
Têm sido assim os dias e a vida, desde Março de 2006.
Já não me lembro de ter outra. Onde não vivesse afogada em medo!
É o meu filho!
E dizem-me que tenha fé; Deus existe! Onde está, que não o vejo? Que preciso de acreditar! Talvez. Mas acreditar em quê? Em quê?
Na sorte! Não, a sorte nunca esteve de mão dada connosco.
Tivemos muitos amigos a torcer por nós! Pelo David! Mas fomos, também, alvo de inesperadas atitudes de desdém e inacreditáveis surpresas de completo desamor.
Não, a sorte não protege os audazes! 


12 agosto 2017

Não, em Agosto, não me peçam que não chore!!


                                               Barcelona, 2007

10 Agosto 07

São 7 horas da manhã; estamos no Hospital Bellvitge, muito distante do centro de Barcelona. Acordámos cedo, às 5.30h, para chamar um táxi.
Deixei, agora, o David lá dentro, deitado numa marquesa, próximo da sala onde vai fazer o PET. Ficou meio adormecido, por causa do relaxante muscular muito forte que lhe injectaram. Estamos na sala de espera; o Manel ocupa o espírito com as suas intermináveis paciências, no Palm; eu faço malha.
O PET não é um exame doloroso. Dão uma injecção para relaxar os músculos e depois um técnico activa uma “maquineta” sofisticada que olha para dentro de todo o corpo. Causa apreensão e muita ansiedade, não saber o que se passará lá dentro. Eu fico mortificada com estes pensamentos que me assaltam, constantemente. O David parece aceitar estes exames com alguma descontracção e optimismo. Aproveita para dormir, já que fica completamente relaxado.

Mal terminou o PET, chamaram-nos um táxi e dirigimo-nos ao Vall d’Hebron, onde o David iria fazer as primeiras biópsias.
Não estávamos preparados para o que se passou a seguir.
No hospital, estava o X. à nossa espera com duas técnicas que lhe fizeram a biópsia à pele e que o David disse não ter custado. Depois, em passo acelerado e com o David ainda muito sonolento por causa do PET, fomos para o bloco operatório, onde lhe fariam a biópsia ao fígado.
E foi horrível, horrível e pavoroso! Foi tremendamente doloroso! O David não estava psicologicamente preparado para tanta dor. Tinham-nos dito que lhe davam uma anestesia local e que não custava muito. Mas a anestesia local é uma treta; tudo uma
aldrabice; o fígado é um órgão grande e está profundo... Dói mesmo! Dói muito!
Vimo-lo sair de lágrimas nos olhos, muitas lágrimas,... tantas lágrimas! Oh, meu filho! Muito triste, sombrio, em estado de choque, muito revoltado, a queixar-se do sofrimento... que tinha sido medonho. E ele que tão raramente se queixou, até hoje. Deve ter magoado tanto, tanto, meu filho! Como pode ser permissível? Deve ter sido um inferno, meu pobre David.
Não é possível, assim! Eu não posso fazer nada por ele, sinto- -me destroçada; impotente e revoltada também. Como não é possível sedar o doente para uma biópsia tão agressiva? Não compreendo.
Mas tenho de ser forte, não posso exteriorizar o que sinto; é ele que tem direito a desabafar, a chorar de sofrimento, a revoltar-se contra a dor, contra a doença. Sentámo-nos ao lado dele, dei-lhe a mão, a tentar acalmá-lo. Juntaram-se-nos as duas técnicas patologistas que levavam, numa “caixinha térmica”, os tecidos da biópsia. Também elas faziam festas na cabeça do David e nos diziam, com os olhos, que sim, que era muito doloroso.
“Mas por que razão mentem? Os médicos deviam sujeitar-se aos exames que mandam fazer para verem se custa ou não! A anestesia é uma intrujice!”, protestava o David, furioso e exausto. Nunca o tinha visto assim, a queixar-se. Eu e o Manel não sabíamos o que fazer. Pedimos ajuda; tomou dois analgésicos que uma enfermeira lhe trouxe. Sem grande efeito! Deve haver qualquer coisa que lhe tire estas dores, protestava eu. Assim não! Isto é desumano e ele está doente e debilitado. Que pavor!
Permanecemos junto do bloco operatório até o David sossegar e conseguir pôr-se de pé. Estava pálido, curvado e chorava, ainda, com o braço por cima dos ombros do Manel que o segurava. Depois fomos a andar, devagarinho, até ao bar, para ele comer alguma coisa; já passava das três da tarde e estava em jejum desde ontem à noite.
As dores continuavam ainda violentas. Comeu qualquer coisa e bebeu duas orchatas geladinhas. Mas tinha um ar tão, tão desalentado, como um balão que, subitamente, se esvazia e encolhe. Ficou de rastos. Insistiu em dar-me a mão e o braço ao Manel; ele que foi sempre tão corajoso, neste tipo de coisas. Pobre filho meu!


Que faço da dor, do medo, da solidão, do sofrimento imenso que não despega de nós? Como ajudo a debelar o padecimento que se vai abatendo mais e mais sobre o David. Não suporto vê-lo assim. Apetece-me morrer.

São quase 21h. Estamos em casa; o David está, ali, a dormir na nossa cama.
Esperamos, em silêncio, que acorde... quando acordar! O repouso só lhe pode fazer bem; não temos pressa. O tempo não nos importa! Não temos nada para fazer, a não ser tomar conta dele e deixá-lo descansar.
Subitamente, alguma coisa mudou. Dores, não!