22 janeiro 2009



Às vezes, sento-me aqui apenas porque não sei para onde ir.
Às vezes, sento-me aqui porque só aqui encontro o ombro ausente do David, onde apoiar a minha cabeça cansada.
Às vezes, só aqui posso deixar de fingir que tudo está a melhorar e que o tempo me vai curando.
Só aqui, posso gritar em silêncio e dizer que não compreendo.
Ao olhar as fotografias, coladas na cortiça da parede do teu escritório, navego para um lugar ausente, para dias distantes e em que quase tudo fazia sentido.
Acontece os filhos morrerem, acontece.
Acontece também que se fica perdida, embora se conheçam todos os caminhos, todos os gestos necessários, todos os rituais próprios de cada dia da vida.
É na vida que se fica perdida.
Por isso, me sento aqui, neste lugar onde tudo ficou suspenso.
Onde não há qualquer esquecimento.



Atraso


Não me quero atrasar
Não quero perder este comboio
Sempre a andar.
Quero sentir tudo o que possa agarrar.
Se parar, sei que vou morrer.
E terei que ceder a minha vez.
Não quero para mim essa languidez.
Não me travem esta força, porra!
Esta energia que trago cá dentro.
Quero agarrar a vida, ser um aventureiro.
Causar impacto e dispersar-me do centro.

David Sobral (1995)

2 comentários:

jaime latino ferreira disse...

ISABEL VENÂNCIO

Minha Amiga,

Às vezes penso porque persisto em cá vir ...

Às vezes penso, sobretudo, porque desde Junho do ano passado não deixei mais de cumprir religiosamente a passagem por aqui, pelas Suas páginas e deixando sempre marca, fôsse nas reflexões que nesta caixa Lhe vou introduzindo ou nos mails que a minha Amiga, tão generosamente, tem editado junto com as Suas primeiras páginas e que tanto me têm lisongeado.

Às vezes penso na diferença que vai de uma situação concreta e entranhada, revolvida do interior e a reflexão exterior de quem, por interposta pessoa do que a minha Amiga escreve e aqui deixa publicado a ela reage e contrapõe, sendo certo ser minha intenção, tê-lo-á reparado, aliviar-Lhe a dor que afinal, tão longe de mim está e à qual não chego nem toco senão por aproximação ...

... não lhe chamaria retórica por pressenti-la mas vinda de fora, de uma proximidade partilhada mas tão longíncua!

Às vezes quase me deixo convencer haver remédio, resolução para a Sua dor para logo sentir que, por mais que se diga ela persiste em Si mais do que renitente, perpétua e insuperável.

Às vezes penso mesmo que por mais que se poetize ou se discorra na lógica outras dimensões há, sei que as há (!), que delas nos descolam e puxam, fazem sangrar, irremediavelmente, indefinidamente.

Às vezes, na Sua racionalização da dor, porque a escrita, o que a minha Amiga escreve é isso mesmo, projecta-se com tanta força aquilo que sofre que esse sofrimento racionalizado e amplificado mais a tolhe ainda, não bastara já tudo aquilo que sofreu e que continua a sofrer.

Às vezes, como hoje, apetecia-me remeter-me ao silêncio e deixá-La estar, deixá-La prosseguir, sem mais incómodos, a Sua viagem, nesse vale de lágrimas perante o qual tão impotente me sinto.

Escrevia-me uma aluna minha em trabalho que voluntariamente me entregou outro dia que do silêncio nascem todas as coisas e que só ouvindo-o se consegue, também, prescrutar a música.

E é bem verdade!

Se eu não ouvisse o silêncio da Sua dor, não teria ficado a percebê-la melhor, tanto que não há palavras ou poucas há que a consigam consolar ...

A minha Amiga sabe que há uma e que essa começa pela letra D.

Eu sei que pelo menos duas há, ambas a começar por D e ambas com um tal impacto ... que se dispersam no centro!

No centro de cada um de nós.

Um beijinho, Seu

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 22 de Janeiro de 2009

Anónimo disse...

Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

(C. Drummond de Andrade)
Um bjs.MM