28 novembro 2008

Esconderijos



Procuro-me.
Ando por aí, espalhada em gavetas, em caixas de papel, em diários dispersos.
Ando por aí, perdida nos quartos onde cheiro restos dum tempo que se fixou, imóvel, nos meus olhos, na pele.
Perco-me, por aí, por estradas e ruas que percorro, na fuga de mim própria, numa imitação de actividade e de urgência, para que não me quede em nada.
Finjo que me movo; dentro de mim, agitada, estou parada.
Páro a cada esquina da casa; onde cada foto conta uma história.
Disperso-me por entre projectos inacabados ou nem mesmo começados, apenas sonhados.
Refugio-me entre sons do dedilhar de guitarras, dum sopro de clarinete ou duma voz mais rouca.
Sigo, com os olhos perdidos, o rasto branco dos aviões que rasgam o céu amarelo do lusco-fusco.
Ainda, nos vejo, em cada um, cansados mas persistentes na busca duma brecha no destino.
Refugio-me nesse teu "Redondo Vocábulo", numa sala de espera..., nuns degraus de um quarto de danças, onde a fúria cresce, ... clamando vinganças.
Ando por aí, num tempo e espaço sem nome.
Parti-me em mil pedacinhos de dor e lágrimas que vou espalhando, dia a dia, por aí.
Nada mudou.
Vejo a distância separar-nos e eu tento resistir ao curso do tempo.
Não me empurrem.
Ainda é cedo para recolher dentro do coração toda a saudade e memórias que deixaste ... dispersas, por aqui.
Por isso, ando por aí, seguindo os teus passos, as tuas imagens tão nítidas.
Procuro-me, por aí.

23 novembro 2008

"Navegar é preciso, viver não é preciso." Caetano Veloso



Cansaço.
Tanto cansaço!
Cansaço pela contínua e repetida perplexidade perante os sofás vazios; perante o silêncio que substituiu a música e os teus sons; perante o lugar de alguém que se ausentou, à mesa; perante o cheiro, o teu cheiro, que se mantém no quarto que ficou vago; perante a ausência do movimento da tua silhueta ao descer as escadas à hora do jantar; perante um bengaleiro onde já não estão os teus Kispos ou a tua sacola de pôr a tiracolo; perante o espaço vazio da secretária, onde pousavas a agenda de cada ano; perante o quadro magnético da parede, onde não há mais registos de espectáculos.
Lá só escrevi - 16 de outubro "Mamã, vamos dançar?"
Mas a letra é a minha.
A forma da tua letra, tenho-a desenhada na mente.
Letra vincada, letra um pouco torta, um pouco infantil, letra de quem escreve com a mão esquerda.
Embora tocasse guitarra com a direita.
Numa constante dualidade - ingenuidade e auto-confiança.
Ando cansada de levar cada dia ao fim do dia.
E não me revejo na que vejo que era antes.
No tempo de lá, a outra era uma fera que lutava, do nascer ao pôr do sol, pela sua cria. Decidida, silenciosa, risonha até ao escuro da noite.
Esta,
a que acorda perplexa para dureza da vida,
é um animal ferido de morte
que se esconde em si,
que se protege dos olhares, para lamber as feridas.
Até ao amanhecer.
Onde, antes, era o anoitecer.





Fui envenenado

Fui envenenado pela dor obscura do Futuro,
Eu sabia já que algo se preparava contra o meu corpo,

agora torço-me de agonia

nos versos deste poema.

Esta é a terra outrora fértil que os meus dedos dilaceram.

Os meus lábios são feitos desta terra,

são lama quente.

Vou partir pelo teu rosto para mais longe.

A minha fome é ter-te olhado

e estar cego. Agora eu sei que te abres para o fogo

do relâmpago.

Tenho a convicção dos temporais.

já não sei nem o que digo nem o que isso importa.
Guia
dos meus cabelos rasos, da melancolia,
da vida efémera dos gestos.
Nesse dia fui melhor actor do que a minha sinceridade.


A cesura enerva-me no estômago.

Cortei de manhã as pontas dos dedos mas sei já que

elas crescerão de novo a proteger as unhas.

Talvez a vida seja estranha.

talvez a vida seja simples,

talvez a vida seja outra vida.


A linha branca da Beleza é a minha atitude que se transforma.

A violência do sono sobe

sobre o meu conhecimento.


Fui algures um horizonte na secessão das pálpebras.

Nuno Júdice

18 novembro 2008

Não sinto!




Quase sem pensar, sei, ao acordar que é de dezoito o dia.

Quase sem pensar, sei que as forças, neste dia mais do que nos outros, vão soçobrar.

Este zumbido na cabeça aumenta e tudo à volta se resume a sombras sem cara que passam por mim.

As vozes que ouço vêm de longe e não lhes entendo o significado, embora responda.

É assim que quero andar, porque só assim consigo avançar.

Sabendo que é por um filho que parte, a cada novo dia, e deixa atrás de si uns olhos que o procuram...

As luas passarão e eu continuarei à procura.
Dezembros seguidos de Janeiros e mais outro Abril e outro e outro; não vão desistir os meus olhos de procurar.
Uma feição, um som, uma cor de olhos, uma gargalhada, uma certa forma de andar,um sorriso e uma tristeza no olhar...

Em vão!

Mas não deixam de procurar.

Faço-o sem pensar.

Hoje.

Quero que não me perguntem nada.

Não saberei responder...

Que não me consolem.

Não está nas vossas mãos...

Que não tentem convencer-me de que vai mudar.

Não vai, seguramente...

Que não olhem para os meus olhos vermelhos de chorar.

Não os sinto...





PARA DENTRO

Como serão as entranhas sem filho
Perdido
Despido de cá e lá
Lá longe no Mundo
Andar de andarilho
Como será
Óh como será

-.-

Como será o vazio sem sentido
Sentindo-o comigo
Sem ver o que sinto
Ao vê-lo despido
Sem querer o castigo
Como será
Óh como será

-.-

Olhando para dentro não sei o que digo
Se tudo o que sinto e trago escondido
Neste labirinto
Perdido e que finto
Sem dar-se por extinto
Como será
Óh como será

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 17 de Novembro de 2008

17 novembro 2008

Uma certa forma de prisão




Não.
As minhas ausências temporárias não significam que ande bem ou, mesmo, melhor da saudade que tomou conta de mim.
Não se melhora duma saudade desta dimensão.
Apenas me absorve de tal modo que até escrever se torna, já, inútil.
Nem as fotografias, nem as músicas, nem os textos, nem as palavras ou os gestos mil vezes recordados, nem os diários me serenam.
Nada abranda e, a cada momento de inacção, me sinto perto de novo e cada vez mais fundo precipício, próxima de desistir, de me afundar, de cruzar os braços...e chorar.
E, então, choro salgado. É como se toda a água do mar onde te deixei me percorresse os olhos e brotasse sempre e sempre e sempre.
Faltas-me ... e é tudo.
Nada a perceber ou compreender ou esquecer.
O tempo corre, mas eu permaneço entre telas brancas e virgens que nada conspurca.
Perante os meus sentidos, debruçados para dentro, continuam a passar as sequências dos dias e dos caminhos que percorremos; continuam a desenrolar-se os combates que travámos; continuam a sorrir tenuemente algumas boas novas que nos empurraram para a frente; continuo a afundar-me em cada ilusão, logo e cada vez mais cruelmente, desfeita; continuamos a apertar as mãos num acordo tácito e mudo de que vai ser preciso ter coragem.
E tivemos tanta coragem; tu tiveste tanta, tanta coragem ... a chegada é sempre igual...

Nestes últimos dias, tem-me vindo à mente uma conversa brincalhona que o David tinha comigo.
Dizia-me, ele " Apesar de mãe galinha, portaste-te muito bem quando o Sérgio saiu de casa. Não choraste, não fizeste "cenas". Como eu passo o dia por aqui, contigo, vai custar-te muito mais, quando eu sair. Vai-te mentalizando!! Está a chegar o meu dia!"
E sorria-me com ar gozão!
E chegou esse dia.
E nada foi como sonhara.
Ficou prisioneiro, aqui.
E eu com ele, com os sons da música dele.

13 novembro 2008

Diário


Óleo da minha amiga Lucília Figueiredo


Terminei o livro

diário

percurso da tua doença

nossa vivência

da tua coragem

da minha luta

do teu carinho

da minha secura de olhos

das noites em branco

das mãos que se uniram

dos teus passos determinados

da música sempre presente

de desentendimentos

de calor humano

da solidão

de um convite para dançar

já fora do nosso tempo

da libertação no mar.


Não sou capaz de o reler... Para já!


Fio

No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.

Tu não vês o jogo perdendo-se
como as palavras de uma canção.

Passas longe, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão...

— Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?

Cecília Meireles