29 abril 2008

Tenho a alma virada do avesso.



Continuamente, me pergunto porque não vi os indícios da doença do meu filho.
Como é possível que tenha morrido?
Algo me preocupava, naquele Março cinzento. Revejo essa preocupação, escrita, no diário da altura – Fevereiro/06
Falhei no meu papel de mãe; era suposto tê-lo protegido.
Nunca me convencerei de que era inevitável. A tristeza que levou para Barcelona, naquele Agosto sufocante, pode ter fragilizado o seu corpo cansado. Que sei eu?
À força de tanto cismar, perco-me, aprisionada, numa realidade que desconheço e me consome e desespera. Não tenho a chave da prisão.
Alguém ma tirou e deitou fora.
Ou tê-la-ei guardado e não sei onde está?
Vou-me habituando à penumbra da casa, de mim e a pequenos raios de sol ocasionais.
Não quero muito.
De que serve criar raízes?
Sou apenas hóspede da vida, da ternura que ainda me couber na roda da sorte, do azar, do destino, deste dia exacto, do antes que vivi e, talvez um pouco, do depois que me espera.
Sou hóspede do coração de quem me ame e deste mundo que habito, tenuamente.
Apenas, hóspede. Sem demasiadas exigências
Por isso, fechada no meu casulo, ouço e vejo, ao longe. São sons, em tudo semelhantes ao silêncio; desaprendi o significado das palavras.
E estranho-me; ando perdida em torrentes de palavras e na total ausência delas.
Tenho a alma virada do avesso.



A MÚSICA

Arrasta-me por vezes como um mar, a musica!
Rumo à minha estrela,

sob o éter mais vasto
ou um tecto de bruma,

eu levanto a vela;

Com o peito p’rà frente
e os pulmões inchados

como rija tela,


Escalo a crista das ondas l
logo amontoadas

Que a noite me vela;


Sinto vibrar em mim
as inúmeras paixões

De uma nau sofrendo;


O vento, a tempestade
e as suas convulsões

sobre o abismo imenso

Embalam-me.

Outras vezes é a calma,
esse espelho

Do meu desespero!


BAUDELAIRE (1821-1867) As Flores do Mal

28 abril 2008

Esse país estrangeiro, o tempo.



Há 30 anos nasceu um menino. Era meu.
Pequenino, bonito... um bebé, mesmo.
Na solidão do quaro da Ordem, procurei um nome que lhe ficasse bem.
Chamei-lhe DAVID.
O menino cresceu, fez-se homem, jovem adulto.
Rapazinho de olhar doce e sorriso meigo.
Sem medo de demonstrar emoções.
Com sonhos, alegrias, tristezas, frustrações, desilusões e, de, novo, novos sonhos, sempre mais ambiocosos. Mas seguros e rigorosos. Um profissional.
Sobrou sempre um lugar para a mãe, que, por razões que só o coração conhece, adorava.
Era eu...
Foi um orgulho e gratificante ser a mãe desse eterno rapazinho.
Ele foi-se, não sem que, um dia, me dissesse "Não tenho medo de morrer. Se acontecer, o meu único desgosto é que tu não mereces! E sofro por ti."
Também, num dia, de maior tristeza me disse :"Mamã, acho que não chego aos 30."
Acredito que não acreditasse no que dizia. É o meu refúgio.
Mas foi, hoje, o seu aniversário.
Não falei dele...não quero perturbar ninguém com o peso que me aperta
Sonhos? Projectos? Certeza de ser amada?
Cerraram-se na imensidão do tempo e do espaço.

Nada a declarar, deste vazio de ternura.
Foi bom ser tua mãe.


Volta até mim

Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré da manhã com que
todos os náufragos sonharam.


Nuno Júdice

25 abril 2008

25 de Abril



Preciso de escrever, procuro um pretexto.
Há um momento do dia em que tenho que descarregar a minha saudade constante, para recomeçar, cada dia e aguentar o peso da ausência.
Poderei não dizer o teu nome…
Escrever, aqui, será, sempre, a forma de pensar em ti.
O tema já pouco interessa, seja a solidão, uma árvore, um monte de verde ao fundo, as casas brancas batidas pelo sol, uma pessoa. Agarro-me a qualquer coisa.
Afinal, sobretudo a mim mesma. Tudo o resto é insignificante.
Estou em Moledo, é 25 de Abril.
Há um ano, estreava-se o concerto do “Drumming toca Zeca Afonso”.
Continua na estrada. Na tua estrada.
Procuravas a eternidade? Afinal…eras Abril.


Não hei-de morrer sem saber

Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade. Eu não posso senão ser desta terra em que nasci. Embora ao mundo pareça e sempre a verdade vença, qual será ser livre aqui, não hei-de morrer sem saber. Trocaram tudo em maldade, é quase um crime viver. Mas, embora escondam tudo e me queiram cego e mudo, não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade.

Jorge de Sena

22 abril 2008

Nova regra


A nova regra é impor-me silêncio.
A minha perda desperta os medos que existem nos outros, em cada um de nós.
E afasta-os de mim.
Vaticinam-me solidão.
Talvez o Oráculo tenha razão.



O paraíso


O paraíso terrestre é uma flor verde.
As árvores abrem-se ao meio.

O que é sucessivo perde-se.

Se o tempo modifica os seres e os objectos
eu sinto a diferença e gasto-me.
O sol é um erro de gramática,
a luz da madrugada
uma folha branca
à transparência da lâmpada.

Soam então os barulhos.
Soam
de dentro das caixas fechadas há mais tempo,
de dentro das chávenas de café.

É tarde e és tu.

Acima de tudo,

entre a manhã e as árvores,

à luz dos olhos,

à luz só do límpido olhar.

Nuno Júdice

21 abril 2008

É a minha forma de dizer "boa noite"



Este mês de Abril custa a passar.
Os outros também custaram... Mas o passado recente não pesa tanto como a perspectiva do tempo a passar, com o peso da ausência.
E volto-me sempre para o passado, em busca de rastos de presença dum filho que tive, em tempos.
Sei que o dia 20 de Abril de 2007 foi um dia de grande agitação.
O David esteve em Braga, no Teatro Circo, para o espectáculo João. Levantou-se cedo para ir montar as luzes; voltou, ao Porto, para uma sessão de massagens e regressou a Braga para o concerto das 21:30.
E eu, aflita, com o desgaste que isso lhe provocava.
Ainda bem que ele teimava em fazer o que queria. Pelo menos, vivia a vida que lhe agradava e fazia aquilo de que gostava.
E foi precisa coragem para não se deixar abater.
Eu fazia o que podia - medicamentos do Sr. António sempre prontos para as viagens, massagens nos pés e nas mãos, cremes nas erupções que lhe apareciam na pele, a seguir aos tratamentos.

Andava cheio de trabalho e projectos em fase de lançamento.
A estreia do "Zeca", na casa da Música, aproximava-se e estava determinado a acompanhar o Drumming, numa longa tournée.
Passaria o aniversário em Faro e viria por Sines, passando, depois, por Lisboa. E eu iria. Alterei aulas, antecipei outras, reservei quartos de hotel.
Mesmo cansado das quimioterapias semanais, não resistia à "estrada".
Cá em casa, esta agitação fazia-nos sentir que as nuvens da doença estavam longe.
Cheguei a acreditar que lhe/nos estava a ser dada uma segunda oportunidade de recomeçar a vida!
Quanta ilusão...


Outra despedida

Querido Dabidum e amigão

Quando leres estas palavras, estarás aí no céu e nós aqui, no inferno das saudades que nos deixaste.
Se não posso falar de justiça, também não relatarei o quanto para mim sempre foste e representaste!
Tiraram-te a vida e, pela minha parte, perdi um enorme amigo.
Não sei se, nem quando, te vou encontrar...mas vai pagar a dobrar esta tristeza com que nos inundaste.

Um abraço amigo do Tony