23 março 2011

Sempre os sons do David

Hoje, fui à FNAC. 
Sem pressas.
Como, às vezes, me acontece num impulso provocado pelas saudades das imagens do David percorrendo, lentamente, os corredores do Jazz ou das músicas alternativas ...
Pondo e tirando os auriculares, naquela pose tão concentrada ... tão característica dele.
E comprei dois livros - "Onde a vida se perde" de Paulo Ferreira (1º romance) e "O bazar alemão" da Helena Marques, de quem gosto bastante. Pena que ela publique pouco. 
É o Manel quem continua a encarregar-se da compra da maioria dos livros; informa-se e joga pelo seguro. 
A mim, é-me "concedido o direito" de, por vezes, me apaixonar por um escritor ou um título ou uma capa e, ... eventualmente, "enfiar o barrete". Pareceram-me boas escolhas.
Comprei também três Cds, o novo da Cristina Blanco e os dois únicos que lá existiam do Ryuichi Sakamoto - Cinemage e BTTB.
Desta vez, não tive dúvidas quanto à escolha. A Cristina Branco foi-nos "apresentada" pelo David e gostamos de a ouvir. As letras são invulgares. É um fado com swing.
O Ryuichi Sakamoto foi uma oferta "do David para o Manel" de um natal qualquer. Distante.
Daquelas escolhas criteriosas e de grande qualidade do David, sempre um passo à frente e sempre informado.
Eu e o Manel, ouvimos muito esse Cd em Moledo; o som do piano coaduna-se bem com a brancura das paredes e com o verde dos montes.
E decidimos, porque não temos o David que nos "mostre" o que há de novo ..., comprar mais se o encontrássemos.
Lá estavam ... à minha espera.
O meu filho "perdido" é, ainda, nosso guia.
Meu guia, na música e nas veredas dos dias.



18 março 2011

18

Faz hoje três anos e meio que o meu filho David morreu.
Eu mudei; muito.
Parece-me que para pior ... embora alguns digam o contrário.
Tornei-me mais seca e mais indiferente.
Olho as catástrofes ... 
o incómodo, a raiva que sinto são moldadas pelo que eu sei que era correcto que sentisse. 
Cada vez mais sinto que pouco importa que eu esteja ou não esteja aqui.
Eu sou a testemunha viva de que a terra gira e os dias passam sem que o nevoeiro se adense de tristeza.
A tristeza é muito minha.
Não a partilho.
E finjo.
Sei fingir muito bem.
Aprendi ... para não perturbar os outros.
Mas hoje, a verdade cintila.
E eu acordei com os olhos já molhados.
E sem força para quebrar silêncios.
O meu filho morreu.
Esta é a verdade silenciosa que hoje me habita.

Ouço o "Abóbo" do Miguel que acordou e saio de mim para uma realidade mais doce.




14 março 2011

Rotina à janela


                      Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. 
  Mas
o dia nasceu - um outro dia, e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua.
Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
janelas.jpg
o teu gesto;
ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.
Rotina – Nuno Júdice

E depois?



Ainda tenho os sons ... os textos rabiscados ... com que te reinventarei, a seguir?


Elvin Jones

O baterista de hoje chama-se Elvin Jones. É um gigante do jazz e ainda é vivo ou seja é uma lenda viva.
Elvin será sempre mais conhecido pela sua associação ao quarteto de John Coltrane mas a sua carreira não acabou aí.
Jones fez um percurso notável como líder e tem gravado discos desde há 30 anos até hoje.
Como é óbvio, Elvin tocou com muita gente diferente e foi e continua a ser uma influência inegável nos novos bateristas. Elvin Jones criou praticamente um estilo, uma escola.
Um dos seus grupos teve muita qualidade e chamava-se Elvin Jones Jazz Machine; no entanto, não é nenhum destes grupos que vamos hoje ouvir mas sim um tema tradicional que todos conhecem, tocado pelo Quarteto de John Coltrane. Quem está sentado à bateria é o nosso convidado Elvin Jones.
Ouçam, o tema chama-se “Greensleeves”

Até logo... que jazz se faz tarde
David Sobral


13 março 2011

15 anos


Um passeio ao Alentejo.
Os amigos, os mesmos amigos de há 40 anos. Tanto tempo!! Tínhamos 15 anos, queríamos tanta coisa, aos 15 anos. Queríamos cavalgar nas nuvens. Atravessar o tempo de mãos dadas. Éramos amigos; tínhamos uns aos outros para sempre.
Passados 40 anos, temo-nos uns aos outros, para sempre. Somos diferentes, agora. Mas temo-nos para sempre; não precisamos de o confirmar por palavras.
Dispersámo-nos nos percursos que trilhámos, mas encontramo-nos sempre, num fim de semana em Viseu ou à volta de uma mesa alentejana.
E os sonhos?
Alguns continuam a sonhar; podem sonhar ... a bola de cristal assim o determinou.

E eu? Eu que era a mais sonhadora no meio deste grupo de amigos, onde eu era a única rapariga.
Fui ficando "cabeça de família".
Onde vamos?
Pergunta-se à Isabel.
Quem avisa toda a gente?
A Isabel.
Isabel, quando reunimos todo o pessoal do liceu?
Isabel ... Isabel ...
Que Isabel é esta que não reconheço?
Quando chamam por mim, com o carinho de sempre?
Isabel ... Isabel
E eu gosto tanto deles! Mas essa era a outra ...

Tinha tantos sonhos, quando tinha 15 anos!
Tinha tantos sonhos aos 30!
Sonhos a partilhar. Só assim, valem a pena. Partilha ou solidão!
Agora, vou ... quero ir ... depois regresso ansiosa ... temo-nos uns aos outros ... encontamo-nos como sempre nos encontrámos, apesar das distâncias, ... sobretudo eu tenho-os a eles ... se me têm a mim ... não sei ...
Vejo tudo como se fora envolto em neblina.

Amanhã, um destes dias, será altura de encontrar outros amigos de outras épocas; depois jantar com outros ainda. Amizades muitas! Consolidadas a partir do trabalho, dos filhos, das férias, dos amigos dos filhos ... Vou sempre, não cortei as amarras, quero ir, gosto deles ... mas a ansiedade do regresso aos espaços vazios de ti vai sobrepondo camadas de névoa, envolvendo, sempre mais, o casulo onde me encerro.
Onde me sinto protegida de mim, da minha implacável saudade.
Onde me sinto fora do alcance da "insultuosa" normalidade da vida dos outros.
Onde me posso permitir olhar os restos de mim, sem ter de desviar os olhos dos olhares doces e compreensivos dos outros.
Quem serei eu, neste agora, neste espaço ... esvaziados que foram os sonhos dos meus 15 anos?