15 outubro 2008

Um sorriso





Tudo parece desabar.
Novamente, o confronto com o desconhecido que não o é mais.
Para onde foste, que não te vejo?

Revejo paredes, revejo corredores, revejo janelas donde vejo o Porto com o rio ao fundo, revejo batas brancas, revejo sorrisos enternecidos, revejo o medo, revejo elevadores por onde subo e desço, revejo medo, revejo cansaço, revejo um telemóvel silencioso, revejo um rapazinho alto apoiado na mãe, revejo uma namorada que traz uma prenda de um ano de namoro, revejo uma cunhadinha que traz gelados feitos de água, revejo exaustão, revejo o silêncio nos olhares, revejo o teu abandono, revejo um marido/pai com os olhos baços, revejo incredulidade, revejo umas mãos esguias pousadas no lençol, revejo um sorriso tímido, revejo um piscar de olhos cúmplices, revejo lágrimas escondidas, revejo CDs por ouvir, revejo o medo, revejo um abraço da noite, revejo o teu relógio guardado na gaveta, revejo caras amigas, revejo um passeio em cadeira de rodas pelo corredor, revejo uns olhos não tristes mas cansados, revejo súplicas para que te deixem em paz, revejo um telefonema de revolta, revejo-me encostada às paredes, revejo uma mãe em que não me revejo, revejo escadas por onde subo e desço, revejo um soro a ser (finalmente) retirado, revejo as nossas mãos dadas, revejo-me quando me dizem que não falta muito, revejo os teus pijamas coloridos, revejo corredores e paredes de hospital, revejo batas e estetoscópios que entram e saem silenciosos, revejo um corpo frágil, revejo o nº24 na parede do teu quarto.

Revejo o teu sorriso.
Sempre o sorriso.
Que foi contigo.
Tento rever o teu sorriso.
Porque não consigo?

12 outubro 2008

O amanhã não existe.



Vagueio pelo tempo.
12 de Outubro de 2007
Sexta-feira
Jantámos todos. Tu, já com muita dificuldade em engolir.
A frebre continua, apesar de baixa.
Massagens nos pés, almofada levantada. Os pés continuam inchados. Retenção de líquidos.
A Olga está cá, ajuda nas massagens.
Tu estás magrinho, cansado...
Quase pedes desculpa por estares cansado.
Mas estás calmo, até risonho.
Vais dormir no meu quarto.
Já levámos para lá a tua cama há dois dias, elevada ao fundo, por causa dos pés inchados.
Subimos. A Olga foi connosco.
Ajuda nos cremes. Riem-se os dois.
Eu ando por ali, a pôr roupa no sítio, a preparar tudo o que possa ser preciso, de noite.
Podes ter sede e, um pouco ausente como andas, podes não saber o que fazer.
É complicado tomares os medicamentos porque é tudo com água...
Não haverá outra maneira de tomar medicamentos, sem ser em pastilhas?
E quem tem este problema, quase sempre? Sei de casos...
Comprei uns sprays só de água dentária da Bucco Therm - calmante, purificante... É água, refresca; é o que interessa. Ainda nos divertimos a deitar spray para dentro da boca...
A Olga despede-se. Amanhã, volta.
Eu fico por ali, mais um pouco.
São os rituais da noite - música, várias almofadas, luz com determinada intensidade...
Febre baixou.
Deito-me ao teu lado, de barriga para cima e conversamos... não sei bem de quê.
Suponho que de coisas boas e agradáveis que invento para que penses nos teus projectos.
Rimo-nos, também não sei de quê...
Está na hora de dormires.
Despedimo-nos.
"Vá lá, o abracinho da noite."- dizes-me com a voz baixinha.
É um longo abraço e tu fazes-me festas no cabelo...
Irei dormir mais tarde, um pouco.
Já estás a dormir, quando me deito.
Ajeito-me na cama, de forma a ver-te.
No caso de precisares de mim...

10 outubro 2008

Só um dia


Que mais posso fazer?
Não tenho consciência do meu "ser" actual.
Tal como o tempo, assim tenho os olhos secos ou molhados.
Já não me importa que me vejam chorar, numa esquina do supermercado, num banco do jardim da escola, num cantinho qualquer...
Não tenho explicações a dar.
Sou como estou.
Estar não é ser, por isso digo - sou como estou.
Mas posso ser diversa, de repente.
Não reajo.
Cansam-me os conselhos, cansam-me as previsões sábias de quem não é como eu estou; cansam-me as frases feitas para serem ditas a gente como eu que não é ou não está...; cansam-me as conversas destinadas a desviarem-me a atenção para outra coisa qualquer...
Sei das boas e amigas intenções. Mas cansam-me.
Não reajo.
Sei que seguirei em frente.
Vou carregar a saudade até ao fim...sei que é isso que farei.
Como, quando, até quando e se puder.
Passou quase um ano.
Para mim, não chegou a passar um dia.



Davidocas
Entre nós nunca houve palavras não ditas, sentimentos escondidos ou pedidos adiados.
Como tu costumavas dizer "Correu tudo lindamente..."
Amei-te durante os 29 anos da tua vida e, como sabes, amar-te-ei para sempre porque tu és "Brutal" (à moda de Cascais).
"Juntos seremos muitos, seremos alguém..."
Um xi
da tua Nini



Primão
Porque é que nos deixaste? Achas que tens melhores coisas a fazer no céu?
Se Deus existe, gostava de saber porque nos levou a melhor pessoa deste mundo - boa, generosa, amiga, forte (muito forte) - és um exemplo para todos nós, sempre com um pensamento positivo e capaz de transmitir um sorriso a qualquer hora.
A casa está mais vazia sem ti, fazes falta, tanta falta!
És o meu grande Herói (um herói, ouviste David?), um lutador, capaz de enfrentar qualquer coisa.
Obrigada por teres esperado por mim (muito obrigada).
Continua a produzir os teus espectáculos, porque, quando eu aí chegar, quero ver luzes (muitas).
Isto não é um Adeus; apenas um Até já!
Longe da vista, mas perto do coração!
Um beijão da tua prima que te ama muito
Diana




Fica bem, Amigo
Alex

07 outubro 2008

Donos do tempo


Vivo numa espécie de tempo que desconheço
Próxima dum abismo que reconheço
Imersa num torvelinho de sonhos... de pesadelos ... de mágoas
Não se regressa mais ...
Inteira!
Nunca temos todo o tempo do mundo.
O mundo (a)garra todo o nosso tempo...





Como se tivesse todo o tempo, não
se lembra do tempo que foi, nem pensa no que

há-de vir. O tempo é a mesa vazia onde

nada cabe, como se estivesse cheia; e

entre passado e futuro as sombras

alargam-se pelo chão, desenhando

a escadaria por onde desceu, até

hoje, numa incerteza de passos

infalíveis.
Nuno Júdice

06 outubro 2008

Regressos




Queria tanto controlar o tempo e os dias que marcam os meus dias.
Aqui ou lá longe, junto ao mar de Creta, o meu tempo é sempre o teu tempo.
Os aromas, a cor do mar, o deambular pelas ruas estreitas, o colorido das casas, o som dos bouzukis, o sabor simples do peixe grelhado...tudo acaba sempre por seres tu.
Tenho os meus sentidos filtrados pelos teus.
Onde tudo era música, som, sabor, calor, cor, luz...foi, agora, um lento e difícil recordar.
Continuam a dizer-me que me vou habituar à dor, num processo lento.
Agora, esta dor vem, sem que a chame ou pense que não há retorno.
As lágrimas caem, sem que as chame.
As lágrimas caem, sem que de tal me aperceba...

Eu continuo a acreditar que apenas saberei e conseguirei fingir melhor...
Sob o véu diáfano do fingimento, permanecerá a máscara da dor e da saudade, como se tivesses acabado de partir ...
Os grandes amores não se esquecem, nem vão passar as saudades que vou ter
do que já não pode acontecer.
Esse futuro sonhado não é mais do que um passado em que havia acontecer!
Passou quase um ano...
Mas foi, quase agora, que te ouvi, que te vi, que te acaricei a mão... e falámos do futuro.

Há um ano, era Sábado, escrevi na minha agenda - "O David pediu-nos para ir ver o mar. Apesar de o vermos cansado, pés inchados e com pouca força nas pernas, fomos sem hesitar. Acompanhado pelo Sérgio e de braço dado com a Carla, foi até ao meio do areal e sentou-se... A Carla sentou-se ao lado dele. Eu encostei-me ao muro, a vê-los de longe. Tirei uma fotografia aos três, em contra-luz, ao pôr-do-sol. Dois vultos sentados e um em pé.
Estão ali os meus filhos.
Recomeça a quimioetrapia, no dia 8, depois de amanhã.
Não sei o que nos espera.
Sinto um medo imenso, mas maior, ainda, é o medo que tenho de que ele se aperceba do meu medo.
Se ele assim o acha, tenho que continuar a ser firme como uma rocha!"

Não voltou a ver o mar.

Agora, é o David o próprio mar.




"Há saudades nas pernas e nos braços
Há saudades no cérebro por fora
Há grandes raivas feitas de cansaços..."


Álvaro de Campos