16 outubro 2009

Uma certa forma de não viver



A minha cabeça zumbe. Apesar de a sentir vazia. Apesar de não conseguir pensar para além do que fazer amanhã.
Como se todos os dias fossem sempre um novo dia, neste percurso de que não tenho referências.
Não sei para onde vou mas conheço, palmo a palmo, todos os caminhos de regresso, aqueles que me trouxeram aqui.
Nada dos dias que passam me prepara para nova partida como se a ferida abrisse novamente, a cada dia que amanhece.
E a cabeça rodopia e rodopia ...
Apesar de fazer deste espaço, que é meu, o único espaço onde posso falar ... há coisas que não se dizem.
Porque há dores tão excessivamente pesadas...
Porque há quem não quero magoar ...
Porque ...
Não posso ou corro o risco de enveredar por um discurso desconexo.
É o choro que substitui esse discurso.
Hoje sei, apenas, que há dois anos, naquela que foi a nossa casa, durante 6 dias, o David adormeceu ... provavelmente a esta mesma hora.

Libertou-se!?
Eu ainda não o libertei; ainda não lhe disse adeus...
"Mamã, vamos dançar?"
A mim, quem me libertará?

14 comentários:

Filomena disse...

Isabel,

Porque será que não conseguimos libertar a quem amamos muito?

Não acredito que seja por egoísmo, mas também eu não sei explicar porquê.

Que bom seria ter a mão do David na sua, e dançarem infinitamente.

Aceite um beijo


Filomena

Jaime Latino Ferreira disse...

HÁ COISAS QUE NÃO SE DIZEM


Há coisas que não se dizem:

O David libertou-se?

Libertou-se, sim!

Tu é que não o queres ver liberto porque tens medo de prosseguir sem ele ...

Isto diz-se, não será demasiado duro!?

Sê-lo-à ...

Mas, estando liberto, não é preciso dizeres-lhe adeus a não ser no Adeus desta Casa porque ele continuará, desde que o libertes, sempre Contigo!

De facto, não páras de lhe dizer adeus ...


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 17 de Outubro de 2009

manuela baptista disse...

Isabel

só venho aqui dizer que o Ganso levantou voo com os seus irmãos.

Não gostei de o ver partir, mas hoje o tempo mudou e depressa este Outono cheio de Verão, acabará.
As folhas verdes tornar-se-ão inevitavelmente castanhas.

Está na natureza dos gansos confiarem uns nos outros e sentirem-se em liberdade, mas a sua voz permanecerá sempre por aqui.

Um beijo

Manuela Baptista

Graça Pereira disse...

Os que partem...não partem! Ficam e há outra forma de viver...com eles!!!
Um beijo amigo
Graça

Ana Cristina disse...

Beijinhos.

Nini

Brancamar disse...

Querida Isabel,

Sei quanto as datas marcantes são penosas, apesar de todos os dias o serem, para um passado tão recente, mas de facto o David libertou-se de uma forma bonita, pedindo-lhe para dançar, talvez fosse essa a mensagem que lhe quis deixar, uma mensagem para continuar em frente.
Nada que lhe diga a pode consolar hoje, mas pode pensar nisso e sei que tem a certeza disso, que o David adoraria vê-la viver os dias pensando nele com um sorriso de doce e amena saudade. O tempo se encarregará de tornar esta dor menos pesada, o tempo que o seu neto lhe traz e que será um tempo novo.
Um grande e sentido abraço para si com muita ternura.
Branca

Brancamar disse...

Passo de novo, hoje estou com o pensamento em Moledo, no David e na Isabel, hoje Moledo terá acordado com a areia mais florida e com o sol a brilhar num Outono que teima em não sê-lo...lá longe o Monte de STª Tecla e ali perto e ao mesmo tempo longe, a bela ilhazinha da Ínsua, com o seu forte.
Penso em tudo isso e em como o David "repousa" algures num clima de tanta beleza e paz.
Para a Isabel venho desejar essa mesma paz, dois anos volvidos, espero que toda essa tranquilidade a envolva num clima de esperança no futuro.
Um beijinho grande.
Branca

casos e acasos da vida disse...

Olá Filomena
Impressionou-me bastante o seu blog, eu também sou mãe e compreendo a sua dor, que é a maior dor do mundo...
As pessoas nunca morrem dentro de nós...mas sem a presença física há um vazio imenso...
Um grande abraço,
Marisa

J. Ferreira disse...

Isabel,

Last poem
Alberto Caeiro
Ditado pelo poeta no dia da sua morte (1920?).
É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, para lhe dizer adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.

Talvez seja estúpido, entrar assim, tão inusutada e abruptamente pelo seu espaço. Talvez, mas é intencional.
Cheguei aqui através da leitura do espaço da sua irmã Manuela e do que aí, ela escreveu para si.
Tanto ela como o Jaime, seu marido, são pessoas que não obstante não conhecer pessoalmente, me merecem o maior carinho e apreço. Logo, a partilha e solidariedade que ambos colocam sobre a sua dor, com o afecto que o fazem, me fez quase compulsivamente, tentar, de igual modo e com semelhante intenção, proporcionar-lhe algum alívio espiritual, pelo menos.
Assim, e agarrando o que o (heterónimo) Alfredo Caeiro premonitóriamente, ditou, direi:

" cumprimente o sol, faça sinal de o gostar de ver, se possível, sorria-lhe e, sobretudo, não abdique de viver"

Espero que me perdoe esta intromissão,talvez abusiva, mas reitero, foi intencional.
Cordialmente,

O Profeta disse...

Corre assombração
Vai para outro mundo numa toada de vento
Afasta de mim este cálice
Deixa-me aprisionar a morte na vida por um momento

Deixa-me sentir com a alegria dos sentidos
Deixa-me acreditar no voo do por-do-sol
Deixa-me beijar as águas de um lago feliz
Deixa-me navegar sem rumo, perder o control



Mágico beijo

Canduxa disse...

Isabel,

Cheguei aqui mal acabei de ler a história da Manuela....e senti que é preciso libertar-se para poder libertar O David.
Somos eternos e ele estará sempre a seu lado, em cada amanhecer, em cada Outono, olhando o seu sorriso e secando as suas lágrimas.
O amor não cria nós...o amor é livre.
Aceite o sofrimento e transforme-o em amor, por si e pelo David.

Aceite o meu abraço com muito carinho e luz

Linda Simões disse...

Isabel,

sinta-se abraçada...

Silenciosamente ouvindo... disse...

O seu blogue é diferente...
O seu blogue diz e não diz...
O seu blogue tem David e David
está numa estrela a sorrir para
nós...
A vida é um ganho...uma perda...
um encontro...um desencontro...
Um agarrar...um desarragar...e no
fim um grande REENCONTRO num abraço
que não acaba mais.Você vai ter esse ABRAÇO e até lá sorria...sorria mesmo sem vontade,
porque o David gosta de a ver sorrir.

Anónimo disse...

Isabel, ao lê-la lembrei-me do que ouvi o António Feio dizer na Grande Entrevista à Judite de Sousa acerca da irmã: "Ainda não a larguei..."
Um beijo ENORME, MM