24 agosto 2008

Os segredos da saudade


A saudade reveste-se de segredos.
Esta saudade é a única de que se pode dizer que é permanentemente para sempre. Por isso, destroça e vai doendo de forma indefinível.
Dói e destroça, cá dentro, de forma invisível e calada, porque, assim, me impus.
É coisa minha.
Mas sinto-me perdida, quando páro para pensar.
Não sou aquilo para que vivi e tudo me parece estranho.
Esta que assim se vê, quem é?
Ela? Eu? Uma terceira pessoa que ainda não tem sentimento de si?

Procuro a exaustão possível - a que me adormeça, sem dor ou saudade, quando os movimentos se calam e as penumbras se instalam nos corredores da casa.

Colado a mim, transporto um medo sonâmbulo do futuro, braço longo de saudades que se estendem dum passado tristemente nítido, que se embebe no presente.
Movo-me nesta teia estranha e ameaçadora, misto de sinais, de sorrisos, de coragem quase exangue, de rostos e suores e, mesmo, de árvores tranquilas do jardim e parque de crisnças que avistávamos duma varanda catalã.
Estou lá, estando, aqui, tão longe - desdobrada.
Espero pela noite mais profunda.
E, só então, páro para pensar porque o tempo, à espreita, se impõe inadvertidamente – finalmente.
Entre a noite e o dia que amanhece, ninguém passa.
Além de nós.

7 comentários:

Anónimo disse...

Isabel

Não resista,não esconda.
Tem com certeza, amigos que a deixam chorar e falar do David.
Só ao fim de muitos anos, deixei de falar, diariamente, da minha filhinha que tinha 3 anos.
O meu marido e o meu filho, já com 18 anos (na altura), eram a minha rede. Só eles me podiam segurar quando me lançava em choro convulsivo e nada tinha sentido sem a minha menina, por perto.
Não engula, Isabel; ninguém é, assim, tão forte.
Embora eu ache que a Isabel mostra uma coragem fora do comum.
Fale...fale.
E o seu blog é lindíssimo.
Um beijo de compreensão.
Porque eu compreendo-a bem.
Eunice

paula simoes disse...

olá Isabel

eu costumo dizer que a saudade é uma dor muito profunda cá dentro que só nós a sentimos
a saudade fica para sempre mas a dor essa vai passando com o tempo
ainda é muito cedo!!!

deixo-lhe um grande beijinho e desejo-lhe um bom domingo

beijinhos do tamanho do Mundo

Pé de Salsa disse...

Escrevi, escrevi, mas... apaguei.

Este emaranhado de sentimentos, descritos por si de uma forma tão sublime e desnudada, são de uma dedicação e amor imensos pelo David e pelos que a rodeiam.

Resta-me, neste domingo, deixar-lhe um beijinho e, devagarinho, encostar a porta desta bela casa.

Isa

Albertina disse...

Diz uma canção brasileira: "a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu...".
No seu caso parece-me que é pior porque o David não morreu. Está em si, no quarto, em casa, no planeta,vivo...
Viva então essa sua dor que eu não posso entender (nem quero!). Mas ainda espero lê-la a escrever (tão bem) sobre outras coisas. Sobre a vida...

Beijinhos

Albertina

Filomena disse...

Isabel
Boa noite.
Cheguei a este blog através do blog arte e autismo, passando pelo do Tony Madureira e pelo da careca loira. Foi assim que aqui cheguei. li o seu diário todo de um fôlego, logo de manhã porque ao domingo não costumo ir à praia.
Pensei em si e no seu filho todo o dia. Também fui ao site dele.
Queria dizer muita coisa mas estou assim meia entalada.
Não a quero aborrecer. Nunca perdi um filho a não ser aqueles que não conseguiram nascer. apenas tenho uma filha.
Sei que é tudo muito recente, como diz o povo está tudo muito verde... mas eu pensei tanto e tanto... será que o seu filho no seu longo sono não sofrerá de a ver sofrer?
Digo-lhe isto porque perdi a moinha Mãe há 23 anos e durante muito, muito tempo a chorei, durante muito tempo me revoltei, durante muito tempo a tristeza foi a minha companheira. Eu era muito nova e não sabia como lidar com a dor e a palavra cancro era um Adamastor.
Um dia o meu irmão com muita calma colocou-me a mão nos ombros e disse-me apenas" tens de libertar a mamã, tens de deixá-la finalmente partir, tens de deixá-la finalmente em paz"
E aos poucos, muito devagar, eu comecei a fazer o que o meu irmão me pedia.
Se esqueci a minha mãe? todos os dias me lembro dela, não esqueci o tom da sua voz o seu sorriso e lembro-me que já há uns tempos largos sonhei com ela vi-lhe os olhos senti o seu sorriso ouvi a sua voz que me dizia" estou tão bem"
Um dia também a Isabel vai deixar o seu David voar e vai sentir que ele olha para si com um grande sorriso nos lábios e então dançará Isabel.
Desculpe se a magoei, pensei o dia todo em si, tinha que lhe dizer alguma coisa.
Aceite um beijo muito grande.
Filomena
( se não publicar eu entendo)

Anónimo disse...

A saudade tem luz porque eu o vejo várias vezes.A saudade tem som porque ouço na rua o seu sorriso com aquele aparelho nos dentes.A saudade tem cheiro porque o sinto no ar David.Não sou poeta nem tenho a arte de descrever os momentos em que me sento e revejo peripécias inesquecíveis David... mas não penses (aí onde quer que estejas) que te livras destes momentos nostálgicos e que me fazem acordar com um sorriso aparvalhado... até porque adorava as tuas parvoíces saudáveis,que sempre me fizeram sentir jovem!
Um abraço saudoso para ti....tua mãe e família....amigo saudoso e distante
Tony

Anónimo disse...

Isabel,
não consigo agora encontrar as palavras para descrever as emoções que vão cá dentro à medida que leio os seus posts... Isso poderá ficar para uma outra altura, uma vez que neste comentário pretendia pedir-lhe o seu email para a poder contactar e saber se me pode ajudar a ajudar uma "mãe para sempre" que perdeu o seu único filho num acidente de viação há 4 meses. Obrigada. Maria José Ribeiro (mjribeiropsi@clix.pt)