05 agosto 2008




No fundo, tal como sempre disse, é, sobretudo para mim que escrevo e continuarei a escrever...porque há coisas que não dependem de respostas, embora as do Jaime me tenham sido sempre interessantes e me tivessem obrigado a pensar, às vezes, de outra forma.
Mas a saudade não tem data marcada, nem a dor se repete, já que, cada dia, outros pormenores me visitam e sinto as coisas de forma diferente.
Desisti dos cadernos onde escrevia há mais de dois anos. Corriam o risco de se perderem todas as recordações registadas...
Aqui! Permanecem.

Muito obrigada ao Jaime e Manuela.

Hoje, fui à praia.
Com os mesmos amigos, sempre e cada vez mais amigos, porque partilhamos as tristezas e alegrias com que nos vamos defrontando, ao longo dos anos.
As mesmas barracas em fila; as crianças diferentes (mas ainda assim as mesmas), a brincarem nas pocinhas de água; as algas a pintarem a areia de verde; a mesma Nortada (hoje ligeira)... a mesma rocha que viu os meus filhos brincar; a mesma rocha que acolheu o David como última morada...
Sinto-o mais aqui.
Ou me calo mais ou falo demasiado, até a boca me secar...
Tenho tantos e tão bons amigos! Ouvem-me, sem desviarem a conversa, na tentativa de me distraírem.
Sabem que preciso de abrir a caixinha de recordações e relatar este ou aquele episódio, triste ou menos triste, como se de um álbum fotográfico se tratasse.
É só disso que preciso; que os meus bons amigos que adoravam o David me deixem falar.
Nem que não ouçam!

Há um ano, Moledo ficaria para trás, estávamos a aterrar em Barcelona.
Levávamos malas e mais malas, música, livros, portáteis e fúria de viver e desespero escondido indizível. Amordaçado, porque o desespero por um filho doente não pode andar à solta.
À saída do aeroporto, tínhamos à nossa espera uma amiga do David, cantora lírica - Maria Hinojosa. Até ali tinha amigos, prontos a ajudar.
Tinham insistido em nos levar aos apartamentos que alugáramos na Calle Valencia.
Nada os demovera e lá estavam, Maria e o pai, dois catalães simpáticos e afáveis.
O David deixara para trás as relações conturbadas com o pai e prima. Já não pensava nisso. Decidira só pensar na cura prometida pela nova droga.
A conversa com a Maria andava à volta dos espectáculos que iriam ver em Barcelona, da praia que iriam fazer, das casas de tapas mais famosas, das visitas por lojas de guitarras, dos contactos para a nova empresa do David.
Tudo era entusiasmo e força de viver.
Eu e o Manel seguíamos atrás, com as inúmeras malas. A leveza do David tornava-nos as malas leves.
Ninguém diria, ao ver-nos, que aquele rapazinho alegre e descontraído se preparava para enfrentar mais uma luta desigual.
Apesar do "bom ar", ia frágil, ia cansado de longos combates.
Não imaginávamos o inferno que nos esperava, apesar das boas expectativas ...
E, agora, aqui, sinto que continuo também lá.
Não o posso evitar.
Este é o regresso a Moledo sem o David, sem as guitarras, sem a música que sempre havia, sem as sandes minimalistas que ele fazia ao almoço, sem a bicicleta encostada ao muro.
A sombra onde estacionava o carro está vazia, a bicicleta está guardada.
Eu estou aqui e estou lá.
Dispersa por aí.


Querida família,

No me lo puedo creer, estoy muy emocionada, mucho, no puedo creerlo, jamás vi tan seguro a nadie de si mismo, confié en él tanto como él lo hacía en sí mismo, estoy muy conmocionada.
No sabía nada.

Te agradezco infinitamente que me lo hayas comunicado y en un mail tan hermoso. Quiero mucho a tu hijo David, mucho, y me siento muy triste.
Espero que hayá donde esté siga haciéndonos tan felices como lo hizo aquí. Espero que él también lo será.
Isabel, quiero deciros a ti y a tu família que si necesitais cualquier cosa me teneis aquí a mi y a mi família. Siempre que lo necesiteis.
Quería felicitaros por vuestro tesón y compañía hasta el final. Por no dejar de ser vosotros y acompañar a David en todo lo que él necesitaba.
Sois una gran família.
No tengo palabras para expresar lo que siento.
Gracias por todo David, gracias Isabel y gracias a tu marido.
Le dije a tu hijo en un mail que el 1, 2 y 3 de febrero voy a cantar a Lisboa, si estuvierais cerca me gustaría invitaros, así podemos estar un rato juntos, aunque ahora sé que es muy temprano y no es momento quizá solo quería que lo supierais. Un abrazo infinito, como todos

María Hinojosa Montenegro

2 comentários:

Anónimo disse...

Este é um blog triste. Seu.

Eu até acho os blogs sempre um pouco tristes...

Por mim pode continuar a escrever triste ou (assim o desejo) um pouquinho mais alegre; gosto de contar histórias e gosto que me contem histórias.

E é exactamente isto que a Isabel faz: conta-nos a história do David para que não se perca e multiplicada faça parte da nossa história.

Os seus bons amigos deixam-na falar.

Manuela Baptista

Estoril,5 de Agosto 2008

Brancamar disse...

Olá Isabel,

Percebo que apenas precise que a ouçam, eu estou aqui a ouvi-la. Percebo essa sua necessidade de falar do David, percebo como deve ser doloroso este primeiro Verão em Moledo sem ele.
Ninguém lhe pode pedir mais que isso, é muito pouco tempo e cada data é uma nova recordação.
Moledo é sempre uma grande recordação e para si é grande e dolorosa, mas tenho a certeza que com muitos momentos inolvidáveis de memórias que hão-de tornar essa lembrança sempre muito doce e mais suave.
Beijinhos.
Branca