26 março 2019

lugar fixo



que interessa seja março ou maio, 
sei que abril se aproxima
ou outro mês com nome a inventar
há sempre um amanhã qualquer
a chegar ou já chegado
que se repete, 
renovando o bater das asas das gaivotas que vejo da janela
ou em frente ao mar
talvez as mesmas de amanhã 
as de há pouco
os gritos repetidos que se soltam dos bicos
volteando por sobre os telhados de vermelho envelhecido
como a mão que escreve sem pensar

quem sabe

terão trocado de lugar
viajado comigo
e agora lá ficou deserto
só tu
na tua rocha cinza
nas marcas das patas das gaivotas no areal húmido
nas ondas cobertas de cavalos marinhos
saídos
do verde transparente do fundo oceânico
adormecidos em conchas de luz
ou baloiços de algas

trocaram de lugar
há sempre qualquer coisa
uma agonia
ou eu
qual grão de areia mais pesado 
que se mantém fixo à base da rocha cinza
e não troca de lugar
girando o resto num vórtice
de luz e sombra
e distâncias
entre marcas de tempo indistinto
e a  percepção dos dias embaciados de memórias
presas a esta mão que escreve
e não se pensa

apenas ao de leve


15 outubro 2018

Jazz faz tarde - David Sobral - Swing



Já se fazia tarde

Estava ciente disso, embora não acreditasse

Afinal, há coisas que não podem, nunca, acontecer

A minha incredulidade, ainda hoje

Saídos de casa, no dia 13, sábado, em direção à urgência

Internamento, a dois

Um quarto branco, a dois

Sorrisos tímidos e cansados, os teus

Meigos, os olhares de frente

E francos

Conversas sussurradas

De quem não deixa nada por dizer

Entre quatro mãos entrelaçadas

Dias que se iam desfazendo, a dois

Numa enfraquecer súbito

Na lonjura da casa, os dois

Donde chegavam só rumores

Que já não ouvíamos

Nada para além daquele quarto branco

Já nem a tua música







01 outubro 2018

"terapia de checkpoint imunitário"



1
Outubro recomeça.
Um Nobel da Medicina
Ensaio clínico
Falhado em Barcelona
Já então - Imunoterapia
Obrigada, David


2
Ouço a voz da minha mãe 
"Isabelinha, quando deixarás de chorar?", 
Sabendo ela que nem eu, nem ela, deixaríamos de chorar
A par do respirar
Ouço a voz dela, ouço a tua voz, David!
O meu silêncio entre soluços inaudíveis
Uma multidão de vozes entre assuntos que se vão sobrepondo e misturando
Uma amálgama de anos que se contorcem
Sem que se sobreponham ou confundam
Protegidos pela ternura
Antes 
Agora
Dias a fio de dor
Outros de quase serenidade

Mas em outubro
Tudo é disforme, porque sim
Nada faz sentido
O que não pode acontecer
Acontece
Embora não possa acontecer

Porque há certas coisas que não podem acontecer
Diziam-me
E eu fingia que sim
Que não
Com certeza, não

E então
Aconteceu, David
Mesmo sabendo que não podia 
Porque, afinal, às vezes, acontece
Ainda que fiquem
A voz
Uns olhos verdes alegres de ternura
Uma certa ironia
O pronunciar do teu nome que me faz virar, na rua
Os palcos vazios
A luz
E o convite
"Mamã, vamos dançar?"



3
1 Outubro 07
     "A minha vida é um caos. Todas as horas são dedicadas a tratar do David, das refeições, da medicação, das idas ao Sr. António, das idas à psiquiatra. Nada disso me cansa. O furacão é cá dentro. Só o deixo um bocadinho quando vou ao supermercado ou a Santo Tirso, mas nunca fica sozinho.
Foi a nova consulta com a psiquiatra. Já falámos com o médico, no passado dia 28. Esperança? Pouca! Já morri mil vezes! Não sei porque pergunto; a resposta é sempre a mesma.
Estamos à espera de começar o tratamento no HGSA. Sinto-me endoidecer e a ter dificuldade em manter a calma e a energia que o David precisa de ver em mim. Anda com crises de diarreia; o Imodium não resolve. Fezes brancas da icterícia. Está com pensos de 100mg de morfina, 1 Servedol, ao deitar; Xanax e Kainever. Para além do Dacortin e do Lasix, por causa da retenção de líquidos e dos pés e das pernas inchados.
Mesmo assim, vou dar com ele acordado e sentado na casa de banho, às duas ou três da manhã. Lá está, magro, esguio, quietinho. Não quer incomodar ninguém e não me chama; eu é que o ouço. Continuo a não tomar nada para dormir e sinto o mais leve movi- mento dele. Às vezes, ficamos, ali, os dois sentados! Ele a cambalear de sono; eu, para estar ao pé dele e... o levar de regresso ao quarto, para o ajudar a deitar-se.
As lesões aumentaram tanto! A quimioterapia, que vai fazer, tem de dar algum resultado. Apesar de triste, delgado, muito cansado (por causa do fígado), continua com projectos de espectáculos. O que é espantoso, impressionante e comovente! Eu incentivo-o; pergunto-lhe se já conseguiu programar mais algum espectáculo ou se vendeu outros. Ofereço-lhe a minha ajuda para qualquer coisa que possa fazer se ele me ensinar.
Como se a vida continuasse normal.
Dorme muito e não tem dores, felizmente. As dores que começou a ter em Barcelona fizeram do mês de Agosto um inferno. Com a morfina fica um pouco estonteado mas conversa bem connosco sobre o que vão noticiando os telejornais; fala mal do Rui Rio, sempre que há mais notícias sobre o abandono a que é votada a cultura e deita-se no sofá a ver a Mezzo, com os pés em cima de almofadas (por causa do inchaço) e a fazer algum zapping, como antes. É bom que ele esteja, assim, um pouco sonolento!! É estranho dizer isto, mas é mesmo o que sinto. Queria que o sofrimento, as dores, a ansiedade não o atinjam, que passem ao lado. Tenho a mesma energia de sempre, para fazer tudo o que é necessário, com uma luzinha de esperança em cada sorriso que lhe dirijo.
Eu vigio; estou sempre à distância daquele “Mamã,...”, mesmo dito em voz quase inaudível! É a única forma de o proteger! Sei que a solidão o assusta, quer-me por perto e gosta de saber se algum sintoma novo será normal. Como se eu soubesse! Nada é, agora, normal... Mas digo-lhe que vou telefonar ao médico. Quer que seja, sempre, eu a falar. Nunca mais falou com o oncologista, desde Junho, quando se soube que não podia ser operado ao fígado.
“De não saber o que me espera” do Zeca Afonso é a canção que me martela os ouvidos, de tanto a ouvirmos, desde que o David me chamou a atenção para ela, já em Maio. Tal como a canção “Do que um homem é capaz” do álbum “Resistir é vencer” do José Mário Branco. Sempre me transmitiu mensagens, assim, sub- repticiamente! Nunca mais se ouviu aquela outra canção “Happy! My life is O.K.”, com que começava os dias.
Pobre David! São os olhos tristes e lentos... o que mais me dói. Dói muito e de forma indescritível. Por isso, não desabafo com ninguém; dizer o quê? Qualquer descrição desta ferida que trago escondida ficaria sempre aquém da dor real. Já repeti, para mim própria, mil vezes – a minha dor não interessa aos outros.
E a mim, só me interessa o David. Este meu filho tão doente! Como o protegerei dessa ameaça negra?
O silêncio é o escudo protector contra o choro convulsivo do meu coração rasgado."
in "Mamã, vamos dançar?"



11 setembro 2018

10 Setembro 2007



11 anos!

Tempo difuso para além de qualquer contagem em ponteiros de relógio ou sol-pôr ou alvorecer.
Tempo palpável, rugoso e lamacento.
Lodo.
Tempo retilíneo de então para hoje, pontilhado de flashes de conversas a dois, de imagens soltas na intermitência dos dias ...
Todos os dias.

11 anos!
O ensaio clínico falhou, viram-nos as costas!
David, ... nunca foi nome. Apenas código de um número atribuído quando se mergulha de cabeça num ensaio clínico.
Davides, heróis anónimos,  contra Golias.
Descobrimos que estamos assustados e sós.
Tu estás só; talvez penses ainda que eu tenho um plano!
Sossegas, dormente, ...
Afinal, a mãe já rascunhou a próxima janela.
Eu não! Eu sei que estamos sós numa jangada sem rumo.
Qualquer porto serve.

11 anos!
Anoiteceu no calor infernal daquele verão em Barcelona.
Num banco de jardim, distante dos ouvidos de um filho, entre cigarros  alvoroçados, uma prece aflita ao outro filho cá longe.
Desenhar uma janela que se chame Paris!


11 anos!
As malas, feitas à pressa, estão à porta.
O Manel chegou do Porto. Último voo, urgente.
Amanhã, um regresso desassossegado, a uma casa sem rosto.





20 outubro 2017

Ainda tu!

Há já uns tempos, num Congresso para que o Manel foi convidado, pela Casa de Mateus em Vila Real, fui como acompanhante (convidada).
O tema do encontro era "O Infinito" e contava com a presença de pessoas extraordinárias - cientistas, físicos, matemáticos, juristas, artistas, escritores, teólogos, oriundos das mais variadas instituições de investigação e do ensino superior portuguesas e estrangeiras.
Depois da sessão inicial e de apresentação, no belíssimo auditório da casa de "residências artísticas", os debates fizeram-se à volta da lareira, enquanto se jantava, à mesa do pequeno-almoço ou ao almoço.
Enquanto os ouvia, ia formulando a minha própria "teoria" sobre a questão!
Sempre gostei destes assuntos, apesar de completamente leiga em conhecimentos científicos ou matemáticos.
Sentia-me pequenina, perante tanto conhecimento.
Acabei por me encher de coragem e disse o que pensava, enquanto pessoa comum, ateia e mãe que perdeu um filho!
Falei de ti ..., do Tempo ..., da Vida ..., do livro que escrevera ...
Ouviram-me com atenção, apesar da tremura na minha voz e da humildade com que me apresentei.
Debateram sobre a minha opinião, a de alguém fora do circuito.

Um padre jesuíta, doutorado em Teologia e também em Física, um Teólogo, professor de uma universidade espanhola, e um professor de Física da Universidade Nova de Lisboa vieram conversar comigo, no fim do debate.
Ali ficámos, sentados nos sofás, em frente à lareira, já a noite se alongava.

Lembrara-me das tuas próprias palavras e repeti-lhas "Mas eu sei que o segredo da imortalidade é saber partilhar com os deuses a maravilha da criação." 

...
No último dia, acabaram por me perguntar onde poderiam comprar o livro "Mamã, vamos dançar?"
Enviei-lhes (como oferta) pelo correio.
E chegaram mails que não quero esquecer porque são, também, sobre ti, David!
Por isso, os vou colocar aqui, nesta Casa da Venância
São Teólogos, ambos. Estudiosos com uma imensa cultura, pessoas espantosas que me aceitaram como sou.
Um deles continua a lembrar-se de ti/de mim/do Sérgio, nos dias 27 de Abril (o teu aniversário) e 18 de Outubro (a tua morte) de cada ano e envia-me palavras de compreensão e acalento!
Estou-lhe tão grata!


Cara Dra. Isabel:

Finalmente, venho de novo agradecer-lhe a possibilidade que me deu de ler o belo livro sobre o seu filho David. 
Gostei imenso e comovi-me muito, muitas vezes. A leitura, para mim, constituiu uma verdadeira leitura espiritual. Tenho o livro praticamente sublinhado em todas as páginas e o título expressa bem a grandeza do seu filho: “Mamã, vamos dançar?”. São tão belas estas palavras!
Verifico que foi uma experiência muito sofrida e dolorosa, a sua e a dele, mas, acima de tudo, o livro ressalta a coragem e a grandeza de um amor grandioso, cheio de cumplicidades, entre si e o David. Pelo que descreve no livro, o David era mesmo um ser excepcionalmente dotado, quer a nível humano (com um coração terno, delicado e sem fronteiras, com uma enorme bondade e facilidade para criar laços, fazer amigos e cativar pessoas), quer a nível das muitas capacidades de que era possuidor (culto e muito profissional em tudo o que fazia). Pela leitura fiquei com vontade de o conhecer.
Notei que ao longo do livro vai retomando, muitas vezes, algumas questões: 
- a perda do filho, mas também a saudade e a esperança de que não o perdeu (o que se nota em expressões do tipo “como poderia perder-te se andámos sempre juntos?”, ou “eu vou continuar perto de ti”, ou ainda “os filhos são eternos”);
- uma mágoa compreensível de o filho ter partido tão cedo (“porquê o David?”); 
- a impotência, a recusa (“um NÃO que grito cá dentro”), a revolta e a culpa (parece que não é capaz de perdoar-se?) de não ter podido ter feito mais por ele, de não ter percebido quando ele começou a ter faltas de apetite e cansaço; 
- a não-aceitação de que os médicos que viram os primeiros sintomas da doença do David não tenham detectado logo a gravidade da situação; 
- a relação difícil com o pai do David (apesar do divórcio pacífico) e respectiva família (o desinteresse desta – particularmente da prima – pelo David); 
- o ter tido pouco tempo, durante a doença do David, para dedicar a devida atenção ao filho Sérgio; 
- o tema da existência de Deus, que vai estando também presente, para contrapor à sorte ou ao mal e atrocidade da doença do David (“já que não acredito em deuses … teria agora todas as razões para deixar de acreditar”; por outro lado, lembra-se do caso da amiga Elsa que, com “tanta dor e ‘injustiça’, acreditava em Deus!”); 
- sente a perda do David como uma injustiça para ele (a morte roubou a felicidade devida) e para si;
- sente que a sua dor não interessa aos outros;
- medo de se terem acabado os sonhos e o sentido da vida…

Cara Isabel, vejo em si uma mãe grande, a mãe que o David merecia e continua a merecer! Admiro a coragem que teve para ajudar o David no seu calvário. Como já lhe disse, eu acredito que o Amor não morre. E o seu amor de mãe e o do David por si também não morrerão nunca. Gostaria muito de um dia me encontrar com a Isabel para a ouvir falar do seu filho, de viva voz e já não através das páginas do livro.

Nestes dias em que nós, os cristãos, meditamos no mistério da morte de Cristo, lembro-me também do mistério da morte do David e da dor da Isabel, pois trata-se do mesmo mistério de amor. Tenho-a presente nas minhas orações, bem como ao David, mesmo sabendo que a Isabel não é crente. Não me esquecerei também do dia 27 de Abril, em que o David completaria 37 anos. Eu acredito que ele já possui a vida e a paz definitivas, já sem sofrimento.

Desejo que tenha um bom dia de Páscoa, com muita paz e esperança, juntamente com o Sérgio e esposa, com o seu marido Manuel, a quem peço que dê os meus cumprimentos, e, claro, com o David, que a continua a acompanhar “lá do alto”, com a mesma alegria de sempre, e a desafiar a sua corajosa mãe: “Mamã, vamos dançar?”
Um abraço agradecido e amigo do

Álvaro