23 fevereiro 2013

Música





Moledo
E um doer de certa forma
Permanente

Moledo
E o som dos teus sons
Sons da minha saudade ... solidão
Sons do sorriso inscrito
No teu swing

Moledo
E o regresso à tua ausência
Mais crua 
Inscrita sempre
No silêncio das paredes brancas
No som cavo das ondas do mar 
Na inutilidade das lágrimas

Tecidas de tanto amar
E de amargura



25 janeiro 2013

Queria dizer



por outras palavras
no fundo
sempre as mesmas
e que os meus sentidos repetem aos meus ouvidos até
à exaustão 
à surdez total
...
em moto contínuo
como o sol sucede
à lua
...
queria dizer
que os dias passam
e a saudade permanece
aguda
dolorosa
dolorosamente silenciada
no fingir
...
queria dizer-te, David,
que as lágrimas
as minhas
se soltam, como antes,
a despropósito
por coisa nenhuma
(pensarão os outros)
ou porque chove
chovia quando te soube que doente
ou porque está um sol imenso
e
o brilho do sol
não se me entranha sem ti
tu gostavas do sol
da luminosidade dos dias
...
queria dizer-te, David,
por outras palavras
sempre as mesmas
afinal
que te procuro
nas memórias da avó
pedacinhos teus 

nas fotografias dispersas 
pelos móveis
nos álbuns antigos
tão folheados
...
pedacinhos 
um ombro que eu reconheço teu, por uma porta entreaberta
um certo inclinar de cabeça 
uma mão 
um gesto solto no ar
uma cabelo encaracolado, por detrás de um primo qualquer
a tua cabeça a sobressair acima da fotografia de grupo 
lá atrás
até o teu reflexo nos vidros do pátio
descobri
..................
ou um sorriso estranhamente triste nos olhos da avó
e eu sei o dia 
e o porquê
nesse março
suspenso no tempo
cravado na alegria de uma festa de família
(mero acaso)
...
vejo
revejo fotografias, 
ali sentada,  
no sítio onde a avó se sentava
...
a avó dizia que gostava de "conversar" contigo
ali
nas diversas fotografias
os interlocutores
os pais
as filhas
os netos
os queridos bisnetos
que se cruzarão
apenas
em recordações partilhadas
a partilhar talvez
...
e repito o olhar dela
percorro as fotografias 
uma a uma 
procuro a mesma força
...
estavas sempre ali
num lugar chamado coração de avó
que junta mãe e filho
num tempo 
...
queria dizer
afinal 
...





............





13 dezembro 2012

Outras saudades ...


E, agora, mamã?
Tinha mais um cachecol para terminar, sentada à sua beira ...
Amanhã, no hospital
Vigiaria o seu respirar
Chegar-me-ia a si para ouvir a sua voz baixa
Mas a sua voz
Perguntar-me-ia pela Alice pequenina e pelo querido Miguel
Eu havia de mostrar os filmes que fazia
Onde o Miguel, a dizer-lhe 
"Olá, Alice ... depois vou-te visitar!
E a repenicar dois beijos
Para si
Do outro lado do écran
Onde a mamã estava, mesmo assim ...
E donde retribuía o beijo, enquanto estendia a mão
Para lhes afagar a face.
Como se eles estivessem ali
Ao alcance dos seus dedos estendidos.
Mas ainda a sua mão estendida ...
Com um sorriso cansado
Mas o seu sorriso ...
E eu repetiria as histórias do Miguel
Do "querido Miguel"
Como a mamã dizia.
E depois, um "até amanhã, mamã!"
E a certeza ou a esperança da certeza de que regressaria a casa da Nini.
E o papá à sua espera
Para retomar os dias ...

E agora, mamã?
Partiu há bocadinho e eu tenho, já, tantas saudades do seu olhar e da outra parte do David que levou consigo.

E agora, mamã?











16 novembro 2012

Antes como agora


O tempo regressa, infalível.
Irreverente e obstinado.
Como o frio.
O tempo sempre.

Permanente na tua ausência tão presente!
Impõe a saudade que vem do passado
Percorridos que foram longos caminhos oblíquos.
Refugia-se num aperto de garganta
Emudecida por brumas de angústia do futuro.
Desencontro de tempos.


Tranco-o no pensamento.
Aprisiono-o num punho fechado para que não fuja.
Em direção às saudades que já tenho do futuro
Que seria.

Que fazer com o tempo?
Ou com os intervalos de tempo?
...
Aconchegar-me na eternidade de um olhar sereno
E antes, como agora.
Cavalgar o tempo.








14 novembro 2012

Humano ou fera?


E não sei como manter a fé no género humano!

Hoje, IPO-Porto, da cama do lado
incapaz (por falta de força) de carregar na campainha, a dona M. C.
toda ela dor
toda ela tristeza nos olhos fundos
toda ela palidez
toda ela saudades do filho
(que sempre vem)
toda ela tempo de espera pelo alívio da dor, na próxima injeção ... gemeu..
"Está com dores, dona M.C.?"
Sorriu-me do fundo dos olhos negros.
Que sim.
Toquei.
Uma bata verde, à entrada da enfermaria.
"Que se passa?"
"Por favor, diga à enfermeira que a dona M. C. está com dores. Pediram de avisasse mal a dor desse sinal!"
"Vou avisar."
E desligou-se o piscar vermelho do pedir ajuda.
Lá fora, no corredor, o som das vozes.
"Enfermeira, a senhora da cama 20 está com dores!"

Um voz sem rosto.
"Outra vez??"

Mesmo assim, a dona M. C. sorriu-me!

E apetece-me recordar Inês de Castro, quando se apresenta perante o rei, avô dos seus filhos ...

"Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre liões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.