13 dezembro 2012

Outras saudades ...


E, agora, mamã?
Tinha mais um cachecol para terminar, sentada à sua beira ...
Amanhã, no hospital
Vigiaria o seu respirar
Chegar-me-ia a si para ouvir a sua voz baixa
Mas a sua voz
Perguntar-me-ia pela Alice pequenina e pelo querido Miguel
Eu havia de mostrar os filmes que fazia
Onde o Miguel, a dizer-lhe 
"Olá, Alice ... depois vou-te visitar!
E a repenicar dois beijos
Para si
Do outro lado do écran
Onde a mamã estava, mesmo assim ...
E donde retribuía o beijo, enquanto estendia a mão
Para lhes afagar a face.
Como se eles estivessem ali
Ao alcance dos seus dedos estendidos.
Mas ainda a sua mão estendida ...
Com um sorriso cansado
Mas o seu sorriso ...
E eu repetiria as histórias do Miguel
Do "querido Miguel"
Como a mamã dizia.
E depois, um "até amanhã, mamã!"
E a certeza ou a esperança da certeza de que regressaria a casa da Nini.
E o papá à sua espera
Para retomar os dias ...

E agora, mamã?
Partiu há bocadinho e eu tenho, já, tantas saudades do seu olhar e da outra parte do David que levou consigo.

E agora, mamã?











16 novembro 2012

Antes como agora


O tempo regressa, infalível.
Irreverente e obstinado.
Como o frio.
O tempo sempre.

Permanente na tua ausência tão presente!
Impõe a saudade que vem do passado
Percorridos que foram longos caminhos oblíquos.
Refugia-se num aperto de garganta
Emudecida por brumas de angústia do futuro.
Desencontro de tempos.


Tranco-o no pensamento.
Aprisiono-o num punho fechado para que não fuja.
Em direção às saudades que já tenho do futuro
Que seria.

Que fazer com o tempo?
Ou com os intervalos de tempo?
...
Aconchegar-me na eternidade de um olhar sereno
E antes, como agora.
Cavalgar o tempo.








14 novembro 2012

Humano ou fera?


E não sei como manter a fé no género humano!

Hoje, IPO-Porto, da cama do lado
incapaz (por falta de força) de carregar na campainha, a dona M. C.
toda ela dor
toda ela tristeza nos olhos fundos
toda ela palidez
toda ela saudades do filho
(que sempre vem)
toda ela tempo de espera pelo alívio da dor, na próxima injeção ... gemeu..
"Está com dores, dona M.C.?"
Sorriu-me do fundo dos olhos negros.
Que sim.
Toquei.
Uma bata verde, à entrada da enfermaria.
"Que se passa?"
"Por favor, diga à enfermeira que a dona M. C. está com dores. Pediram de avisasse mal a dor desse sinal!"
"Vou avisar."
E desligou-se o piscar vermelho do pedir ajuda.
Lá fora, no corredor, o som das vozes.
"Enfermeira, a senhora da cama 20 está com dores!"

Um voz sem rosto.
"Outra vez??"

Mesmo assim, a dona M. C. sorriu-me!

E apetece-me recordar Inês de Castro, quando se apresenta perante o rei, avô dos seus filhos ...

"Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre liões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei." 










07 novembro 2012

Falar por falar ...


Tenho destas noites.
O coração dissolve-se
Os olhos vagueiam pela páginas do livro que me acompanha.
"A ponte sobre o rio Drina"
Hoje o olhar, qual vagabundo,
Perde-se por entre frases e pontes e vidas e rios que não desaguam.
Perde-se nos intervalos brancos
Deixados pelas personagens que entram ou saem
Eu não me fixo nelas
Já vou à frente...
Mais à frente
Lá mais longe
Onde não me vejam pensar
Onde não reparem naquela palavra certeira que me faz sobrer
Que me faz tremer
Que me pressiona a ler ...
E eu fujo de pensar.
Pensar é doloroso.
Ainda mais quando se repousa a cabeça entre os dois braços.
Para pensar, melhor e mais claramente, seguramente.
Mas eu não quero pensar ...
Não dessa maneira
Os olhos inundam-se
O ar ausenta-se, a respiração pesada.

Quero regressar atrás. 
Ao ponto de partida ...
Saberei qual foi?
Só regressar
Qual sombra por sob o sol.





29 outubro 2012

Obrigada, querida Branca





Hoje, ofereceram-me um ramo de ternura.
As ondas levaram-te o cravo vermelho que a Branca deixou, para ti, no areal de Moledo.
A Branca nunca te encontrou.
Aqui.
A Branca nunca te conheceu.
Aqui.
No entanto, encontrou-te ...
No entanto, conhece-te ...
Através de mim.

"Mamã, vamos dançar?"

Aprendeu a apreciar a tua natureza doce e corajosa.
Que permanece nos corações que cativas ...
E vive no dorso das ondas.