
Estou aqui.
Estou rodeada de gente, a um passo de distância.
E, no entanto, estou só.
Quero que a noite acabe e que este silêncio incómodo se dilua.
Que chegue a hora de dormir; dormir mesmo...
Nos meus sonhos confusos de gente e lugares, o David nunca morre.
É o acordar que me traz de volta à realidade.
Ao vazio que não cabe nos olhos que se estendem pelos braços cansados de abraçarem o nada que ficou.
A cabeça sabe mas o corpo não aceita que não haja aquelas mãos esguias; os olhos não aceitam a ausência dos outros olhos.
Nos meus ombros continuam pousados aqueles braços que se ampararam e me disseram "Mamã, não chego aos 30..."
E Abril vem aí. E seriam 31. Só.
E revejo e ouço mil vezes a dureza destas palavras.
Sinto-as como se continuasse lá, nesse tempo, nesse lugar; sem voz, sem ar... perdida para sempre.
E sofro a mesma asfixia, o mesmo pânico.
E não sei como.
Pois se também eu morri um pouco.
Como sinto, então, tanta dor, tanta mágoa, tanta revolta, nesta metade de mim?
Há dias, noites, em que a memória verte as imagens do nosso passado recente, em catadupa.
E não adianta fugir-lhes; sinto um olhar atrás de mim.
Não adianta sair.
Não adianta não querer pensar.
Não adianta.
Porque tudo se fixou em mim; faz parte do meu coração atordoado.
Não fujo.
É assim...deve ser...
Não fujo.
Choro mais um bocadinho.
Ninguém vê. Nesta forma de estar só, rodeada de gente; o coração escapa-se num fumo de tristeza.
De que outra forma se consola a saudade?





