25 junho 2014

Das cerejas e de mim

"A imobilidade"

"Começou a desligar-se das coisas e dos homens. Olhava o jovem vaqueiro no rio e sabia que apenas podia admirá-lo, em seus gestos ..., mas não aproximar-se. Assim com a rapariga que, da árvore, colhia cerejas. Como se o ar formasse um muro diante de si. Então fixou a água, que a seus pés corria, e a água já não reflectia a sua própria imagem."

Tonino Guerra (1920)
Histórias para uma noite de calmaria





23 maio 2014

O (meu) Jazz do David


Bernardo Sassetti

Olá, caros ouvintes, chamo-me David Sobral.

Sejam bem vindos a mais um jazz faz tarde e é, com prazer, que anuncio que esta é a primeira semana dedicada exclusivamente ao jazz português.
Desde o inicio da rubrica que fomos convidando músicos portugueses mas esta semana é-lhes dedicada única e exclusivamente.
Hoje, vamos falar sobre um pianista nascido em Lisboa no ano de 1970, chamado Bernardo Sassetti. Bernardo começou a estudar piano clássico aos 9 anos com Maria Fernanda Costa e, a partir daí, dedicou-se apenas ao jazz. Aos 18 anos, começou a tocar profissionalmente com grupos portugueses. 
Desde então, Sassetti já tocou um pouco por todo o mundo com outros músicos bem conhecidos como Paquito D’Rivera, Freddie Hubbard, Benny Golson, entre outros ... (eles são tantos que, mais tarde, vo-los apresentarei com tempo)
Além do jazz, Bernardo também compõe música para filmes. 
O tema que vamos escutar hoje chama-se “Passado Presente” e faz parte do disco “Passagem” do saxofonista Carlos Martins. 

Esta não será a primeira e última vez que o piano de Bernardo vem ao jazz faz tarde portanto fiquem atentos. 
Até logo que ...




26 abril 2014

Vais chegar nas asas das andorinhas!


                             


Hoje.   Agora.    Há 36 anos.    Não dormia.    A nossa mala preparada junto à janela.   O filho Sérgio, com quase dois anos, adormecido ali ao lado.    No meio do silêncio, eu esperava a madrugada.   Uma criança estava prestes a chegar.    Amanhã, a 27 de Abril.

Não estava assustada.    Um pouco nervosa, talvez.     Tinha 22 anos e sonhos por realizar.   A criança a chegar era bem-vinda.   Tão desejada!    Menino?   Menina?   Não importava.   A cor da roupa de bebé era indiferente.   Era da cor do arco-íris.

Eu tinha 22 anos.   Já com um filho.    Era uma mãe muito jovem.   Era uma menina crescida já muito ciosa do seu papel de mãe.   Era, afinal, o que sempre quisera ser  -   Mãe.     Uma mulher menina muito mãe.     Fora assim que me vira, desde sempre.     Desde adolescente, menina namoradeira, menina maria rapaz.   Mas um dia ... seria mãe.

E então vieste   ...    menino.     Outro rapazinho!    Eu encantada!     E mais uma noite, sem dormir.   Porque a passei a olhar para ti.   Num quarto, eu e tu, no segundo piso da Trindade.

(Que bom ter fixado essa imagem. De forma tão nítida, ainda hoje.)

Tu, recém-nascido de mim.     Um bebé bonito e perfeito.   Adormecido e sereno no berço ao meu lado.   Na tua fatiota azul escuro com um barquinho vermelho bordado.   A tua pele clara e lisa.   As mãos pequeninas e papudas entrelaçadas.   A fazer beicinho.    Os olhitos cerrados mas que se adivinhavam compridos, largos (depois, verdes).    Deitado para o lado esquerdo ... para que te pudesse ver e sentir o teu cheiro.

(Mamã, e eu? Também foi uma cegonha que me trouxe? / Não, David, tu vieste nas asas das andorinhas de Abril.

E foi sozinha, durante o silêncio da noite, que escolhi o teu nome.   E ia chamando por ti.   David!   David!     Repetia e olhava para ti.   Sim.    David, ficava-te bem.    É um nome doce.   Sérgio e David combinavam bem, na minha cabeça de mãe, muito mãe dos seus meninos.

Estava definitivamente apaixonada por ti, David!    Sempre estive.    Ainda estou!    O meu amor por ti aumentará.    Visceral como o tempo.    Um amor incondicional, como sempre foi.   Partilhado, afinal.    E tu sabias.    Soubeste sempre.      Do meu amor por ti, dos meus sonhos, do meu sentir de mãe já não menina.

Agora ... que fazer deste amor incontornável, ferido de lonjura, mágoa e solidão, com intenso sabor a sal ...
Sal do mar, onde, sem saber como ali chegara, te deixei?

Até amanhã, David.