07 abril 2011

ANIMA



Boats in Winter Quarters, Etretat - Claude Oscar Monet
A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

                 
                                                          SOPHIA 


Sons do David

05 abril 2011

Fico assim...

Eu que me rodeio de palavras
que vivo pela palavra
e em palavras transformo a minha vida.
Eu que faço com que os meus dias não passem de palavras vãs
(para que não doam)
mas são
desenterradas a custo do fundo das raízes do meu ventre.
....
Fico assim
Parada 
neste tempo verde do chilrear das andorinhas negras
Fico assim, quieta por dentro.
Num permanente fingimento
e engano de mim própria.
Fico assim
nesta revolta muda ...
de não encontrar palavras novas, 
com que possa esculpir a minha velha dor.
Sempre renovada.
Sempre pesada e surda.

Se, ao menos, as andorinhas se calassem!
E as tardes verdes não gritassem que Abril és tu!

Roots Raices - Frida Kahlo

Roots Raices - Frida Kahlo













                                                           Sophia

03 abril 2011

A noite ... qualquer noite ...

Flowerpot With Chives - Vincent Van Gogh




A NOITE
    Acaricia o horizonte da noite, busca o coração de azeviche que a aurora recobre de carne. 
Ele te porá nos olhos pensamentos inocentes, chamas, asas e verduras que o sol ainda não inventou.
    Não é a noite que te falta, mas o seu poder.

                                                                                                                      Paul Éluard

02 abril 2011

... A presença ausente do meu filho!



Os dias cinzentos entrecortados de sol
Sons de jazz, drumms, saxofone e um contabaixo ...
Viro a cabeça, em busca do cinzeiro,
As cortinas entreabertas deixam entrar o verde do campo onde pastam as ovelhas.
As mesmas ovelhas?
Numa rotina diária, imutável.
Sem tempo.
Vão avançando pelo campo ...
Três gatas, alongam-se preguiçosas, indiferentes ao tempo, à minha volta.
Sem tempo é também o meu tempo.
Um vazio cá dentro.
En attendant ...
Já vivi este momento
Ou um semelhante
Há muito tempo.
Muito?
Sinto-o ontem ...
...
O meu pé enfaixado descansa numa bolsa de gelo.
Ao lado, umas canadianas amarelas.
Entram acordes de piano ...
O tempo, afinal, avança.
Dizem que sou corajosa.
Mas sinto-me tão frágil.
Tão perdida no espaço destes dias de Abril
Tão iguais a outros que vivi.
Esses sim, dolorosos.
De uma dor atroz, a latejar ao ritmo do coração.
De medo quase desumano ...
Tanto medo.
Pânico.
Lembro-me do medo ... quase o sinto ...
A rodear-me, como se o tempo não tivesse passado.
...
Hoje.
A dor que sinto não é minha.
Eu sou a que me olha das fotografias
espalhadas pela sala.
Estou ao lado do meu filho.
Ambos sorrimos.
Um sorriso melancólico.
A presença dele nas fotografias
Diz-me, cruamente, que este tempo é outro
O tempo infindável, etéreo e pesado
Da ausência dele.


26 março 2011

Nem sim, nem não

Este dia está assim, manchado de azul, depois de cinzento, depois nem sim, nem não.
É dos tais que oprimem, que envolvem o peito de nostalgia e a acorrentam; a amordaçam.
Para que a tristeza ou essa tal nostalgia não se libertem.
...
Não me importava de, por vezes, me sentir mais leve.
Menos nem sim, nem não.
Porque da saudade não vou abrir mão.
Não!
Da saudade ... a tal verdadeira, única saudade
Que é a que temos de quem não mais veremos!
Fruto da certeza irreversível!
Não!
Dessa não abro mão!
É minha, vem de dentro, quero-a ali.
Perdida no mar sem fim, onde navegas.
...
É o tempo viscoso desta tarde ...
Que oprime as veias do pescoço
E faz com que se fique assim,
neste sim, neste não ...
Tu, não; tu és sim.
A certeza.