07 fevereiro 2009



As saudades levam-me sempre às caixinhas do David, que abro muitas vezes.
Às vezes, penso que poderia colocar aqui tudo o que tenho de poemas, letras de canções, programas de Jazz, sugestões de boa música, opiniões enviadas para o jornal, contos e charadas...
A cabeça dele fervilhava continuamente.
Acho que foi essa característica que o ajudou a aguentar a doença, sempre um passo à frente dela...
Ele é que me ajudava a mim.
Falta-me a ajuda dele, aqui e agora e para sempre.
E acho que vale a pena guardar aqui coisas dele.
Algumas são muito simples, ternas e infantis; para o grande e corajoso homem que se revelou.

Brincadeiras do David, para que conheçam outras facetas dele.

"A Evolução Humana "

É interessante estudar a evolução humana, mas o ser humano é demasiado complexo, para generalizarmos tanto. É possível portanto, demarcarmos pequenas evoluções especificas relativas à constituição física e psíquica do ser humano.
Dentro da evolução humana, podemos focar a: evolução do estômago, a evolução das opiniões sobre o Benfica, a evolução do matrimónio e a posição perante este, mas neste curto ensaio vamo-nos concentrar na evolução da sexualidade humana. Haverá um curto intervalo nesta apresentação, para ir à casa de banho, e depois retomaremos.
Este fenómeno já foi estudado por psicólogos extremamente importantes como foi o caso de Sigmund Freud, nos intervalos dos seus estudos sobre sexo. No entanto, o estudo efectuado por estes psicólogos é demasiado cientifico e pouco baseado em questões práticas da vida real na sociedade. São estes pontos que nós pretendemos acrescentar aos estudos dos grandes mestres.
Tudo começa como acaba e vice-versa. Na nossa infância, os nossos desejos sexuais são realizados pelas mães, com o seu trabalho como mães, como é óbvio. Tudo acaba como começa, porque o homem adulto, quando deixa a mãe, procura uma mulher que se assemelhe a esta, e que a substitua nas suas obrigações, ou seja, o homem nunca deixa de ser criança.
Nos anos seguintes, as coisas tornam-se bastante diferentes. Nesta nova fase do fim da infância, os desejos sexuais são realizados aquando das festas de anos das amigas. As Barbies das meninas imberbes, fazem as delicias da rapaziada. Esta boneca, com mais de cinquenta anos, torna-se a mulher dos sonhos dos pequenos meninos. Não fala e foi feita exactamente com o objectivo de se lhe poder trocar a roupa sempre que desejado. Na nossa opinião, a invenção da Barbie foi a primeira afronta à única mas famosa criação de esposa de Deus. Esta invenção é muitas vezes designada através da expressão: "Hoje não, estou com dores de cabeça".
Chegados à adolescência, fase na qual está incluído o inicio da puberdade, as condições favoráveis à evolução são inacreditáveis. A avalanche de informação, relacionada com a sexualidade é brutal. A pressão exercida sobre o jovem para o motivar a dar inicio à sua actividade sexual dá-se dentro e fora de casa. Fora de casa, o jovem é provocado pelas conversas com os amigos, que nem sempre são sobre futebol. Por sua vez, em casa a pressão é mais discreta, mas ainda assim eficaz. Quem é que nunca foi vítima da famosa pergunta familiar: "Quando é que arranjas uma namorada?", que se desdobra em diferentes formas como esta: "Não estará na altura de arranjares um namorico?". Só é necessário estar atento.
A pressão é de tal forma grande que já se soube de casos de pessoas que tiveram problemas em cinemas e casa de espectáculos por só terem comprado um bilhete.
Na fase seguinte, que é a do jovem-adulto, as relações amorosas tornam-se finalmente reais e sérias. Uma relação amorosa é como um avião com dois grandes motores: um deles é o sentido de humor e ... não divulgaremos mais.
É a fase mais gira desta evolução; parece que nascemos outra vez. Andamos todos a sonhar, pois a nossa posição em relação ao casamento é extremamente positiva.
Quando acordamos deste longo sonho, já estamos na fase seguinte desta evolução, a última. Nesta fase, a zona erógena é o estômago. Quando temos dez anos dizemos: " Olha, Tenho um jogo novo para o meu GameBoy". Aos vinte dizemos: " Olha, conheci hoje uma gaja, meu...". Aos trinta, não dizemos nada porque andamos a sonhar acordados e, finalmente, aos quarenta dizemos: " Olha, descobri um restaurante óptimo, pá!".
Finalmente, o ser humano conclui que o casamento é uma droga da qual não nos conseguimos livrar assim que nos metemos nela.
Desta forma, terminamos o nosso estudo sobre a evolução da sexualidade humana. Caso se interroguem sobre a continuidade desta evolução, depois dos quarenta anos, terão de esperar pela restruturação deste estudo que se intitula: " A Evolução Humana D.V. (depois de viagra)".

Bibliografia

- Revista "Lola" edição de Setembro de 1998
- Revista "PlayBoy" edição de Janeiro de 1996
- Darwin, Charles "A Origem das Espécies "
- Diário da República, edição de Abril


Patrocínios
- Preservativos Durex
- Revista Máxima
- Desodorizantes Axe


Agradecimentos
Infantário "O Coelhinho Branco"
Secção de Lingerie dos Hipermercados Continente
Loja de Animais "O Macaquito"
à minha professora da primária
Triffene 200
Ministério das Obras Públicas
Tropicana Motéis.

David Sobral

31 janeiro 2009

Por cima do ombro



O não vir aqui não significa não pensar.
O pensar é constante. É como se tivéssemos passado a ser um - eu e tu, sempre, a espreitares por cima do meu ombro.
É como se tivesse passado a pensar por mim e por ti, sempre os dois pensamentos ligados.
Como explicar de outra forma?
...
Mas há uma certa lassidão que se apossou dos meus dias.
Nada me parece urgente neste tempo que me parece ausente, embora seja nele que estou presente.
.......
Aprende-se muito com a ausência.
Não qualquer ausência.
Mas com aquela tua ausência certa, definitiva, imobilizada, inerte num espaço que me ultrapassou no tempo e corre e corre, sem que o queira acompanhar.
É, de certa forma, uma conjugação de ausências; a do que foi e a aquela que vai ficar de um futuro que não será.
Fica-se de braços plenos de prantos.
E de palavras indizíveis.
E o passado silenciado é apenas sussurrado.
Talvez se encontre reflectido nos olhares.
Aí permanecerá, sem espanto.
Hermético.
Enquanto a minha eternidade de mãe durar.



NADA FICA DE NADA

Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese

Da humilde terra imposta,

Cadáveres adiados que procriam.


Leis feitas, estátuas vistas, odes findas.
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos

Poente, por que não elas?

Somos contos contando contos, nada.

(Odes de Ricardo Reis)

23 janeiro 2009

Estou bem...



Há sempre mais qualquer coisa a dizer.
Que estou bem.
Que escrever aqui é a minha forma de diluir a dor para que não se acumule no meu sangue cansado.
Que gosto de quem me escreve; nem que seja só por escrever.
Que, ao responderem às minhas não perguntas, transportam qualquer coisa do David.
Que acredito (e não quero que seja de outra forma) que, só com o David perto de mim, conseguirei manter-me disponível para os outros.
Que com o David aprendi a relativizar os dramas; a ser mais generosa; a esperar que cada dia chegue ao fim para pensar, então, no dia seguinte; a valorizar todos os sorrisos com que me mimam e a desvalorizar palavras menos simpáticas.
Que não aprendi, ainda, a perdoar...
Daí... uma certa forma de revolta.
Daí...a mágoa.
Mas estou bem.
Mesmo não estando.



TESE

Navego num estreito rio de desenganos

Guiado por uma luz que é minha fonte

Inscrito meu desejo todos os anos

De um tempo que é futuro meu horizonte

-.-

Assim o que já foi está para acontecer

Presente que é passado e não tem nós

É como um mar que brada em sua voz

Tudo o que já vivido está para ser

-.-

Tudo o que não dito já foi escrito

Anda-se parado neste arado

É barco que navega pelo tempo

-.-

Certeza pode ser um duro engano

Já que o pensar se perde com o vento

Como o sonho que se agarra ao passado

-.-

( No molde de Antítese de Nuno Júdice )

-.-

Jaime Latino Ferreira
Estoril, 20 de Janeiro de 2009

22 janeiro 2009



Às vezes, sento-me aqui apenas porque não sei para onde ir.
Às vezes, sento-me aqui porque só aqui encontro o ombro ausente do David, onde apoiar a minha cabeça cansada.
Às vezes, só aqui posso deixar de fingir que tudo está a melhorar e que o tempo me vai curando.
Só aqui, posso gritar em silêncio e dizer que não compreendo.
Ao olhar as fotografias, coladas na cortiça da parede do teu escritório, navego para um lugar ausente, para dias distantes e em que quase tudo fazia sentido.
Acontece os filhos morrerem, acontece.
Acontece também que se fica perdida, embora se conheçam todos os caminhos, todos os gestos necessários, todos os rituais próprios de cada dia da vida.
É na vida que se fica perdida.
Por isso, me sento aqui, neste lugar onde tudo ficou suspenso.
Onde não há qualquer esquecimento.



Atraso


Não me quero atrasar
Não quero perder este comboio
Sempre a andar.
Quero sentir tudo o que possa agarrar.
Se parar, sei que vou morrer.
E terei que ceder a minha vez.
Não quero para mim essa languidez.
Não me travem esta força, porra!
Esta energia que trago cá dentro.
Quero agarrar a vida, ser um aventureiro.
Causar impacto e dispersar-me do centro.

David Sobral (1995)

20 janeiro 2009

Difícil



Não é fácil não vir aqui.
Não é fácil inventar coisas urgentíssimas a fazer...quando nada ou quase nada se tornou urgente.
Arrumo o que já foi arrumado.
Mudo plantas de sítio.
Cozinho para famílias numerosas.
Saio a correr de casa porque me esqueci de comprar ... salsa...ou mais um novelo de lã para juntar aos diversos cestos cheios de lãs.
Não é fácil não vir aqui.
Se me privasse de ouvir música...
Se me privasse de ver os tons do pôr do sol...
Se me privasse de olhar para o teu chapéu, pendurado à entrada, onde o deixaste...
Se me privasse de pensar ou ver o mar...
Se me privasse de sentir o aroma dos pinheiros...
Se me privasse de seguir o rasto dos aviões que passam e onde vamos sempre, tu e eu... quase sem armas ... quase sem bagagem
Se me privasse de abrir a porta do teu quarto, onde permanece o teu cheiro já ténue...
Se me privasse de recordar as cumplicidades que tivemos, apesar do tempo agreste...
Se me privasse dos passeios pela FNAC à procura dos teus sons...
Se fechasse a sete chaves o meu coração...
Se encerrasse bem fundo, muito muito fundo, o meu sentir, o meu ver, o meu ouvir...
Talvez sorrisse um pouco mais e os meus olhos não andassem sempre sequiosos de lágrimas.
Mas não seria eu...
Mãe para sempre!
Essa sou eu.

Antítese
Navego num largo mar de enganos
guiado pela estrela cega do horizonte.
O meu destino está inscrito nesses anos
em que o tempo nasce de uma futura fonte.

Assim, o que foi ontem está para ser,
passado que vive num presente sem nós,
como o rio que, para correr, nasce na foz;
e tudo o que vivi ainda está para se ver,

tal como o silêncio que fala nesta voz.
O caminho faz-se quando se está parado,
barco que anda sem haver vento;

e só quem está certo pode ser enganado
quando, ao pensar, perde o pensamento,
e em tudo o que sonha só vê o passado.

Nuno Júdice