15 janeiro 2009



Que diz o meu coração?

Bato.
Por bater.
Ando.
Por andar.
Respiro.
Por respirar.
Falo.
Por falar
Vivo.
Por viver.
Sangro.

Em certos dias,
como hoje,
devia acontecer morrer-se
De tristeza.
De cansaço.
De desânimo.
De abandono.
De não saber como fazer.
Por fazer.

E, depois, talvez ... acordar.
Por acordar.
Ou talvez, continuar.
Por continuar.




Expressão

Sinto algo a brotar cá dentro
Tenho de me libertar
Tenho de me deixar recriar
Já não sinto este mundo como sentia
E sei que já não quero fazer o que fazia
Não tomar as coisas como já tomadas
Mas criar algo a partir d'uma nova visão
Abrir e ensinar todas as novas mentes fechadas

David Sobral
(1995)


14 janeiro 2009

Sonhar sempre...é preciso.



Sonhei um destino feito à minha medida, naquela idade em que nos é permitido tudo sonhar.
Sonhei um outro destino, desafiando alguns pequenos deuses, quando ainda me foi permitido sonhar.
Sonhei ainda, revoltada perante a inutilidade das súplicas e quando tudo nos era já adverso.
Adivinhava-se uma morte sem sentido e, mesmo assim, consegui sonhar.
Porque havia um castelo de sonhos e tínhamos a força de um cavaleiro andante.
Sonhámos. Não parámos, teimosamente, de sonhar.
Chorei tanto quanto sonhei....
Sonhar era a nossa jangada; estranho porto de abrigo no meio do oceano dorido e alterado.
Foi bom ter conseguido sonhar um sonho a meias, teu e meu...
Agora, sonhar é pesado e doloroso.
Agora, proíbo-me de sonhar.
Percorro cada dia, com pezinhos de algodão.
Ando sorrateira, por entre as gentes.
Não vá magoar-me ...

10 janeiro 2009



Vou andando sem olhar em frente.
Desconheço o caminho; é a própria vida que me guia.
Querer conhecer o percurso?
Para quê?
Tudo será sempre o que tiver que ser.
No final de cada espectáculo, saberemos.

Perante o palco vazio, escuro e frio.
As cortinas corridas.
Foi preciso sair.
Saí. Mas não só...

A parte de ti que trouxe detrás, carrego-a sem esforço...
É um farol que brilha na névoa da memória.
É calor, ainda.
Mesmo vindo de longe.
É calor que me amacia o coração e me torna mais humana.
Apesar da dor.

Não tenham pena de mim.
A saudade e a tristeza são o preço que tenho que pagar.
Não me pesam.
Não as calo.
É assim que quero que seja, enquanto for...
Sem elas, ter-me-ia tornado um tronco oco e seco.
Porque o nada, esse sim; esse destrói os corações.


07 janeiro 2009

A leveza das lágrimas



Sinto-me ausente neste espaço novo de que não reconheço as margens.
Moram em mim caminhos parados no tempo; gestos de desamparo; gestos doridos.
A saudade aninhou-se bem fundo, quietinha, imutável, na dureza da lonjura, tão próxima, tão quente de vida.
A saudade revela-me todos os segredos.
Permite-me situar cada gesto, cada passo, cada vitória, cada derrota, novo sorriso e nova derrota.
Cruelmente, vai desvendando alegrias que não passaram de embrião.
Persigo, nas esquinas, recortes do que passou …
Continuo sem compreender o que nos afastou.
No meu coração encarcerado, as lágrimas fazem parte do meu quotidiano; não as estranho.
Um dia sem lágrimas é um dia em que sinto mais pesada a dor; em que me fecho.
As lágrimas são leveza.
São bem-vindas, ... por estranho que pareça.

02 janeiro 2009

Medo



Todos nós temos uma história.
A cada dia nos tecemos com faúlhas do fogo do passado.
Coisas boas? Dias maus?
A mim, sobrou-me muito medo.
Tenho medo do medo em que vivi.
Tenho medo do medo que o David deve ter sentido.
Sem que eu pudesse ter ajudado.
Esse pensamento contínuo queima os olhos...
Por onde andaria, que não me apercebi?
Porque não me apercebi?
Ainda agora não sei.
Só a roda da sorte?
Inevitável?
A calmaria ficou para trás... fiquei tão distante de mim.
O percurso da vida é de sentido único.
Caminhos de volta? Não há.
Nem os procuro.
Foram apagados.
Sigo em frente, por pequenos atalhos, tendo como pano de fundo a cortina da memória.
Sigo em frente, dorida, sem o apoio da esperança e, se a houvesse, alguma ilusão de eternidade.
Sou hoje - sonho ou realidade?
Não sei.
Sou estas palavras que aqui vão ficando, feitas de mágoa e nostalgia.
Porque houve e há um David que sinto, aqui, sempre tão próximo e sempre tão presente.
Como se fora ontem.
.................
Procuro-me, determinada, no reflexo daqueles olhitos negros e alegres do meu neto.
Procuro-me em breves sorrisos do meu filho.
Sou também isso.
É tudo muito vago.