Outubro/07 Miradouro, Caminha
Sim, o tempo é como lava. Queima e arrasta...
Sim, eu sei que não existes.
Mas esta é a única forma que encontrei de me ir despedindo, nem que leve todo o meu tempo de existir.
Não é muito tempo, apenas o tempo de te recordar um pouco mais intensamente, aqui.
Escrever é a forma de me manter ligada, a ti.
Ainda que por palavras, somente.
Se fosse todo o tempo de pensar, estaria sempre aqui; nem podia ser de outro modo porque a dor é física. Sinto-o no buraco que se me abriu no peito.
Os pensamentos não se materializam; mas as palavras que aqui vejo são reais.
Por isso, escrevo.
Provavelmente, também quererias que me fosse desprendendo.
Mas é cedo.
Quero registar tudo! Se não, de que viverei?
Da memória que me pode atraiçoar?
Não consigo imaginar-me a viver sem este cantinho.
Preciso dele...
Olho para as fotografias e até elas parecem afastar-se já; como se não fizessem parte dum tempo longínquo ou tudo tivesse sido um sonho de que fui expulsa.
Sei que partiste...
Uns dias, consigo convencer-me de que é isto a vida e que não podia querer prender-te mais.
Começaria a ser doloroso.
Outros dias, toda essa teoria que construo, para meu próprio amparo, se desmorona e fico louca dentro deste silêncio onde me escondi.
Triste sina! Ter como consolo o menor dos males - partires como se adormecesses.
É Setembro, já no fim.
Em Outubro, faz-se escuro!
O MarAntes que o sonho (ou o terror) tecesseMitologias e cosmogoniasAntes que o tempo se cunhasse em diasO mar, o sempre mar, já estava e eraQuem é o mar? Quem é aquele violentoE antigo ser que rói os pilaresDa terra e é um e muitos maresE abismo e esplendor e acaso e vento?Quem para ele olhar vê-o pela primeira vezSempre.Com o assombro que as coisasElementares deixam, as belasTardes, a lua, o fogo de uma fogueiraQuem é o mar, quem sou?Sabê-lo-ei no diaQue se segue à agonia.
Jorge Luís Borges