29 setembro 2008

azul


Creta, o rapazinho da direita

Sabes, David, vou ver o teu mar azul.
O teu mar de Creta, as oliveiras milenares e Poseidon.
É estranha esta sensação de ir a sítios da tua eleição.
Dizias que lá irias muitas vezes.
E levarias a Olga.
É estranho e há um aperto no peito...já de saudades.
(Saudades de quê, se não estás aqui?)
Por não poderes ir.
Por não veres Zeus, lá no alto do monte.
Por não poderes relaxar, à noite, num bar à beira da água sempre quente.
Por saber que, desta vez, não trago um CD de bouzuki (?).
Desta vez, não trago mel, ... nem Ouzo.
Desta vez, não trago o azul do mar Egeu nos olhos.
Os meus olhos cansados estão repletos do azul das lágrimas da saudade.



28 setembro 2008

Caminha, Moledo, David...



Eãm Lebasi (Mãe Isabel)

Nunca tive jeito para frases poéticas,
não domino o estilo,
nem a rima, nem o verso,
nem o falar do amor,
da alegria,
da injustiça
ou guerras.

Mas sinto.
Eu sou assim
sem jeito para escrever.
Penso e repenso.
Mas escrever...
Nada.
A mente fica bloqueada e a mão paralisada.

David Sobral
(prenda de anos à mãe)



CAMINHA
Papagaios no areal de Moledo

Escura
A silhueta

Banhada pelas costas da alvorada

Da luz que a acaricia na jornada

Caminha

Esguia

Posta à prova porque é dura

Mansa

E cria

O que na vida inteira a alivia

Olha a calçada

Irónica sorri

Da sorte amarga

E encontra sem dobrar

O olhar eterno

Cor amada



Interpretação livre de uma fotografia de David Sobral
Caminha / Outubro de 2007


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Setembro de 2008

Outra carta


Outubro/07 Miradouro, Caminha


Sim, o tempo é como lava. Queima e arrasta...
Sim, eu sei que não existes.
Mas esta é a única forma que encontrei de me ir despedindo, nem que leve todo o meu tempo de existir.
Não é muito tempo, apenas o tempo de te recordar um pouco mais intensamente, aqui.
Escrever é a forma de me manter ligada, a ti.
Ainda que por palavras, somente.
Se fosse todo o tempo de pensar, estaria sempre aqui; nem podia ser de outro modo porque a dor é física. Sinto-o no buraco que se me abriu no peito.
Os pensamentos não se materializam; mas as palavras que aqui vejo são reais.
Por isso, escrevo.
Provavelmente, também quererias que me fosse desprendendo.
Mas é cedo.
Quero registar tudo! Se não, de que viverei?
Da memória que me pode atraiçoar?
Não consigo imaginar-me a viver sem este cantinho.
Preciso dele...
Olho para as fotografias e até elas parecem afastar-se já; como se não fizessem parte dum tempo longínquo ou tudo tivesse sido um sonho de que fui expulsa.
Sei que partiste...
Uns dias, consigo convencer-me de que é isto a vida e que não podia querer prender-te mais.
Começaria a ser doloroso.
Outros dias, toda essa teoria que construo, para meu próprio amparo, se desmorona e fico louca dentro deste silêncio onde me escondi.
Triste sina! Ter como consolo o menor dos males - partires como se adormecesses.
É Setembro, já no fim.
Em Outubro, faz-se escuro!


O Mar

Antes que o sonho (ou o terror) tecesse
Mitologias e cosmogonias
Antes que o tempo se cunhasse em dias
O mar, o sempre mar, já estava e era
Quem é o mar? Quem é aquele violento
E antigo ser que rói os pilares
Da terra e é um e muitos mares
E abismo e esplendor e acaso e vento?
Quem para ele olhar vê-o pela primeira vez
Sempre.
Com o assombro que as coisas
Elementares deixam, as belas
Tardes, a lua, o fogo de uma fogueira
Quem é o mar, quem sou?
Sabê-lo-ei no dia
Que se segue à agonia.

Jorge Luís Borges

27 setembro 2008

Da varanda



Ao som da música do Ali farka Toure, sentada na varanda, onde tantas vezes dormiste uma sesta, procuro imagens familiares.
Vejo o prado, acabado de cortar e a cheirar a frescura. As ovelhas começam a retirar-se. As vacas ainda pastam.
Está tudo por aqui, mas não lhes encontro o encanto de antes...
Viver na cidade, com paisagem de campo.
Tu gostavas...
Nós, também.
Agora, não sinto.
Nem o mundo lá fora deixa de me parecer sem sentido.
Chega-me, apenas, como reflexo da memória de uma certa melancolia.
Raramente me lembro de dias alegres.
No entanto, por onde vou, parece que nada mudou - os jardins são os mesmos, as ruas conduzem aos mesmos sítios, pede-se um café e, logo, o trazem... ninguém vê as marcas das minhas lágrimas secas.
O mundo continua a sua rota espacial, deixou-te para trás... e vou querendo ficar um pouco mais contigo.
Aqui, silenciosamente, em frente ao prado.
Onde adormecias o cansaço acumulado.
E eu zelava...
Tudo ia melhorar.





"Imagina antes que nós
Nos viramos de lado para dormir:
Aqueles que um ao outro se guardam

Em vida, nunca serão apartados"

John Donne

26 setembro 2008




O meu mundo é feito de gestos inúteis.

Moram em mim caminhos parados no tempo.
São caminhos de medo do que passou e que regressa, a cada instante
Moram em mim mil razões para viver, já mortas, poucos perdões e muitas condenações.
Relembro gestos de desamparo. Gestos doridos.
A saudade revela-me todos os segredos, permite-me situar cada gesto, cada passo, cada vitória, cada derrota e outra derrota.
Cada fim que se repete...e repete.
Cruelmente, desvendam-se todas as alegrias que não passaram de embrião.
Persigo-as, em cada esquina do tempo, ... o que já passou …
Continuo sem compreender o que nos afastou.



Quem se importa?


Quem se importa, quem se importa?
Se não tiveres sucesso
Quem se importa, quem se importa?

Se não viveres sequer

Quem se importa, quem se importa?

Se a tua mãe morrer

Quem se importa, quem se importa?

Se o sol não brilhar

Quem se importa, quem se importa?

Se alguns vão morrer

Quem se importa, quem se importa?

Se eles não têm ajuda

Quem se importa, quem se importa?

Se eles não têm abrigo

Quem se importa, quem se importa?

Se dormem quando caminhamos


Quem se importa?
Quem se importa?

Quem se importa, quem se importa?

Se não tivermos futuro

Quem se importa, quem se importa?

Se não chegar a paz

Quem se importa, quem se importa?
Se o nuclear vier
Quem se importa, quem se importa?


Caso alguém se importe...
David Sobral