15 setembro 2008

Aqui.



Aqui?
Sim, eu sei que não existes.
Sei que fiquei, aqui.
Sei que não devia continuar a viver, fingindo que estás aqui.
Sei que muitos receiam que eu viva demais, aqui.
Mas aqui, é também a minha casa.
Uma parte de mim é aqui que habita.
Quero continuar um pouco mais, aqui.
Manter a porta aberta e deixar entrar raios de sol e sombra, vindos do passado.
A única forma de aguentar a saudade é vindo, aqui.
É dizendo, aqui, que nada é justo.
Que, aqui, nada de mal me pode voltar a acontecer.
Porque, aqui, me desfaço de ilusões que só podem magoar.
É chorando, aqui, que me dispo da amargura que carrego por aí.
É daqui que levo alguma leveza que me permite olhar de frente, cada novo dia.
É aqui que recupero as forças que vou perdendo por aí.
Ainda é cedo, demasiado cedo, para sair daqui.
Não esgotei o que quero dizer.
As lágrimas não secaram e é aqui que as guardo.
É aqui que recolho os bocadinhos de mim em ti.
A coragem de que preciso só a encontro aqui.
Ainda, é daqui que invento sonhos e calo as tempestades da saudade.
Talvez, um dia...não venha tanto aqui.
Talvez....
Mas tenho toda a vida, longa ou breve, para me habituar à ideia de que já não estás...nem aqui!






Feliz de quem passou por entre a mágoa

E as paixões da existência tumultuosa,

Inconsciente, como passa a rosa,

E leve como a sombra sobre a água.


Era-te a vida um sonho. Indefinido.

E ténue, mas suave e transparente...

Acordaste, sorriste... e vagamente

Continuaste o sonho interrompido.


Antero de Quental

14 setembro 2008

Em espiral




Regressos contínuos...
Ando em busca de um tempo perdido mas presente.
Os aviões passam, lá no alto.
Todos regressam de Barcelona. Lá dentro, vimos nós, de olhos vazios e mãos inertes.
Pedimos que nos seja concedido tempo. Queremos mais um bocadinho de tempo.
Queremos respirar o sol de Moledo.
Queremos ver o mar.
Queremos poder, ainda, ter um brilhozinho de esperança, no olhar
Ainda é cedo para nos despedirmos de nós.
Ainda é cedo para fecharmos o coração.
Ainda é cedo para encerrar o livro e deixar folhas em branco.
É cedo para o silêncio.
Mesmo inundado de lágrimas, o tempo é sempre tempo de mais um olhar terno.
De mais um apertar de mãos.
Tenho saudades das tuas mãos; sempre as mãos e o sorriso.
E a música!
Saudade desse tempo inundado de lágrimas...





PENSAMENTOS SOBRE O TEMPO


Vós viveis no tempo e o tempo não conheceis;
Do que sois e onde estais, vós, homens, não sabeis.
O que sabeis é só que num tempo nascestes
E que haveis de partir num tempo, tal viestes.

Mas o que foi o tempo que em si vos deu guarida?
E que será esse Outro que de vós fará nada?
O tempo é tudo e nada, o homem a ele igual;

Mas sobre o tudo e o nada a dúvida é geral.

O tempo morre em si, e de si renasceu.

Um vem de mim e ti, outro és tu e sou eu.

O homem é no tempo, este nele também,

E no entanto o homem, quando ele fica, vai.

O tempo é o que vós sois, vós sois o que o tempo é,
Mas bem menos sois vós que aquilo que o tempo é.

Ah, viesse aquele tempo em que tempo não há,
P'ra nos levar do nosso para os tempos de lá

E a nós de nós mesmos, para podermos ser

Iguais àquele tempo que já deixou de o ser!


PAUL FLEMING (1609-1640)
0 Cardo e a Rosa - Poesia do Barroco Alemão

10 setembro 2008

Há sempre uma qualquer razão




Ao António, gostaria de dizer que a mãe do David agradece os comentários que aqui faz, independentemente das razões.
Razões de mãe, as minhas, como deve calcular.
Razões humanas de solidariedade, as suas.
Razões que me afagam a dor.
Respeitar a minha dor é o que o António faz, quando me escreve, concordando ou não com a minha visão do mundo.
Talvez a sua força consiga que o mundo seja como acredita que será. Seria bom...
Não aprecio quando todos concordam comigo, em tudo.
A razão pode ser a indiferença e eu não aprecio.
Companhia é o que todos aqui me fazem, quando me lêem e comigo pensam no David.
Serão necessárias mais razões, se só essa me basta e me reconforta?
O caminho a percorrer é longo, sinuoso e agreste.
Há tempo para o silêncio.

Uma lágrima pesada



Olho para os dias como se tivessem existência física e eu estivesse fora deles.
Impossível não me fixar num indício, então despercebido.
Impossível não permitir que o medo me suba na garganta.
Porque o medo, conheço-o agora.
Transportei-o comigo, durante muito tempo mas não me permitia senti-lo ou deixar-me conduzir por ele.
Sentia-o sempre latente, mas havia algo mais forte que se impunha ou me impunha... Já não sei.
Era a necessidade de te apoiar, de te mostrar que era forte, que não acreditava que estivéssemos condenados.
Sabia que verias nos meus olhos o medo, se o deixasse instalar-se. Por isso, chorava às escondidas, sempre que me era permitido. Pela noite dentro, quando já dormias.
Olho para os dias. Estou cá mas vejo-me lá. Vejo-te debruçado e de joelhos dobrados sobre o gradeamento da varanda na rua Vicenz Martorell.
Já os teus olhos traziam o tom esverdeado da icterícia. Já o teu pensar era mais lento. Já o teu corpo cansado pedia repouso, cada vez mais repouso, no sofá.
Mas a curiosidade ainda te levava à varanda; querias ver o movimento na pracinha, em baixo.
Há um ano, disseram-nos, abruptamente, que o ensaio não estava a surtir o efeito desejado. Não te ofereceram mais nada, apesar de, muitas vezes, terem dito que se aquele ensaio falhasse, havia outras coisas.
E isso sossegava-nos.
Não devia ter sido assim.
Não devias ter deitado aquela lenta lágrima.
Pesam-me tanto algumas das lágrimas que deitaste, apesar da coragem e determinação.
Aquela lágrima queima.
Ainda bem que os males do fígado esbatem a percepção da realidade.
Logo ali, destroçada por dentro, mas sem vacilar, sem hesitação, tracei os passos a seguir.
O médico ficara calado, depois de te dizer que não havia, ali, nada a fazer. Os meus olhos gritavam-lhe por socorro
Mas eu sorria-te. Sei que te afagava a mão para que não tivesses medo.
Iríamos para Paris. Paris, de novo. Paris ficara em aberto, para mais tarde.
Só, nessa altura, o médico percebeu que não se pode destruir, assim, uma esperança. Só, então, ele colaborou comigo e te serenou.
E tu sossegaste. Paris seria o nosso próximo cais.
Eu calava a desesperança que se ia instalando.
Mas fazia projectos.
Íamos descansar uns dias, a Moledo. O Sérgio, a Carla e o Manel iriam connosco. Ias estar com a tua Olga.
Mas aquela lágrima que deitaste queima-me.
Faz hoje um ano.
Olho os dias como se tivessem existência própria, fora de mim e de ti.

Estranheza!




Estranho.
Há saudades estranhas. Estranhas como as árvores no Outono, quando as folhas caem saudosamente.
Saudades de vidas nunca vividas.
Saudades da mão que me estendias para me sossegar.
Saudades do dia em que juntasse, debaixo da minha asa, filhos e netos.
Saudades dum futuro teimosamente projectado, contra tudo.
Saudades da saudade leve doutros tempos que se vão esfumando lentamente.
Saudades da esperança que sentia, mesmo quando todos ma tiravam.
Esta saudade é uma pedra atada à volta do coração que me puxa para o fundo do rio.

Este mundo assim, da saudade das mães orfãs de filhos, foi uma invenção cruel...



Herança


Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.


Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,

essa vida, que era tão viva, tão fecunda,

porque vinha de um coração?


E os que vierem depois,
pelos caminhos infinitos,

do pranto que caiu dos meus olhos passados,

que experiência, ou consolo, ou prémio alcançarão?


Cecília Meireles