
Aqui?
Sim, eu sei que não existes.
Sei que fiquei, aqui.
Sei que não devia continuar a viver, fingindo que estás aqui.
Sei que muitos receiam que eu viva demais, aqui.
Mas aqui, é também a minha casa.
Uma parte de mim é aqui que habita.
Quero continuar um pouco mais, aqui.
Manter a porta aberta e deixar entrar raios de sol e sombra, vindos do passado.
A única forma de aguentar a saudade é vindo, aqui.
É dizendo, aqui, que nada é justo.
Que, aqui, nada de mal me pode voltar a acontecer.
Porque, aqui, me desfaço de ilusões que só podem magoar.
É chorando, aqui, que me dispo da amargura que carrego por aí.
É daqui que levo alguma leveza que me permite olhar de frente, cada novo dia.
É aqui que recupero as forças que vou perdendo por aí.
Ainda é cedo, demasiado cedo, para sair daqui.
Não esgotei o que quero dizer.
As lágrimas não secaram e é aqui que as guardo.
É aqui que recolho os bocadinhos de mim em ti.
A coragem de que preciso só a encontro aqui.
Ainda, é daqui que invento sonhos e calo as tempestades da saudade.
Talvez, um dia...não venha tanto aqui.
Talvez....
Mas tenho toda a vida, longa ou breve, para me habituar à ideia de que já não estás...nem aqui!
Feliz de quem passou por entre a mágoa
E as paixões da existência tumultuosa,
Inconsciente, como passa a rosa,
E leve como a sombra sobre a água.
Era-te a vida um sonho. Indefinido.
E ténue, mas suave e transparente...
Acordaste, sorriste... e vagamente
Continuaste o sonho interrompido.
Antero de Quental






