24 julho 2020

TU, no passado, no presente, no futuro

Olha.

Lá anda ela a cavalgar o tempo
A navegar sentimentos
Nos soluços presos na garganta seca
Não sabe se regressa do futuro imaginado
Se recua, imprecisa e ressentida, do passado
Para, de olhos entreabertos, mergulhar
E emergir sonâmbula no presente


Lá anda ela
A louca dos sentidos
A alongar-se no largo oceano
Onde estás
Em cada grão de areia
Em cada fio de alga


Contigo
Imaginado, apenas
Sente-se cavalo-marinho
Um búzio
Ou estrela do mar

Regressa, então
à teia



10 dezembro 2019















(E)ternamente sua, Mamã!









"Devias saber que é sempre tarde que se nasce, que é sempre cedo que se morre. E devias saber também que a nenhuma árvore é lícito escolher o ramo onde as aves fazem ninho e as flores procriam."

Albano Martins

12 abril 2019

Vida quê?











sim, compreendi

desta vez
acho mesmo que compreendi
que não existe forma acertada
(ou não)
de compreender a vida

só há que volteá-la entre os dedos
qual bola de golfe
ou outra bola qualquer
que caiba numa mão quase fechada

só há que a fazer saltitar entre uma e outra mão
para que não magoe
e se torne tolerável
a dureza
o peso
a rugosidade

ou outra coisa qualquer

26 março 2019

lugar fixo



que interessa seja março ou maio, 
sei que abril se aproxima
ou outro mês com nome a inventar
há sempre um amanhã qualquer
a chegar ou já chegado
que se repete, 
renovando o bater das asas das gaivotas que vejo da janela
ou em frente ao mar
talvez as mesmas de amanhã 
as de há pouco
os gritos repetidos que se soltam dos bicos
volteando por sobre os telhados de vermelho envelhecido
como a mão que escreve sem pensar

quem sabe

terão trocado de lugar
viajado comigo
e agora lá ficou deserto
só tu
na tua rocha cinza
nas marcas das patas das gaivotas no areal húmido
nas ondas cobertas de cavalos marinhos
saídos
do verde transparente do fundo oceânico
adormecidos em conchas de luz
ou baloiços de algas

trocaram de lugar
há sempre qualquer coisa
uma agonia
ou eu
qual grão de areia mais pesado 
que se mantém fixo à base da rocha cinza
e não troca de lugar
girando o resto num vórtice
de luz e sombra
e distâncias
entre marcas de tempo indistinto
e a  percepção dos dias embaciados de memórias
presas a esta mão que escreve
e não se pensa

apenas ao de leve


15 outubro 2018

Jazz faz tarde - David Sobral - Swing



Já se fazia tarde

Estava ciente disso, embora não acreditasse

Afinal, há coisas que não podem, nunca, acontecer

A minha incredulidade, ainda hoje

Saídos de casa, no dia 13, sábado, em direção à urgência

Internamento, a dois

Um quarto branco, a dois

Sorrisos tímidos e cansados, os teus

Meigos, os olhares de frente

E francos

Conversas sussurradas

De quem não deixa nada por dizer

Entre quatro mãos entrelaçadas

Dias que se iam desfazendo, a dois

Numa enfraquecer súbito

Na lonjura da casa, os dois

Donde chegavam só rumores

Que já não ouvíamos

Nada para além daquele quarto branco

Já nem a tua música