06 dezembro 2015

Repetindo, repetindo, repetindo ...


Aqui regresso, à casa do silêncio.
Arremessada pela lava do vulcão da dor.
Pela incapacidade de te resgatar da juventude perdida no mar.

Cá no fundo me encolho.
Ou escondo.
No escuro e na lama me revolvo em ondas de raiva.
Ensimesmada, protejo-me de olhares alheios.
Se ando bem?

Ando bem.
Embora não chame a isto viver.
Antes sobreviver, dentro de um coração desassossegado.
Perdida sempre na ilusão de te sentir tão perto.
Ainda.

Aprende-se a parecer feliz com bem pouco.
Na modéstia dos desejos.

22 setembro 2015

Um cheirinho a ti!



Ainda os teus deliciosos comentários a espectáculos ... neste meu permanente vazio.




"A Princesa Malene"

 Há não sei quanto tempo, fui ao Teatro Helena Sá e Costa ver o primeiro espectáculo do recém-criado Núcleo de Criação Teatral. Cheguei atrasado e a pessoa com quem fui, ainda mais. 
Entrei, subi, tropecei, disse "Ai! Porra!", levantei-me, sentei-me e concentrei-me.
A primeira parte do espectáculo é muito parada. Não há quase som nem música. Não senti qualquer envolvência. O baile é muito lindo mas parece que não está a acontecer, não tem impacto, tal era o marasmo que até ali se fazia.
A minha companheira adormecera, entretanto, o que me fez sentir culpado por a ter levado a ver aquele espectáculo. 
Pareceu-me que já não se faz teatro para as pessoas. Depois de recebido o subsídio, há uma guerrinha entre as companhias e fazem-se peças para se impressionarem uns aos outros e as discutirem, depois da meia-noite, no Bar Pinguim. 
Introspecção feita, voltei a aterrar no THSC.
Metade do elenco desiludiu-me. Dos restantes, uns surpreenderam, um em especial deixou-me rendido ao seu talento e houve um outro que me confirmou a sua má qualidade em palco.
O texto dito, só serviu para perceber a história e não o suficiente para me deleitar com alguma poética que pudesse existir naquelas palavras. 
As mudanças de cenário são chatas, feitas em total silêncio. Lembrei-me dos festivais de verão, quando, no intervalo entre bandas, numerosos técnicos de palco, mudam baterias e outros instrumentos. 
Ainda em relação ao som e à música, o facto de esta quase não existir na primeira parte, fez-me pensar que o "gajo do som", chegou sempre atrasado aos ensaios. Mas quando a há, a música é muito boa, também é verdade.
A cenografia é muito versátil e a sua relação com a luz é profunda. Por falar em luz, acho que esta é a área mais elaborada. Ela carrega e transporta todo o ambiente soturno e denso que se vai criando. Sem falhas.


Não sei se terei feito mais esforço a ver esta peça tão seca ou a escrever este texto tão seco.

22 julho 2015

Nenhum palácio encantado da ventura!



Ouço tantos falarem da obrigação de se ser feliz.
Apesar de tudo.
Apesar da morte de um filho ...
Outros tantos dizerem que ser feliz é um imperativo.
Porque sim! Vida há só uma ...
Doa a quem doer.
O que passou, passou!! Agora, é olhar em frente. Mesmo não vislumbrando o percurso ...
Existem sempre vozes seguras que se impõem, catárticas.
Sábias, inquestionáveis nas suas certezas absolutas.
Egoístas. Absurdas. Maniqueístas.
No deserto entre o ser e o não ser.
Prepotentes, neste lodo difuso, em que só somos ... se todos formos.
Enquadrados! Iguais.
Que é o mesmo que dizer.
Iguais a nada. Cinzentos.
Submissos às maiorias que vingam; armadilhados entre crenças ancestrais; servos de um hedonismo balofo.


Eu reivindico o meu direito à tristeza da saudade, à melancolia, por contraposição à imposição de ser feliz.
É que, à minha maneira, sou muitas vezes feliz (apesar da dor aguda cravada no bocadinho de carne onde dizem estar o sentir).
Antecipo os meus momentos de felicidade.
(Sei quando o sorriso dos meus netos vai bater à minha porta!)
E nunca fujo!
Mas não me imponham a busca da ventura como preceito!

Como lema de vida, tenho um, apenas -  actuar sempre de forma que a minha mãe Alice e tu, querido, muito querido David se sentissem orgulhosos de mim!!
É uma forma simples de buscar a paz.






Paragem num tempo vago ...



















Segredos do oceano

Ouvi o vento
Observei a minha vida
Nascer para ser selvagem...
Era o que eu pensava
Mas quem falou comigo?
Que não vi
Dei-lhe um beijo.
Talvez sinta a minha falta
Porque eu fugi
Por algum tempo
Em busca do meu dia
Esquecendo o meu lamento.

            Porquê chorar? Porquê?
            Não sei
            E não quero saber
            E não preciso
            E porquê chorar?

Os meus passos
A par do meu destino
Amarram os meus pensamentos,
De outro modo livres
Cheguei então ao meu destino
Onde está o mar
Corri pela praia
Parei quando encontrei
Um cavalo-marinho
Com quem tinha falado
Disse que a razão da minha raiva
Me empurra para a morte
Procurei o que todos procuram
A imortalidade
Que não existe!

Mas eu sei
Que o segredo da imortalidade
É saber partilhar
Com os deuses a maravilha da criação
E os cavalos-marinhos mergulham
No oceano
E o silêncio chora comigo

David Sobral (1995)


11 junho 2015

O tempo desagua em ti ...

E resta-me viver
 ...
não antevendo com que alfabeto traduzir-me
escurecendo a um canto de mim
mil vezes ao dia
nas entranhas aduridas de saudade antiga
resistindo à voragem do medo que atordoa
no cárcere de um tempo cego,
inverosímil, sem ti
sorvendo silêncio e solidão onde me abrigue.
ou, então, fixando-te, menino, por detrás das pálpebras
e
desistir de todos os desígnios
ensaiar na pele a água fria do mar
como quem navega
(tu, sereno, mesmo ao lado)
desertar de quem me habita
eu e a outra.
Ficar estranha de mim
Aconchegada
Numa névoa branca da memória.



                         Morreu Ornette Coleman - um pedacinho mais de ti.