02 abril 2014

Pretextos

 Só podia ser de mim para ti, David, este esboço de carta.
No vestir-me destas palavras  exactas.
Um pretexto para estar aí.
Esta impressão de solidão, ao fim da tarde.
Uma forma como qualquer outra de disfarçar que me escondo.
Esta troca de gestos invisíveis de ternura que nos une.
Pedir-te mais uma vez que fiques comigo; que não te vás.
Que eu, sem ti, não fico; não tenho onde ficar.
Que os dias deixaram de ser azuis.
Só o mar!
Onde, talvez, nos encontremos; abrigados nos corais.


Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um 
encontro contigo, num sítio em que ambos 
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma 
das ocorrências da vida venha 
interferir no que temos para nos dizer. Muitas 
vezes me lembrei de que esse sítio podia 
ser, até, um lugar sem nada de especial, 
como um canto de café, em frente de um espelho 
que poderia servir de pretexto 
para reflectir a alma, a impressão da tarde, 
o último estertor do dia antes de nos despedirmos, 
quando é preciso encontrar uma fórmula que 
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É 
que o amor nem sempre é uma palavra de uso, 
aquela que permite a passagem à comunicação ; 
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale, 
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós 
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio 
ser, como se uma troca de almas fosse possível 
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e 
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas 
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde, 
isto é, a porta tinha-se fechado até outro 
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então 
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem 
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar 
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos 
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que 
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por 
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia 
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores 
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos 
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que 
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí 
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas, 
que são as nossas: 
o verde das folhas e o amarelo 
das pétalas, 
o vermelho do sol e o branco dos muros. 



Nuno Júdice, in “Poesia Reunida” 

19 março 2014

Mais um dia dezoito acabou de acontecer ...



E cabe-me viver
não sabendo com que alfabeto traduzir-me
entristecendo a um canto de mim, mil vezes ao dia
... as entranhas calcinadas de saudade antiga
resistindo ao abismo do medo que atordoa
sob o jugo de um tempo cego, inverosímil
sorvendo silêncio e solidão onde me abrigue.

Ou, então, fixar-te, menino, por detrás das pálpebras
desistir de todos os desígnios
sentir na pele a água fria do mar
como quem navega
tu, sereno, mesmo ao lado
desertar de quem habito, de uma e da outra.

Tornar-me estranha de mim.
Numa névoa branca da memória.





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20 fevereiro 2014

Nós

Eu mais eu.
Se uma avança, logo a outra recua.
Se uma se prende, logo a outra se desprende.
Se uma se mostra, logo a outra se esconde.
O que uma fala a outra cala.
Assim vamos.
Irremediavelmente prisioneiras uma da outra.
Num corpo sem memória.
Dois corações invisíveis batem descompassadamente, doentes, desencontrados.



05 fevereiro 2014

As noites


 É à noite
Quando o silêncio da penumbra se instala
Que acordo do sono
Ainda não iniciado
E me levanto súbita
E me aproximo da janela
Para te ver, David meu.

(Aproximaste-te, agora mesmo
Para velar o meu adormecer.)

Ou ver se te vejo
Do peitoril da janela, aberto para a noite
Onde a iluminação distante das ruas frias
Onde gemidos abafados das gaivotas, regressadas do mar
Ou bátegas de chuva, fustigadas de sul
...
Um céu fechado de nuvens de água pesada

Mas de ti ... 
Nada
Apago a luz
Tu reaproximas-te, magicamente
Quando deslizo as pálpebras
Que encerram uma lágrima.













































:-/