12 outubro 2013

Um sábado no meio de Outubro




E o ciclo repete-se
Com a mesma nitidez a branco e preto
A mesma ausência de mim
Os mesmos estilhaços pontiagudos da dor
Como se hoje fora então
A mesma ansiedade
A angústia
O mesmo vómito de medo
Pânico

Uma ida à urgência
Mais uma
A última ... Sem sabermos.
O último sono em casa
A tua mão à procura da minha
Num aperto cúmplice
Um silêncio estranho
Desconhecido

Um quarto branco (chamado 24) acolheu-nos
Nós, teimosamente inseparáveis
Inflexíveis residentes na esperança
(Já do nada, sabia-o eu, ainda que não sabendo)

Cinco vezes o nascer do sol
Estupidamente quente e brilhante
Reflectido na brancura das paredes daquele quarto
Em penumbra
E tu a adormeceres, entre conversas doces e lentas
As minhas entranhas frias a escaldar
E tu, David, a serenares num sorriso ainda lúcido
No abraço da noite
A minha fingida serenidade a rasgar-me
A querer revelar-se em lágrimas
A vomitar sangue dentro de mim
Eu só nudez de dor vestida de saudade
de amor

Uma certa forma de ausência já
Abandonados um ao outro
Desgarrados 
Distantes da luz brilhante de Outubro

Saí eu, ao fim dos cinco sóis
Só eu
...
Que já não era eu
Uma outra, alguém diferente
Desconhecida de mim mesmo
Eu com ninguém dentro de mim

Como poderia sair eu
Se fiquei ... 
Onde não sei?



........

11 outubro 2013

Obrigada, Nuno




Um dia, há pouco menos de seis anos, logo a seguir ... , no meio do que ficou de ti, encontrámos a tua voz.

Gravações do teu programa " jazz faz tarde".
Infelizmente, poucas!

Desde então que, em alturas mais difíceis, te ouço, em silêncio ...

Das lágrimas que vou soltando, há sempre uma que te sorri.

Como o som do teu sorriso, percebido no prazer com que falavas de música.
A tua paixão imensa.

A tua voz é o que de mais vivo e presente ...ficou de ti!

Aqui fica, em mais um dia de Outubro.

Só pode ser bom ... Ouvir-te, David!
E que te ouçam.
Ainda hoje.
Mesmo depois ...




07 outubro 2013

Quando me falta alento



                       Segredos do oceano

Ouvi o vento
Observei a minha vida
Nascer para ser selvagem...
Era o que eu pensava
Mas quem falou comigo?
Que não vi
Dei-lhe um beijo
Talvez sinta a minha falta
Porque eu fugi
Por algum tempo
Em busca do meu dia
Esquecendo o meu lamento.

Porquê chorar? 
Porquê?
Não sei
E não quero saber!
E porquê chorar?

Os meus passos
A par do meu destino
Amarram os meus pensamentos,
De outro modo livres
Cheguei então ao meu destino
Onde  há mar
Corri pela praia
Parei quando encontrei
Um cavalo-marinho
Com quem falara na infância
Disse que a razão da minha raiva
Me empurra para a morte
Procurei o que todos procuram
A imortalidade

Que não existe!

Mas eu sei
Que o segredo da imortalidade
É saber partilhar
Com os deuses a maravilha da criação

E os cavalos-marinhos mergulharam
No oceano
E o silêncio chorou comigo

David Sobral (1995)



21 setembro 2013

As cordas do tempo


Cada dia, dos meus dias, é recortado minuciosamente (inconscientemente ... instintivamente ...!) 
em partes.
Manhã.
Tarde.
Noite.
Tempo de insónia.
As partes, vou-as repartindo em horas.
As horas, são minutos, são segundos.
Infinito puro, pesado, impaciente.
Tempo milimétrico, sem sentido - ponte de travessia para a manhã, a tarde, a noite, a insónia do dia seguinte. 
E nova ponte de travessia.

Fujo ao confronto com a evidente (para os outros) necessidade de coerência entre os estados de espírito em que me vou transformando.
Os meus eus, estilhaçados com x-ato, em recortes abruptos, imprecisos.
Sem ilusões.


Sem outras ilusões que não a saudade de ti, David, da tua brandura, da tua forma ironicamente simples de gostares de mim ... 
Sem outra ilusão que não a ponte suspensa no abismo, entre mim e a tua mão estendida.



16 agosto 2013

Obrigada, Nuno Meireles


   


Moledo
Dias de Agosto reinventados
Pela manhã
Empurrando a dor pelo monte acima
Qual Sísifo
Cada dia
E vai caindo
Resvalando pelo monte, abaixo
Cada noite
E eu
Empurrando sempre
Reinventando força
Colando sorrisos penosos
Por cima das pálpebras
Húmidas por baixo
Enquanto a lua não chega
O nó na garganta
Distendendo-se
Ao adormecer
















,linfa holmes
L,K