11 outubro 2013

Obrigada, Nuno




Um dia, há pouco menos de seis anos, logo a seguir ... , no meio do que ficou de ti, encontrámos a tua voz.

Gravações do teu programa " jazz faz tarde".
Infelizmente, poucas!

Desde então que, em alturas mais difíceis, te ouço, em silêncio ...

Das lágrimas que vou soltando, há sempre uma que te sorri.

Como o som do teu sorriso, percebido no prazer com que falavas de música.
A tua paixão imensa.

A tua voz é o que de mais vivo e presente ...ficou de ti!

Aqui fica, em mais um dia de Outubro.

Só pode ser bom ... Ouvir-te, David!
E que te ouçam.
Ainda hoje.
Mesmo depois ...




07 outubro 2013

Quando me falta alento



                       Segredos do oceano

Ouvi o vento
Observei a minha vida
Nascer para ser selvagem...
Era o que eu pensava
Mas quem falou comigo?
Que não vi
Dei-lhe um beijo
Talvez sinta a minha falta
Porque eu fugi
Por algum tempo
Em busca do meu dia
Esquecendo o meu lamento.

Porquê chorar? 
Porquê?
Não sei
E não quero saber!
E porquê chorar?

Os meus passos
A par do meu destino
Amarram os meus pensamentos,
De outro modo livres
Cheguei então ao meu destino
Onde  há mar
Corri pela praia
Parei quando encontrei
Um cavalo-marinho
Com quem falara na infância
Disse que a razão da minha raiva
Me empurra para a morte
Procurei o que todos procuram
A imortalidade

Que não existe!

Mas eu sei
Que o segredo da imortalidade
É saber partilhar
Com os deuses a maravilha da criação

E os cavalos-marinhos mergulharam
No oceano
E o silêncio chorou comigo

David Sobral (1995)



21 setembro 2013

As cordas do tempo


Cada dia, dos meus dias, é recortado minuciosamente (inconscientemente ... instintivamente ...!) 
em partes.
Manhã.
Tarde.
Noite.
Tempo de insónia.
As partes, vou-as repartindo em horas.
As horas, são minutos, são segundos.
Infinito puro, pesado, impaciente.
Tempo milimétrico, sem sentido - ponte de travessia para a manhã, a tarde, a noite, a insónia do dia seguinte. 
E nova ponte de travessia.

Fujo ao confronto com a evidente (para os outros) necessidade de coerência entre os estados de espírito em que me vou transformando.
Os meus eus, estilhaçados com x-ato, em recortes abruptos, imprecisos.
Sem ilusões.


Sem outras ilusões que não a saudade de ti, David, da tua brandura, da tua forma ironicamente simples de gostares de mim ... 
Sem outra ilusão que não a ponte suspensa no abismo, entre mim e a tua mão estendida.



16 agosto 2013

Obrigada, Nuno Meireles


   


Moledo
Dias de Agosto reinventados
Pela manhã
Empurrando a dor pelo monte acima
Qual Sísifo
Cada dia
E vai caindo
Resvalando pelo monte, abaixo
Cada noite
E eu
Empurrando sempre
Reinventando força
Colando sorrisos penosos
Por cima das pálpebras
Húmidas por baixo
Enquanto a lua não chega
O nó na garganta
Distendendo-se
Ao adormecer
















,linfa holmes
L,K

08 julho 2013

Serenity now!!!



Sou aranha envolta num labirinto de espaços e tempos e vidas.
Minhas, dos outros, intersectadas.
Todas distintas.
Vidas em tempos vividos.

Do presente, nada mais que uma estreita fresta.
Que me esmaga.
Outras vezes, me ilumina e retém presa aos olhos escuros e meigos dos meus netos.

Do futuro, nada! É uma parede em branco.

Nos meus dias labirintos de desencontros paralelos, cruzo caminhos de agora.
Inesperados, os antigos caminhos iluminam-se na esquina da vereda e, logo, as vidas e o último tempo certo.
Abandono o caminho que seguia e persigo a sombra do meu ser seguro ...
De olhos vendados, regresso sempre lá, onde me sentia gente!
Em sangue mas serena no guião da tragédia que me coube representar.
Regresso sem vacilar.
À tua forma assertiva de gostar de mim!
Apesar do depois.
E do acto falhado na personagem que escolhi representar na vida - ser mãe.
Aguardo junto à porta da dor que não atravessei.
Tenho medo de pisar o vulcão da intolerância, ingratidão, incompreensão.
Protejo-me das palavras flechas.

Continuarei por detrás da porta entreaberta.
É o meu esconderijo silencioso e calmo.
Onde me reencontro com a tua serenidade.
Ferida de saudade.
Onde choro e me sinto bem.
Onde engulo o ranho da culpa e da falta de coragem por não ter feito ... certas coisas ... de outra forma.
Indizíveis.
Onde o coração amedrontado se defende de fúrias e desamores latentes.
Vindos por altura do poente.

Recuo, assustada, no confronto com a agitação dos dias.
Sem força, dou um passo atrás e outro.
Está uma penumbra calma ...
...
Ah, se viesses e me puxasses pela mão!!


Sabes, David, nunca contei a ninguém.
Quando a avó se cansou, em Dezembro, eu disse-lhe, baixinho, ao ouvido, enquanto lhe fazia festas na cabeça "Mamã, dê a mão ao David! Está aí, vá com ele ..."