13 junho 2013

Sem título.

David, deixa-me chamar-te, assim, baixinho.
Só eu ouço ... mas que importa?

Por dentro de mim, vivo num castelo de luz que ergui para ti.
A chave? Guardo-a por detrás dos meus olhos; basta-me fechá-los.


Não faltam ameias para espreitar o sol deitar-se no mar, nem salas forradas de veludo para a tua guitarra, nem aquela cadeira verde, debaixo dos pinheiros, em que repousavas de dias cansados, nem o banquinho em que eu me sentava para te massajar os pés tão doloridos, nem o som do teu sorriso, nem a esperança de chegar a porto seguro, nem a força de lutar ... nem a cor da areia das ilhas de Creta-onde-havias-de-voltar-outra-e-outra-vez ... nem os teus filtros de luzes ... nem a música, a tua força dia a dia ...
"Hei-de fazer luzes tão bonitas, mamã!"

Só ali posso esperar o teu abraço terno da noite!
"Agora, vai descansar, mamã!"
Agora ... o vazio da ternura ...

Tenho saudades deste meu nome mamã, do som, do tom e do significado da palavra. Dito por ti, em forma de protesto ou ironia ou ternura ou impaciência ou simplesmente mamã ...

Deixa-me desabafar contigo, David,  só aqui, e confessar que me sinto só.
Um forma muito solitária e única de solidão!



24 abril 2013

Ao longe ... O som de abril




Será o som de foguetes, o som que ouço?
Ou o bater do coração, talvez mais forte ou desolado, hoje
Que sei ser o dia antes de um dia de sol
Do Abril em que vieste?
Mas não estás ...

O ribombar dos foguetes continua.
Têm a cor dos cravos vermelhos de um outro Abril.
Num palco que iluminaste, numa noite ...
Quase igual.
Num hino, muito teu, à Liberdade.

Os cravos.
Deixo-os, às vezes, outros, no areal, junto ao teu mar ...

Os foguetes!
O renovar do hino.
Quero mas não quero ouvir.
Tapo os ouvidos.
Apago a luz.

Não existir.

09 abril 2013

Abril





Não o sonho

Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

Manuel António Pina

04 abril 2013

O não vivido



O tempo apaga tudo
Menos esse longo indelével rasto
Que o não vivido deixa. 

Sophia de Mello Breyner Andresen





Como quem visita outros blogues
Assim eu, aqui, venho.

E saio.

Sem palavras que cheguem ... para o que tenho a dizer.
O que sinto.
Demasiado.

Então.

Há quem se lembre de mim.
E me socorra.
Como se percebesse a razão do meu silêncio.

Obrigada, Z.
É isto!
Que muitos não compreendem...
E eu não sei dizer.


30 março 2013

Não conheço outra forma ...


A propósito da minha forma
(Talvez estranha aos olhos dos outros)
De avançar nos dias
Indo uma (de mim)
A par da outra ...








"Num daqueles dias de Outono, em que nos queima a vermelha labareda das folhas, um amigo pediu que lhe contasse uma hostória. "Salva-me a vida, conta-me uma história." E eu recordei aquela mulher das Mil e uma noites, que encadeava, com doçura e desespero, uma história na outra, pois só a história infinita nos permite escapar à maldição da morte.
Um amigo é uma história que nos salva."

Mário Rui de Oliveira
O vento da noite