16 março 2013

Il faut savoir cacher ses larmes ...


"Isabel, que bem estás! E esse teu ar de menina, minha querida. Por ti o tempo não passa ... 57 anos e sem rugas ..."

E olho a que sobe comigo, no espelho do elevador.
Uma outra dentro de mim não reconhece o reflexo.
Sobreposição de imagens, com certeza!
Ter-nos-emos encontrado, porventura!
Algures!

Mas viro as costas ao espelho.
E então descubro!

Uma era irreal ... Efeito da luz
Coisas da Física!

Outra ... Esta é real ... Efeito da penumbra e da tristura
Coisas da imensa Saudade
Que perdura!






Il faut savoir encore sourire
Quand le meilleur s'est retiré
Et qu'il ne reste que le pire
Dans une vie bête à pleurer
Il faut savoir, coûte que coûte,
Garder toute sa dignité
Et, malgré ce qu'il nous en coûte,
S'en aller sans se retourner
Face au destin, qui nous désarme,
Et devant le bonher perdu,
Il faut savoir cacher ses larmes
Mais moi, mon coeur,je n'ai pas su
Il faut savoir quitter la table
Lorsque l'amour est desservi
Sans s'accrocher, l'air pitoyable,
Mais partir sans faire de bruit
Il faut savoir cacher sa peine
Sous le masque de tous les jours
Et retenir les cris de haine
Qui sont les derniers mots d'amour
Il faut savoir rester de glace
Et taire un coeur qui meurt déja
Il faut savoir garder la face
Mais moi je t'aime trop
Mais moi je ne peux pas
Il faut savoir
Mais moi je ne sais pas


07 março 2013

Coisas do teatro ...


De novo.
À roda dos papéis, dos dossiers, dos livros, das folhas soltas do David.
Um pouquinho mais a sensação de vazio e lá vou eu folhear tudo o que tem aquela letra esquerdina, um pouco torta, tão minha bem conhecida.
Tivera eu mais tempo para mergulhar nos papéis do meu filho!
São textos dos programas de Jazz Fazz Tarde, são críticas de análise teatral que escrevia para as aulas da Prof. Isabel Alves Costa, são crónicas do quotidiano da rua, dos shoppings, tudo o que via à volta. 
(Era um rapazinho espantosamente observador; tudo relatava depois de filtrado por um sentido de humor muito seu, muito único, muito próprio.)

E chego sempre à mesma triste, dolorosa sensação de perda irreversível.
O meu filho é uma contínua caixinha de surpresas.
Agora, ao rever os textos dele do programa de Jazz ... descubro que o reverso da folha de cada novo programa tem "críticas" de espectáculos de teatro que ele ia ver e que tinha de analisar, no âmbito dos estudos que fazia na ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo).
Escrevia no verso da folha ... para poupar papel ... lembro-me agora ... 
São antigos, claro ... Tão distantes!
Tão de quem está de bem com o que faz.
Deparei com este e cheguei a sorrir, David.
Há bocadinho, passada esta eternidade.


Análise Teatral - Sexo, drogas e rock & roll

"Hoje, domingo, fui à matiné do Teatro São João, assistir à peça acima anunciada com o actor Diogo Infante.
Depois de sair de casa à pressa, meti-me na VCI para ir, primeiro, buscar um amigo. Debaixo de chuva intensa, dou de caras com uma fila de carros enorme. Já estava atrasado. Eram os domingueiros, em fila de espera, para entrarem no parque de estacionamento do Arrábida Shopping.
No meio de tamanha confusão, fiquei tão irritado que proferi mais palavrões e insultos só ali, do que no resto da minha vida como condutor.
Terminado o meu monólogo ao volante e, já depois de ter ido buscar o meu amigo,chegámos ao teatro em cima da hora. Uma grande azáfama, pensei logo "Não há bilhetes!!"
Não fosse eu ter de interpretar mais uma vez o meu monólogo (desta vez, já com público), conseguimos sem problemas, os tão ansiados bilhetes.
Entre entra e sentar, não deixei de reparar no público que me rodeava - meninas, mulheres ... e mulheres mais velhas. Umas em grupos assumidamente femininos, outras com os seus respectivos ...
Reparei também nos temas que ali se discutiam e que roçavam assuntos bem opostos - ou o novo não-filme "Branca de Neve" ou o concurso "Big Brother".
Com o começar da peça, silêncio se fez, mas de imediato se quebrou com a música e com a voz do actor. O som estava muito alto e feria-me os ouvidos. Só desejava que a música acabasse rapidamente. Depois deste momento forte, Diogo Infante veste a pele de vários personagens tipo da sociedade moderna.
Os riso do público, ou deverei talvez escrever, pública, foram constantes, quer fosse devido ao texto, quer fosse devido às expressões faciais e corporais do actor. Alguns personagens são bem fieis à realidade.
Pensei até na minha figura de condutor ríspido e ordinário como possível personagem a figurar nesta peça.
Outros personagens tornam-se, após alguns minutos, numa "seca". Para usar uma expressão apropriada. As suas semelhanças com outros fá-los parecer não mais um, mas sim uma extensão de outro personagem.
Os risos, esses sim, vão-me saindo, ainda que discretos. Mas nunca como os do senhor, na cadeira ao meu lado, que, enquanto ria desinibidamente, batia com a mão na sua perna ... ainda mais desinibidamente. Não fosse o Diogo Infante dizer uma piada mesmo boa, despi i meu casaco e pousei-o em cima das minhas pernas. Como prevenção!
Para terminar, acrescento que, neste espectáculo, as pessoas vêm ver o actor.
Com grande discrição, mas sem perder qualidade, o desenho de luz, a cenografia e os outros elementos cénicos não perturbam nem ofuscam a performance do actor.
Regressei, sereno como o trânsito, desta vez. David Sobral"

http://www.tnsj.pt/2001/2000/programa/sexdrogas/index.htm








03 março 2013

Saudade dos sons

E quando as saudades sufocam ...
Procuro, nem eu sei o quê!
Palavras vãs ... estas
As minhas
Já vazias de qualquer sentido.

Ficam as tuas
Palavras ... só
A tua força
E o sentido de humor
Sempre
Tinhas 19 anos
E o mundo ali, ao alcance da tua mão estendida


"Olá, mais uma vez, temos um repetente no Jazz. Chama-se John Coltrane. Este senhor foi um excelente músico e nunca será esquecido.
Tanto no mundo do Jazz como fora dele, existem músicos de todas as idades e estilos que gostam do seu estilo.
Coltrane tinha uma grande devoção por Deus e dedicou muitos discos à sua fé.
Não é algo que me emocione pois cada um tem as fés que tem e as devoções que quiser. Não ter qualquer uma é que não me parece saudável!
Acho importante acreditarmos e termos fé, pelo menos, em nós próprios, no caso de não crermos em mais nada. Alimenta o ego!
Bom, isto já está a ficar parecido com a missa de domingo!
Vamos é ouvir a música de Coltrane.
Até amanhã e já sabem que ... Jazz Faz Tarde."

David Sobral













23 fevereiro 2013

Música





Moledo
E um doer de certa forma
Permanente

Moledo
E o som dos teus sons
Sons da minha saudade ... solidão
Sons do sorriso inscrito
No teu swing

Moledo
E o regresso à tua ausência
Mais crua 
Inscrita sempre
No silêncio das paredes brancas
No som cavo das ondas do mar 
Na inutilidade das lágrimas

Tecidas de tanto amar
E de amargura



25 janeiro 2013

Queria dizer



por outras palavras
no fundo
sempre as mesmas
e que os meus sentidos repetem aos meus ouvidos até
à exaustão 
à surdez total
...
em moto contínuo
como o sol sucede
à lua
...
queria dizer
que os dias passam
e a saudade permanece
aguda
dolorosa
dolorosamente silenciada
no fingir
...
queria dizer-te, David,
que as lágrimas
as minhas
se soltam, como antes,
a despropósito
por coisa nenhuma
(pensarão os outros)
ou porque chove
chovia quando te soube que doente
ou porque está um sol imenso
e
o brilho do sol
não se me entranha sem ti
tu gostavas do sol
da luminosidade dos dias
...
queria dizer-te, David,
por outras palavras
sempre as mesmas
afinal
que te procuro
nas memórias da avó
pedacinhos teus 

nas fotografias dispersas 
pelos móveis
nos álbuns antigos
tão folheados
...
pedacinhos 
um ombro que eu reconheço teu, por uma porta entreaberta
um certo inclinar de cabeça 
uma mão 
um gesto solto no ar
uma cabelo encaracolado, por detrás de um primo qualquer
a tua cabeça a sobressair acima da fotografia de grupo 
lá atrás
até o teu reflexo nos vidros do pátio
descobri
..................
ou um sorriso estranhamente triste nos olhos da avó
e eu sei o dia 
e o porquê
nesse março
suspenso no tempo
cravado na alegria de uma festa de família
(mero acaso)
...
vejo
revejo fotografias, 
ali sentada,  
no sítio onde a avó se sentava
...
a avó dizia que gostava de "conversar" contigo
ali
nas diversas fotografias
os interlocutores
os pais
as filhas
os netos
os queridos bisnetos
que se cruzarão
apenas
em recordações partilhadas
a partilhar talvez
...
e repito o olhar dela
percorro as fotografias 
uma a uma 
procuro a mesma força
...
estavas sempre ali
num lugar chamado coração de avó
que junta mãe e filho
num tempo 
...
queria dizer
afinal 
...





............