08 maio 2011

Mais sons do David...






Jimmy Garrison

            Na presente semana, o instrumento em destaque é o contrabaixo e teremos cinco contrabaixistas convidados.
              Hoje vamos falar de Jimmy Garrison que foi um dos baixistas mais evoluídos e musicalmente avançados dos anos sessenta.
Garrison será sempre recordado por ter tocado no famoso quarteto de John Coltrane que já foi referido várias vezes no jazz faz tarde.
Jimmy acompanhou Coltrane até à sua morte e mesmo depois continuou a tocar com Alice Coltrane, mulher de John e também com o baterista Elvin Jones.
Tocou bastante e fez bastantes progressos até que um cancro lhe finou a existência.
Deixo-vos agora com o Jimmy Garrison e até logo ... que jazz faz tarde.  




07 maio 2011




O Gato

Um gato, em casa sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel,
parece um objecto.

Fica assim para que o
invejem — indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem a eternidade.

Nuno Júdice



06 maio 2011

Valquíria, gata goordaaa!!

Tive uma gata chamada Valquíria!
Talvez ainda tenha, mas acho que já não ...
Já lhe devem ter dado aquela injecção que a liberta de dores.
Era uma gata grande, branca e preta, uma senhora dona gata. Tinha estilo no andar e fazia pose ao enroscar-se à volta, mais à volta ainda, da sua cauda, em cima de uma cadeira, aos nossos pés, no beiral do telhado.
Era a gata favorita do David! Chamava-lhe "gooorrdaaa!" e ela passava-lhe por entre as pernas, à espera de ser acariciada.

A Valquíria morreu.
Era, neste momento, a mais velha das três gatas que tinha. Tenho?
Antes dela, foi a Tosca ... também velhinha.

Hoje, quando me ligaram do veterinário, ouvi aquelas palavras que, ainda, ecoam nos meus ouvidos "ascite ... massa tumoral de grandes dimensões ..." e parecia-me, a certa altura, que me falavam do David e comecei a chorar ... do lado de cá.

Pude decidir o que pensei ser melhor para a Valquíria.
Tal como com a Tosca.
Uma injecção inofensiva, igual a outras tantas ...
Esta libertadora.
Esta ... libertador(a)!
Liberta dor (a).
(a) dor liberta.
Liberta (a) dor.
O mundo dos gatos, a sua vida, a sua morte são, provavelmente, mais humanos do que o mundo dos homens.
E lembrei-me de uma conversa triste e dolorosa que tive com o David.
Fui recolhê-la ao meu livro "Mamã, vamos dançar?"


Tive, hoje, a conversa mais longa, desgostosa e amarga com o David, desde que ficou doente. Fui ter com ele, ao apartamento, depois do almoço; estava sentado na cama, dobrado para a frente. Tinha dores. Outra vez, dores. Estas malditas dores! Aninhei-me ao pé dele e fui-lhe massajando as costas. Foi relaxando e encostou-se.
Enquanto lhe ia massajando os pés, foi-me dizendo que sempre tinha enfrentado tudo com optimismo e que aguentará tudo o que for preciso para ficar bem. Deixará tudo para se tratar. Mas ... dores, não! Não aguenta continuar a sentir-se incapacitado para o que quer que seja, com as dores que tem sentido.
Disse-me que se o tratamento (este ou outro) não resultar, em breve, e continuar a sentir as dores que tem sentido e que o impossibilitam de trabalhar, de viver ... desiste! Não vale a pena! “Lembras-te daquela reportagem que vimos, há uns anos, sobre uma clínica em Zurique, mamã ... Adormece-se com uma pastilhinha!?”
Vida sem qualidade e dores destas, não aguenta! E pediu-me ajuda! Expliquei, disse-lhe que tal não iria acontecer! Que as dores terão de passar! Mas sempre o ajudei, no que pude! Ai que dor e que vontade de gritar! Mas tenho a certeza que, exteriormente, me mantive calma!! Por um filho, faz-se tudo; finge-se tudo... Aprende-se a fingir completamente!
E pediu-me desculpa, se ... desistir. Eu não poderei pensar em mim! Ele não poderá pensar em mim, se isso acontecer!  E repetiu-me que, sem capacidade para trabalhar e realizar os sonhos que tem (incluindo constituir família e ser pai de dois ou três filhos), a vida não vale a pena. A vida, como ele a entende, ... com autonomia, com entusiasmo, até com sofrimento e luta, sim, mas só se houver esperança de melhores dias ... A não haver esperança, desiste de viver!
E que eu terei também de pensar só nele; que eu não mereço (já mo tinha dito em Junho), mas terei de o compreender, de o ajudar e perdoar por me abandonar. Não sabe viver desta forma; já aguentou muito e aguentará mais ainda ... Mas sem dores!
Fiquei, ali, deitada aos pés dele, a fazer-lhe festas ... E não falei. Dizer o quê? Limitei-me a acenar com a cabeça; num sinal de assentimento silencioso.
Sequei, por dentro. Não são precisas palavras.
O silêncio é, por vezes, ensurdecedor."





02 maio 2011

Utopias


Dizer o quê? Que nada esbate a tua luz, dentro de mim.
Sentir o quê? A saudade, a melancolia de todos os dias.
Pensar o quê? Que é e será sempre assim.
Que serei sempre duas que coabitam em mim.
A que regressou aos dias que se vão sucedendo no calendário da vida.
A outra, a que ficou vergada e cega de dor, 
num dia vermelho de Outubro.  
Sem que uma amordace a outra.
Porque é assim!
Sem ti. 
Que viverei cada hora como se tu tivesses ido, há pouco, 
há poucochinho.
Ainda duas mãos mornas.
A tua e a minha.



Luz

Há uma luz intermitente na esquina.
Prende os pássaros; suspende a gente.
A noite demora-se à sua volta. O rio
estagna, como se não houvesse corrente.

É por isso que gosto dos candeeiros de
luz apagada, os que não atraem insectos,
os que podem cair, que ninguém dá
por isso; e passo por eles, sem me deter.

Deixo para trás os que esperam que
a luz se acenda. Não me importo com os
pássaros mortos durante a espera.

É sem luz que podemos andar; é a
treva que nos empurra para a frente.
E chegarei ao fim da noite à luz do poente.

Nuno Júdice, O Breve Sentimento do Eterno

01 maio 2011

À minha mãe, mãe-avó, mãe-bisavó ...


É dia da mãe!
Dia de todas as mães-avós, todas as mães-bisavós ... mães-tetravós ... duas, três vezes mães, .. de filhos de filhos, de netos de avós, de filhos de netos.
Sempre mães!
.......
Mãe
Também dos que se foram ...
Num cada vez mais tímido e lento respirar
Num penoso largar de mãos
Sempre mães!
Com lágrimas de dor, embaciando os vidros das janelas
Quando procuram numa nuvem
Na parede branca da frente
Distinguir o sorriso do que partiu.


Sempre mães, em moto contínuo,
Dos filhos que são
E permanecerão
Porque é vindo da boca desses
que ganha sentido
ouvir
pronunciar a palavra
mãe.