21 setembro 2008

Ao David



Chegam mensagens.
Palavras de apoio.
Respostas aos poemas da tua juventude.
Sempre acreditaste na bondade das pessoas.



“David”

“David”

Hoje li um teu poema
Onde deixas quase certezas, quase dúvidas
Sobre a nossa condição humana
Sobre a nossa vulnerabilidade de vida
E dizes que somos todos cadáveres…
Eu acrescento
Somos todos cadáveres adiados…

Hoje, David,
Aí , nessa dimensão onde decerto te encontras,
Acredito
Que já encontraste respostas.
Já sabes que afinal somos sempre almas
Somos sempre espírito
E que o nosso corpo, esse sim
Apenas serve para alojar temporariamente
O que efectivamente é imortal:
- O Espírito|
Nascemos, vivemos, aprendemos como na escola
E, voltamos quando o tempo determinado cessou.
Regressamos mais esclarecidos
Mas para aprendermos mais. Cuidar de outros
Numa enorme roda de vida/morte até sermos dignos de permanecermos
Noutras dimensões,
E nos fundirmos num universo de grande Luz.
Acredito David, sem te ter conhecido nesta vida
Que és um espírito superior
Chamado para destino espiritualmente mais abrangente.
A tua família chora a tua ausência
Inconsolável!
Envia-lhes, se puderes, consolo,
Se isso não vai impedir o conhecimento,
O esclarecimento
A que só o sofrimento por vezes conduz.

Sou amiga da tua tia Nini,
Sou tua amiga.
Fica em Paz! Fica com a LUZ!


Hirondina Pinto Júdice

Passado




Tudo me parece um sonho, porque não regressas.
...
Mas olhos do meu neto sorriem.
E rendo-me ao sorriso dele.
Entre nós não há passado.
Aquele passado invisível, onde me detenho, cada dia.



Rubaiyat
"Ao gozo segue a dor e a dor a esta

Ora o vinho bebemos porque é festa
Ora o vinho bebemos porque há dor
Mas de um e de outro vinho nada resta!"


Fernando Pessoa


18 setembro 2008

11 meses, não mais...



Ainda é dia 18.
Não vim aqui todo o dia, embora o meu dia, de longe, tivesse decorrido aqui, abrindo portas, fechando janelas, correndo cortinas, desvendando cantinhos secretos.
Passeei-me, sonâmbula, pela escola.
Talvez, tenha, propositadamente, marcado várias tarefas, para hoje. Para não pensar, para não falar... ou falar demais.
Nada de muito cansativo.
No entanto, estou, aqui, relativamente exausta... relativamente adormecida para o que me rodeia...ausente...mas, completamente, desperta para cada segundo que vivi (como, já não sei!) no quase Outono que passou.
Não me tinha acontecido sentir-me como que violada como mãe; nem sei bem o que quererei dizer com isto...
Mas é esta a única forma, não pensada nem reflectida, de dizer como me sinto (talvez!)
Há uma dor lancinante que não dói e que não é a de Camões, porque a causa da dor "dele" existe.
Há um fogo que queima mas não arde porque é cinza.
Ainda é dia 18.
Há um ano, ... uma amiga diz-me que enviei um mail onde dizia “…acho que chegámos ao fim da linha". Para logo acrescentar “ A não ser que em Paris…”
Nada veio de Paris, além duma mentira piedosa que nos permitiu olharmos uns para os outros como se tivéssemos a eternidade pela frente.
Foi bom...
A luz de Paris e as luzes do David apagaram-se atrás da cortina que desceu sobre o palco.
O palco está vazio; fiquei eu, sentada, quieta, num cantinho.
Persigo uma certa luz; não quero perder-lhe o rasto.


Á(r)VO(re)

Escreve-lhe secando a seiva das raízes

Com lágrimas de sal

E sem juízes

Mantendo-se de pé

No imenso vale

É o que é

Árvore frondosa

Falda

Com sopé

-.-

Dedicado à avó Arminda

-.-

Jaime Latino Ferreira

Estoril, 18 de Setembro de 2008

17 setembro 2008

Outras despedidas...



Mensagem deixada pela avó, a 10 Outubro 2007

David
Foste o melhor e o maior neto do mundo. Nunca vou esquecer-te, meu querido e adorado David. Em todos os dias da minha vida, vou amar-te sempre mais e mais. Deixas-me uma imensa saudade e sinto-te em mim. Foste uma lição de vida. Foste generoso e bom. Sofreste com as injustiças do mundo. A todos te deste com amor e carinho.
Merecias mais, muito mais do que o nosso grande amor.
Obrigada, meu neto querido, pelo teu meigo e terno sorriso.
Obrigada pela doçura do teu olhar, do olhar desses teus "olhos claros, lindos e cheios de graça".
Obrigada, pela ternura que deixaste no meu coração.
Amo-te, amo-te e amar-te-ei eternamente.

"E eu que já penso na suavidade
Do tempo que não vai voltar
Que não vai passar
Olho o espaço (o mar) chorando de saudade
Dos teus olhos claros cheios de graça!..."

Um saudoso beijo e um carinho
da tua avó Arminda

16 setembro 2008

17...



Quase dia 18...
Novamente 18.
Sinto-me em contagem decrescente ou será crescente?
O vazio cresce mas, estranhamente, não está vazio.
Aumenta na proporção do espaço de que necessita para albergar a saudade, o que não sei dizer e o silêncio.
O silêncio também não é, verdadeiramente, silêncio; é a caixinha das lágrimas que não se vêem. É lá que as guardo...
De vez em quando, abro-a e esvazio-a até que seque, à luz da Lua e ao ritmo dos dias de calendários passados, onde, também, revivo passo a passo.
Não há retornos nesta estrada que percorri...



Arrastar-te

Queria

Pelos segredos das noites

Pela escuridão que tememos

Pelo vazio que não podemos suportar
Com o absurdo das nossas visões.
Estou alegremente condenado a ti.

Os homens são todos iguais,
Todos em busca do luxo e da fama.
Está tudo perdido,

Não há nada a fazer

A não ser

Arrastar-te

Arrastar-te alegremente.


Somos vulneráveis

Vivemos no arame

Todos bastante instáveis.


Vulnerabilidade é o nosso lamento.

A sorte está do nosso lado
,
Mas ninguém pode dizer “Não vou morrer amanhã”!

A estupidez deixa-me doente,

Estamos condenados à liberdade.

Somos um bando de cadáveres,

Não há Deus à espera p'ra t' escolher.


Gostava de ser como todos vós,

Ser indiferente!


Mas a minha vida é demasiado intensa


DAVID SOBRAL