18 Fevereiro 2012

E bastam uma palavras a negrito para que o meu coração bata mais forte.
E releio para ter a certeza de que li bem.
És tu, ainda ...
E a tua paixão pela música.
E a tua paixão pela luz no palco.
És tu.
E parece-me ouvir-te com aquele teu entusiasmo contagiante "Mamã, vamos com o Tributo ao Zeca, a Barcelona! Altamente, não é mamã?"


Assim começava.




www.auditori.cat
Para conmemorar el 25 aniversario de la muerte de José Zeca Afonso, L'Auditori ha programado dos concierto. En el primero, Steel Drumming toca José Afonso es el proyecto de un hombre de libertad.

15 Fevereiro 2012

Hoje não me apetece ficar calada!




8 horas
Análises no IPO. Rotina. Tanto quanto!
Pausa para um café.
Uma esquina ou um corredor, percorridos a dois.
Aquele desvio para a sala do PET, onde olharam para dentro de ti e viram.
Passagem pela farmácia do IPO para levantar mais pastilhas de Tamoxifeno.
A pastilha diária para cinco anos.
Tratamento de hormonoterapia.
Mas, hoje, que não. Que só se podiam levantar para um mês. 
Que, a partir do fim de fevereiro, ... será preciso passar a buscar receitas, na clínica da mama ... mas para serem compradas na farmácia.
Qualquer farmácia!
Grátis? Comparticipadas?
Não, a pagar ... ; desconhecem o preço.
E surge a pergunta óbvia de quem, ainda, sabe que existem outros, outros com quem partilhou longas esperas e de quem ouviu os lamentos
E quem não pode pagar?
Isso, não sabemos.
E os isentos, cuja isenção foi motivada pela doença oncológica para que se vem buscar tratamento?
Não sabemos; só que o IPO vai deixar de fornecer esta medicação.
(Então é assim? Abate como forma de terapia?)

Sinto as meninas atrapalhadas, sem respostas, por detrás do balcão!
Perguntei na clínica da mama e que sim, que são essas as orientações que têm. Que tem havido muitos, imensos protestos, que há gente a entrar em pânico. Dinheiro, onde?

Por que será que ando com a fria sensação de que quem nos governa gostaria que fôssemos todos loiros, altos, de olhos azuis?
Por que será que tenho a fria sensação de que os doentes, os sem abrigo, os idosos, ... os desempregados,  os que têm fome são realmente um peso incómodo ... a descartar.

Fico assustada, David.
E sei que me compreendes.
Imagino a tua revolta (desde menino) contra as desigualdades sociais.
Surreal! - dirias
Conhecemos tão de perto a fragilidade de estar dependente de um despacho administrativo que autorize o tratamento certo; aquele que permite reavivar a esperança!
Sabemos tão bem como é sentirmo-nos pequeninos e indefesos ...

É que tenho a receosa sensação de que, se adoecesses agora, não terias a assistência, o apoio, a dedicação que tiveste por parte dos teus médicos, das tuas carinhosas enfermeiras do hospital de dia.
Não por eles ... isso não.
Mas talvez ficasse caro!
(Loucuras de mãe!)

E isso assusta-me.
Como se tudo estivesse no princípio e não tivesse como garantia que terias o tratamento adequado.




11 Fevereiro 2012

Sons do David

Ao som dos teus sons, meu filho ...












Wayne Shorter

Na emissão anterior do jazz faz tarde omiti um facto importante; é que esta é a semana dedicada ao saxofone e o convidado de hoje é o saxofonista Wayne Shorter.
Wayne é uma figura famosa e conceituada da música, tanto como compositor e como instrumentista. 
Estudou com John Coltrane que foi uma enorme influência para ele mas cedo se demarcou do mestre devido à originalidade do seu som e do seu fraseado musical.
Shorter toca tenor e soprano e nos dois toca de modo diferente; sendo que, no tenor, o seu fraseado é mais complexo e, no soprano, é mais lírico e simples. 
Os seus temas são longos e complexos mas, ainda assim, alguns tornaram-se clássicos do jazz.
Para hoje fiz uma escolha que poderão achar que é controversa. O tema que vou mostrar não é de nenhum disco de Wayne Shorter mas sim da cantora Joni Mitchell com quem Shorter colabora frequentemente. 
É um tema bestial e acho que todos o merecem ouvir.

Até logo que...

David Sobral


04 Fevereiro 2012

Portas fechadas



O aquário de Bohm

Em alguum sítio onde és um só
como dois gémeos divididos
entre o nó da vida e o nó
da morte, um sonho dos sentidos;

em algum passado invivido,
em algum princípio, em algum modo
da memória ou do olvido,
em alguma estranheza, em algum sono;

ou em alguma espécie de saudade
física e inicial
de seres real,
pura exterioridade.

Manuel António Pina

21 Janeiro 2012

Con hielo!

"Anjos Perdidos em Terra Queimada", Mons Kallentoft, capítulo 16, a meio da página 130.
Gelo no café. Con hielo.
Uma e trinta, nos ponteiros do relógio.
Não leio mais. Fico ali, os olhos pregados naquelas duas palavras.
Vulgares, sob outros olhares.
As imagens do romance começam a diluir-se por entre páginas de uma outra vida. 
Real. Vivida.
Também um Verão quente, sufocante.
Mas é Barcelona que vejo ... não Linkoping, no centro da Suécia.
A figura imaginada do inspector esbate-se.

E surge nítida, ... a tua voz.
O teu corpo mais esguio.
O teu olhar mais ausente.
Estamos sentados à mesa de uma esplanada de um café egípcio.
Noite.
Calle Valencia.
Tão distantes de tudo. De todos.
Já de nós.

Con hielo, por favor! - pedes.

Para enfrentar o calor.
Manter vivo um certo estilo.
O teu estilo.
Para sufocar o lento amolecer do teu corpo ...

7 de Agosto
o anfiteatro do Teatre Grec ... 
(ainda vimos os teus olhos sorrirem) 
... tinham passado ...