28 agosto 2008

Por isso, este (des)Norte.


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Atravessei o Verão de olhos fechados.
Nem praia, nem mar, nem jardim me fizeram abri-los para o azul imenso ou para o verde do Minho.
Estão no mesmo lugar, bem os vejo; não os sinto.



Barcelona.jpg


Permaneci, de certa forma, ausente e distante, junto de um outro mar manso, debaixo de um outro céu, sufocante; onde nos sentíamos devorados pelas saudades de tudo isto que, agora, tenho.
Afinal, significa tão pouco, sem ti, meu rapazinho.
De que servem a encosta verde e as casas brancas onde o sol reflecte, quando se põe?
Que dizem as gaivotas quando voam, baixinho, sobre a areia, quando o céu se tinge de amarelo?
Era disto que tínhamos saudades…
Agora que o tempo falou mais alto, a verdade revelou-se, crua e certeira...
Afinal, era e é do reflexo da luz do monte e do azul do mar, nos teus olhos, que tenho saudades.
Saudades de ti e dos teus olhos e do que via, através deles também.
Sem eles sinto-me perdida, sem idade, sem certezas que me sirvam de âncora e me fazem falta.
Tenho saudades da certeza do teu carinho incondicional por mim.
Por isso, me dizias "Teria pena de morrer, mas só por ti, mamã! Porque não o mereces!"
Por isso, este (des)Norte.
Sinto-me exposta, frágil...com a idade indefinida do tempo que tudo arrasta e me arrastou.
E, no entanto, estou aqui, não estando por inteiro.
Até quando suportarei estas saudades imensas?
Sem fim…

26 agosto 2008



À delicada Filomena, queria dizer que, pelo menos até agora, publiquei todos os comentários que aqui são feitos.
Todos trazem a boa vontade de todos os que escrevem.
Todos trazem uma dose grande de solidariedade.
Respeito todos os que me escrevem, no blog ou directamente.

Se todos vemos tudo da mesma maneira? Não, não vemos.
E ainda bem.
Já todos perceberam que não acredito em vida depois da morte, que não acredito em Deus.
Deus tirou-me um filho?
Não, não tirou.
Seria demasiada maldade...
É apenas a vida.Tantas vezes, madrasta.

Tal como o David, acredito nos homens, na bondade e naquilo que cada um pode dar de si aos outros.
Pode ser a Fé que têm.
Sempre a aceitámos, eu e ele.
Por isso, Filomena, por que razão não publicaria o seu comentário. É a sua parte de sofrimento pela minha dor.

Quanto a deixar o David partir… deixei…deixei, sem pedir mais um bocadinho.
Fingi serenidade, quando confirmaram que eu sairia, desta vez sozinha, daquele quarto de hospital. O David ficaria ... mas eu fingia.
Deixei, sem um queixume visível, que lhe tirassem o soro, quando me explicaram que isso só lhe causaria desconforto.
Ouvi, sem um lamento visível, dizerem-me que o David iria entrar em coma.
Acatei, sem uma lágrima visível, quando me disseram, pela manhã do dia 18 de Outubro, que o David iria morrer naquele dia; que não faltava muito.
Continuei (tentei) a fazer o que sempre fizera, sem ansiedade visível - falar-lhe de música, de projectos, do regresso a casa; acariciar-lhe a mão; dar um beijo na testa.
Mesmo quando já estava em coma.

Todos (muito poucos) os que entraram naquele quarto de hospital, antes do David morrer e mesmo já em coma, foram proibidos de deitar uma lágrima, de pronunciar uma palavra menos alegre, de usar um tom de voz menos confiante.
Foi isso que impus aos outros e me impus, a mim própria.

Se custou?
Ainda, agora, não sei como fui capaz...
Mas um filho leva-nos ao limite das forças.
Queria deixá-lo ir, sereno, livre de continuar a sonhar com palcos e luzes e risos e música…com a mãe, sempre, a apoiá-lo.

Nunca, em dezoito meses de doença, o meu filho viu uma lágrima minha ou um ar desesperado.
Ele sabia o quanto eu sofreria.
Mas nunca desistimos e acreditávamos que tudo iria melhorar.
Dizia que eu era a mãe coragem, a rocha firme ao lado dele.
(Ele é que era a rocha, a coragem!)
Foi assim, até eu poder chorar.
Mas só depois de ele ter partido.
Acredite, Filomena, que o libertei.
E ele sabia que seria, assim, se tivesse que ser...
Tivemos conversas estranhas, penosas para mim. Em que só eu ouvia.

Às vezes, penso que se, por um misterioso acaso, ele andasse por aí, empoleirado numa nuvem e me visse, me sorriria, certamente.
Sei que teria orgulho em mim… porque saberia que eu estou a fazer o melhor que posso e sei.
Ainda me revejo, em tudo o que faço, nos olhos do meu filho, no seu ar de crítica ou de elogio.
E sinto que não o estou a defraudar.
Vou devagarinho.

Acredite, Filomena!
E obrigada.

Um abraço
Isabel

Uma mão aberta, outra fechada



Convencemo-nos de que a vida será melhor depois...

...depois de acabarmos os estudos, depois de arranjarmos trabalho, depois de casarmos, depois de termos um filho, depois de termos outro filho.
Então, sentimo-nos frustrados porque os nossos filhos ainda não são suficientemente crescidos e julgamos que seremos mais felizes quando crescerem e deixarem de ser crianças. Desesperamos, então, porque são adolescentes, instáveis, agressivos, tristes e fugidios.
Pensamos: «Seremos mais felizes quando esta fase acabar!»
E não desistimos de achar que tudo é imperfeito e decidimos que a nossa vida será, realmente, perfeita, quando estivermos profissionalmente estabilizados, quando tivermos um carro melhor, quando pudermos ir de férias sossegados, quando tivermos uma casinha no monte, quando nos reformarmos e pudermos passear, com os netos pela mão.
Mas a vida está cheia de reptos imprevistos, de rasteiras inesperadas.
Foge do nosso controlo, sempre.
Não há um “ser feliz depois”, nem uma via-verde para ...
A felicidade paga portagens: uma encosta que se sobe, a colina que se desce! E outra e mais outra...
Um dia, inesperadamente e por razões nunca imaginadas, descobrimos que mesmo as encostas mais íngremes, as que deixam os pés em sangue, nos podem trazer pedacinhos de felicidade.
E eu, lentamente, entre lágrimas que não se esgotam, sou forçada a procurar, entre os destroços da vida, os momentos bons que tive. E, apesar de tudo, aproveitei; já que os recordo com doçura e tão nitidamente!
Vou juntando esses pedacinhos ... mesmo os que tinha amarrotado, com raiva, e molhado, com outras lágrimas, e que, agora, aliso - para ver em que parte da minha existência encaixam.
Tudo aponta para que, no fim, o puzzle reconstituído me diga – “fui feliz”.
Exististe de forma tão intensa, para mim!
Como poderia eu não ter sido feliz?

Do nosso trajecto guardei tudo o que pude e mantenho, numa mão fechada.
Revivo os nossos dias, dia a dia, a cada dia que passa; como se percorresse o mesmo trajecto, agora, em sentido inverso. Procuro outros sinais perdidos no caminho: um olhar aqui, um sorriso ou um gesto meigo ali,...
E reconstruo a felicidade possível.

A outra mão continua aberta; vou guardar o que puder e conseguir.
A felicidade é um trajecto, nunca será um destino.

24 agosto 2008

Os segredos da saudade


A saudade reveste-se de segredos.
Esta saudade é a única de que se pode dizer que é permanentemente para sempre. Por isso, destroça e vai doendo de forma indefinível.
Dói e destroça, cá dentro, de forma invisível e calada, porque, assim, me impus.
É coisa minha.
Mas sinto-me perdida, quando páro para pensar.
Não sou aquilo para que vivi e tudo me parece estranho.
Esta que assim se vê, quem é?
Ela? Eu? Uma terceira pessoa que ainda não tem sentimento de si?

Procuro a exaustão possível - a que me adormeça, sem dor ou saudade, quando os movimentos se calam e as penumbras se instalam nos corredores da casa.

Colado a mim, transporto um medo sonâmbulo do futuro, braço longo de saudades que se estendem dum passado tristemente nítido, que se embebe no presente.
Movo-me nesta teia estranha e ameaçadora, misto de sinais, de sorrisos, de coragem quase exangue, de rostos e suores e, mesmo, de árvores tranquilas do jardim e parque de crisnças que avistávamos duma varanda catalã.
Estou lá, estando, aqui, tão longe - desdobrada.
Espero pela noite mais profunda.
E, só então, páro para pensar porque o tempo, à espreita, se impõe inadvertidamente – finalmente.
Entre a noite e o dia que amanhece, ninguém passa.
Além de nós.

22 agosto 2008

Duas casas


Renato Roque

Se a casa de férias está cheia (quase!)...
Se, finalmente, uma parte dos sonhos que se sonham para a vida se realiza, com a presença de uns olhinhos escuros...
Há uma outra parte, definitivamente, irrealizável...
Por isso, construí esta Casa para ti, onde venho, mesmo não vindo ...
Porque ela sou eu...
Porque a trago comigo, sem que a vejam...
Porque o peso das lágrimas, que não deito, se acumula... se não venho
E porque há, sempre, uma hora do dia em que as outras portas se fecham e estas se abrem para que, por elas, entre o pôr-do-sol ou a chuva ou o cheiro das algas ou o apito do comboio que passa, lá longe, ou um dos teus sons... ou o silêncio, apenas.

É para ti e para mim que falo - a vida, lá fora, tem de continuar.
Mas há outros - poetas - que nos ouvem sussurrar e nos dizem coisas bonitas.
Hoje, partilho-as.


"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca e que, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade."

in comentário de Sua irmã, de Carlos Drummond de Andrade


Querida Amiga,

Como Lhe escreveu minha mulher, a Isabel tem mais força do que nós todos juntos!

Como cita de Drummond de Andrade Sua irmã, nada arriscando e esquivando-nos ao amor e ao sofrimento, perdemos também a felicidade.

A felicidade, aliás, se é um estado de pureza virginal e imaculada, uma pulsão (!), não o é por ser alheada do risco e do sofrimento, da capacidade de amar ou de exposição, do testemunho das nossas próprias fragilidades ...

Será antes o que de puro, virginal e imaculado somos capazes de conservar e logo porque se ama e pesem embora ou por maioria de razão o risco e o sofrimento a que nos expomos!

Diz-se da prostituta que pesem embora todas as devassas a que é exposta e sujeita, conserva sempre em si um lugar intocável que não há humilhação capaz de lhe chegar ...

Quando Lhe enviei o último dos textos da trilogia, o Silêncio, pensei que com ele me iria progressivamente retirar da Sua dor que tanto tenho acompanhado, até por perceber no que já disse e escreveu, que tem a Sua dor, ela é Sua e tem, seguramente, o seu próprio processo de remissão, o seu tempo e o seu espaço também, que apenas a minha Amiga saberá como sarar, ou como com ela e para sempre, conviver!

Mas achei e pese embora me ir, progressivamente, silenciando, não que da Sua dor me afaste mas que me vá silenciando,é lá possível afastar-me de todo este Seu processo com o qual, convivendo, também aprendi Consigo (!), mas silenciando sim.

É que o silencio, se toda a musicalidade e a poética contém, simultaneamente dá espaço a elas e deixa, com outra oxigenação, respirar!

A minha Amiga sabe que nos tem por aqui, a minha mulher e a mim próprio e sempre disponíveis e mesmo se pelo silêncio Lhe responder, já que ele ... está cheio de tudo.

Um beijinho, Seu

Jaime Latino Ferreira