30 junho 2008

A casa dos sonhos




A pulsão que me traz aqui acorda comigo.
Às vezes, nem sei bem o que escrever. Saber, sei... mas pouco acrescentaria a tudo o que sinto.
A intensidade do que sinto aumenta, à medida do passar do tempo.
Ando devagar, com receeio de me perder.
Canso-me de vozes que me atordoam e olho sem perceber exactamente o significado do que vejo.
Por isso me quedo aqui, várias vezes ao dia. Este é o meu porto seguro, onde nada me é estranho, apesar de saber que nada do passado volta.
Encontro-me nas fotografias do David, nos sons dele e no que escrevia.
A vida, lá fora, é tão inesperada.
Aqui, existe um quarto chamado saudade, com o teu cheiro que persiste e é aqui que me resguardo.
Ainda não estou, inteira, pronta para o futuro.
E que medo tenho dele! Agora, sei (dolorosamente aprendido) que nada de muito bom o futuro pode trazer que não seja, mais dia menos dia, desfeito por uma rajada de vento agreste mais forte.
Fiquei assim, céptica e fechada neste casulo, onde construí o palco em que me movo e vivo.
Venho, de vez em quando, até à boca de cena...

Este é um dos textos do David que, hoje, voltei a ler, enquanto rabisco, com muita dificuldade, mais uma página do livro "Mamã, vamos dançar!"
Eu não falarei das facetas David. As minhas palavras dizem pouco... talvez as dele digam mais.
Preciso de tempo para as colocar aqui.




Autocarro de Sonhos
Todos os dias passava por ele. O autocarro 9 que tinha como destino Sonhos. A primeira vez que o vi, tinha eu uns singelos 10 aninhos, andava na quarta classe. Ainda me lembro, ia para a escola, como todos os dias, mas, nesse dia, tive que fazer um percurso diferente. Esse novo percurso fez com que eu me encontrasse com aquilo que viria a influenciar todo o meu percurso de vida. Aquilo que hoje sou devo-o em parte ao 9. A partir daquele dia passei a ir para a escola sempre por aquele caminho. Ao primeiro olhar, não acreditei mas, logo de seguida, vi que no letreiro do autocarro estava mesmo escrito “sonhos”. Todos os dias passava por ele; às vezes, até duas vezes no mesmo dia. Isto durou anos; mesmo quando eu já andava na faculdade, tentava passar pelo 9. Ainda hoje, o autocarro está na minha vida. No entanto, só fiz uma vez a viagem. Foi aos 18 anos, quando tirei o meu passe. Queria experimentar, assim como qualquer jovem quer experimentar um charro ou outra porcaria qualquer proibida; o desejo era o mesmo. Queria saber se algo poderia ocorrer numa viagem de um autocarro que tinha como destino uma localidade com um nome invulgar. Queria experimentar, porque sempre me deixei enlouquecer com os sonhos e com tudo o que eles representam. Queria viajar naquele autocarro, queria saber se, ao viajarmos nele, éramos mergulhados em sonhos inimagináveis, impossíveis, sonhos etéreos fora do contágio, da influência do real. A vida sóbria e real afecta os sonhos que todos temos; dá-lhes um toque mundano e banal. Eu não queria esses sonhos, esses podia eu ter à noite enquanto durmo, como todos. Não, eu queria outros sonhos, outras viagens. Nesse dia não tive aulas à tarde e podia muito bem ocupá-la como eu quisesse porque também não tinha de estudar. Era a altura perfeita para fazer a viagem do 9. Quando cheguei à paragem não tive de esperar, ele já vinha a caminho. Era previsível; eu já conhecia perfeitamente o horário do autocarro de sonhos. Estava extremamente nervoso, todos os meus movimentos eram percepcionados e sentidos; desde o subir para o autocarro até ao sentar num dos bancos. Vivi todo aquele momento, perfeitamente consciente e acordado. Cada segundo era precioso. Vivi aquela viagem com a mesma tensão que um condenado à pena capital vive os últimos momentos de vida. Durante toda a viagem estive sóbrio e não sonhei, penso eu. Ou então, sonhei exactamente comigo a fazer aquela mesma viagem de autocarro. Pensei nos sonhos e no sonhar, reflecti sobre tudo o que é onírico. Reflecti na necessidade de sonhar e largar, por momentos, a realidade que nos prende. Os sonhos são aquilo que nos torna únicos e individuais. Um sonho é composto não só de experiências reais desorganizadas como também de um toque pessoal da nossa inconsciência. E essa, é só nossa. Depois da viagem de ida e volta, cheguei à conclusão que para sonhar eu não precisava de nenhum autocarro, nem mesmo daquele. Percebi que para sonhar basta uma referência, algo que preencha a nossa vida. O 9 era apenas mais uma referência para sonhar como muitas outras coisas. Cada um de nós tem a sua referência, qualquer que seja, mas tem. Até pode ser a mesma para várias pessoas, porque o toque pessoal o permite. Quantas pessoas não haverá que viram o 9 passar pelas suas vidas? Devemos ter sempre uma referência. Não posso crer que haja alguém sem qualquer referência. Se houver, que viaje no 9. Para mim o 9 não foi só uma referência, foi uma influência avassaladora, um marco determinante, na minha vida. Graças a ele, hoje escrevo histórias, contos, experiências e, claro, sonhos. E tenho música dentro de mim. Costumo até dizer que sou um escritor de sonhos. Não seria nunca assim se não fosse o autocarro de sonhos.

David Sobral

Dezembro/1999

29 junho 2008



Sinto um sonambulismo e uma apatia estranhos.
Não reconheço a casa, nem os espaços em que habito.
Não tivémos tempo de criar rotinas ou raízes, aqui.
Não chegámos, sequer, a esvaziar os caixotes que trouxémos da casa antiga.
Ficaram encostados a um canto, na garagem.
Havia tempo.
..................
E tempo há; nós é que não.
E não me lembro do que se fazia nos meses de calor.
É o primeiro mês de Junho que passamos, aqui, sem ti.
Deste lado da secretária que era o teu, tento imitar-te os gestos, os olhares.
Crio as penumbras necessárias...ao resto da encenação.
Mas nada altera esta ausência de sentido que me aperta o coração





Mede com as mãos
o espaço
de uma vida.
Não sabe como se chamava,

quando viveu,
que idade tinha

quando amou pela primeira vez.

É pura matéria o que tem pela frente,
e o frio do osso entra por ela,
pedindo uma conclusão.

Mas
que pode ainda dizer?
Nenhuma certeza
nasce do pó;
e só um antigo
fogo
reveste de saudade
a penumbra
que a atormenta,

aquecendo-lhe o coração
onde pulsa o medo do mundo.

Nuno Júdice

Há um ano, mais uma vez, me disseram que não havia hipóteses, perante o PET que o David fizera.
Há um ano e mais uma vez, implorei que não fosse dito nada ao David, da forma como me fora dito a mim.
Pai e médico disseram-me que ele tinha que saber...
Saber que não havia esperança?
Mais uma vez, expliquei que não devia destruir-se, assim, o optimismo (ainda havia) de um rapazinho de 29 anos.
Esse rapazinho só tinha projectos e sonhos a que se agarrar. Não era casado, não tinha filhos, não tinha fortuna, não tinha burocracia a organizar... Vivia com a mãe.
E queria viver.
Tinha a música.
Tinha a luz.
Tinha espectáculos e palcos a iluminar
Nesse dia (hoje), fomos, mais uma vez, almoçar fora, no Golfe. Com relvado imenso à volta. Lá lhe disse as coisas, à minha maneira. Sempre com a boca seca, o coração a cavalgar e um sorriso, enquanto o olhava sem pestanejar.
O David confiava em mim; não queria saber mais nada.
Era altura de partir para o estrangeiro.
E fomos uma e outra e outra vez.
Não me arrependo de nada. Não me lembro de quase nada para além dele...
Tudo foi como tinha que ser para que o David mantivesse a esperança que nunca o abandonou.
Dizem-me que fui boa mãe!
E daí?
Continuo sentada ao lado desse rapazinho, a caminho doutra esperança, em cada avião que passa.




Não há lugar para mim
neste país de Inverno.
As mães cegaram em seus ventres
e cada homem abandona
a juventude na cidade ácida.

Tínhamos o movimento da Terra
e eu compreendia as coisas
como se absorve a luz com os olhos.
Existiam as tuas mãos.

Ana Marques Gastão

27 junho 2008



Foto de Cadaqués (Barcelona), muito apreciado pelo David.
Não chegou a voltar lá, como queria, em Agosto de 2007.

Estava cansado


E olho-me por cima do ombro…
Procuro-me no rasto que deixei e eis-me perdida num meandro de lugares distantes e difusos.
A estrada percorrida está pejada de destroços; de mim, de tempos antigos de menina, de sonhos que já não se concretizarão.
A vida é assim - refazer o presente com as sobras do passado.
Refazer?
E se não sobrou nada?
Tacteio numa promessa de paraíso perdido...



É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta
nem o fogo aceso,

nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer
o nosso rosto,

o nosso nome,
o som da nossa voz,
o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de actos,
a idéia de recompensa
e de glória.

O que é preciso é ser
como se já não fôssemos,

vigiados pelos próprios olhos,
severos connosco,
pois o resto não nos pertence.

Cecília Meireles

25 junho 2008

Estranhas coincidências...



Ao longo do dia, escrevo, mentalmente, milhentas páginas desta casa.
Hoje, passado exactamente um ano, regressei ao IPO. Estranhas coincidências...

Quase tudo são lembranças de ti.
Um CD do Fausto a cantar "A explicação das flores".
As eólicas que giram no cimo do monte em frente ao pátio do Perrinchão, onde te tiraram a última fotografia, que guardo só para mim.
A escultura em ferro do D. Quixote que temos à entrada de casa, sonhador e utópico como tu.
A luz entrando pelas frestas das folhas das árvores do lado poente.
Quando o sol se vai deitando.
O azul do mar calmo semelhante ao de Creta e de que falavas num texto que enviaste para o "Público" e que te valeu um primeiro prémio.
Muitos orégãos na salada.
Os "pirilampos" de leds no jardim e que começam a brilhar quando escurece.
A guitarra, pousada, ao fundo da sala.
Mais música do Zé Mário Branco em "Do que um homem é capaz" ou da Lhasa ou da Nouvelle Vague ou de Bebo & Cigala ...
A voz que me chega do CD do teu programa de rádio "Jazz Faz Tarde", onde é apresentada Elliane Elias, Duke Ellington ou Carlos Barreto ou "a portuguesa Jacinta"...

Eu sei lá... um infindar de pequeninas coisas, gestos, sons (invisíveis a outros olhos) que vejo, filtradas pela saudade, e que não chamo, mas que se impõem como flecha certeira.
Hoje, são umas imagens; amanhã, serão outras.
Foi tão grande a perda e tamanho o amor!
Teria que não viver, não olhar, não ouvir para que a saudade não me atordoasse.

Mesmo maltratada pela vida, vivo ... presa ao que ainda existe de bom, na minha vida.
Há outra forma?



Finalement, finalement
Il nous fallut bien du talent

Pour être vieux sans être adultes

Jacques Brel