21 janeiro 2012

Con hielo!

"Anjos Perdidos em Terra Queimada", Mons Kallentoft, capítulo 16, a meio da página 130.
Gelo no café. Con hielo.
Uma e trinta, nos ponteiros do relógio.
Não leio mais. Fico ali, os olhos pregados naquelas duas palavras.
Vulgares, sob outros olhares.
As imagens do romance começam a diluir-se por entre páginas de uma outra vida. 
Real. Vivida.
Também um Verão quente, sufocante.
Mas é Barcelona que vejo ... não Linkoping, no centro da Suécia.
A figura imaginada do inspector esbate-se.

E surge nítida, ... a tua voz.
O teu corpo mais esguio.
O teu olhar mais ausente.
Estamos sentados à mesa de uma esplanada de um café egípcio.
Noite.
Calle Valencia.
Tão distantes de tudo. De todos.
Já de nós.

Con hielo, por favor! - pedes.

Para enfrentar o calor.
Manter vivo um certo estilo.
O teu estilo.
Para sufocar o lento amolecer do teu corpo ...

7 de Agosto
o anfiteatro do Teatre Grec ... 
(ainda vimos os teus olhos sorrirem) 
... tinham passado ...




06 janeiro 2012

"... sou qualquer coisa de intermédio ..."





"O rosto mostrado pergunta dissimuladamente: Sabeis quem sou? , e não espera resposta, como não está a pensar em dá-la"

José Saramago, Cadernos de Lanzarote

29 dezembro 2011

2007 ... 2011

Entre o silêncio e o grito, como forma de controlar o desespero de te ver doente ...
Foi o silêncio.


Entre o silêncio e o grito, como forma de controlar a dor sufocante da tua ausência ...
É o silêncio.



19 dezembro 2011

Cesária Évora


18 dezembro ... embora sejam 19!
Que importa, se pela porta entreaberta da saudade, regressas, todos os dias?

Ou é a luz!
Ou um timbre mais swing na música!
Ou uma notícia que fala de palcos!
Ou o Monte de Santa Tecla, ao fundo!
Ou as eólicas que rodam ... rodam ... para lé do monte!
Ou o mar calmo!
Ou o pôr do sol, no horizonte cor de fogo!
Ou o mar agitado, cuspindo espuma branca!
Ou um genérico de um filme, onde os David saltam do écran para o meu colo!
Ou a Cesária Évora!

E vejo-te dançar ao som de mornas e coladeras ...






09 dezembro 2011

Wrong Side of the Road


Um amigo que morreu.
Como folha que se desprende e cai, sem voar, das árvores do outono.
Uma amiga que se despede de mim ... porque sabe que vai morrer.
Diz que não tarda.
E a saudade mais pesada de ti.
Mais dorida ainda.

A cabeça vazia de pensar, a latejar de impotência e nostalgia do passado ... desta dor, que procuro controlar.
Sei que sou capaz!
Porque sou duas.
Três.
Não tarda ... quase quatro!
E choro lágrimas que se misturam com a água com que molho os olhos. 
Porque sei que não regressas.
Nem hoje, nem no amanhã de cada dia.
Porque não sei o que se diz a alguém que se despede de nós e nos diz "Gostei de te ter como amiga! ..."
Mesmo assim, respondo.
Que não fale no passado! 
Ninguém aprendeu, ainda, a cavalgar a seta do tempo!
E que guarde, se puder, um sorriso para a mãe que eu sei, perdida, ao lado dela.
Como eu, perdida também, ao teu lado...
E tu ... "Mamã, vamos dançar?"

Dizem que é quase Natal e folheio a tua última prenda - Poemas para a minha mãe.