David num Carnaval - o mago
Tenho andado especialmente triste; uma tristeza mais pesada e teimosa do que a do costume.
É que o medo tem acordado colado a mim.
Os dias são sempre os mesmos outros dias, que passaram mas ficaram.
Permanecem num dia exacto, em Setembro.
Em que morri mais um pouco.
Em Setembro, a 11 de Setembro, mandaram-nos embora de Barcelona.
Nada a fazer.
E o pavor a não me deixar respirar e aquela lágrima a correr pela cara do meu filho.
E a lágrima a queimar-me, ainda hoje, o peito.
A mesma lágrima, agora, só minha.
E eu a encolher, a encolher; a não saber o que fazer.
A gritar cá dentro que não.
A certeza de que não parava ali.
A certeza de ir até ao fim do mundo, embora o fim do mundo estivesse logo ali..., ao virar duma folha de calendário, ... em Outubro.
Setembro trouxe Outubro.
Um Outubro de sol.
Um Outubro para últimas despedidas do mar de Moledo e da luz no monte, em frente ao pátio.
Um Outubro já de saudade.
Um Outubro de gestos lentos e sorriso lasso.
Um Outubro de carinhos e sorrisos cúmplices.
Um Outubro de força ainda, nas mãos entrelaçadas.
Um Outubro de dias claros mas de infinita penumbra pousada, pesada e profunda, no lugar do coração.
Estamos em Setembro.
E eu estou triste.
Mais triste.
E as lágrimas, que têm andado presas, soltaram-se quando li o que a Branca escreveu.
Que bem compreendo aquela avó que, antes de morrer, foi despedir-se do filho que já partira!
Que doçura e que saudade a acompanharam durante uma vida inteira e tão longa.
Eu percebo-a; eu sei que todos os filhos são filhos únicos.
Sejam dois, sejam dez.
Por um estranho e inexplicável processo químico, o coração é inteiro de cada filho, mesmo quando inteiramente esvaziado quando um filho se nos solta assim.
Para lá da distância de uma carícia na cara.
E, no entanto, mesmo vazio, continua inteiramente cheio e dedicado a cada filho, a cada neto vindo ou a vir, a cada Manel, apesar do peso imenso da perda.
O coração transmuta-se, não a cada dia, mas a cada hora, cada momento do dia, conforme o peso da saudade ou da força do amor.
É uma estranha forma de vida...

Obrigada, avó da Branca.






