13 agosto 2008

Cruzo os braços




Vivo em mundos paralelos; acho que será sempre assim.

A claridade do dia obriga-me a viver de acordo com a vida. De acordo com a minha nova responsabilidade de me tornar uma boa avó e continuar a ser mãe.

O anoitecer e a madrugada trazem-me o David e destapam a saudade e as imagens que, ainda, não são alegres nem serenas.
Sinto-me perdida nos corredores da noite.
As imagens que se fixaram são, em tudo, ainda, o oposto do meu rapazinho que era alegre, dinâmico, meigo e inconformado.
Ainda o vejo, nitidamente, naquele quarto nº24, já frágil e desprotegido, completamente dependente de mim e dos cuidados das enfermeiras.
E com um sorriso ténue e sempre as mãos doces, prontas para uma carícia; talvez já não completamente consciente de que o era...
Estava na natureza dele, essa meiguice com a mãe, aprofundada por 18 meses de cumplicidade, luta e força de viver.
Ainda o vejo, nitidamente, em Barcelona.
Ao acordar, penso "Hoje, é dia...; no ano passado..."

A 13 de Agosto de 2007, em Barcelona...
Depois de imensos exames, quase diários desde que ali chegámos, primeiro tratamento, às 10:30.
Fomos os três. Íamos sempre os "três mosqueteiros", como o David gostava de nos designar.
Eu estive, quase sempre na sala onde o David esteve a fazer os "anti-corpos". O Manel, sempre cá fora, à espera. Discreto.
Entrava, de vez em quando, para ver se estávamos bem e saber se eu não quereria ir comer qualquer coisa ou se era preciso ir buscar algum sumo ou alguma "orchata" ao David.
As enfermeiras Sónia e Núria, muito simpáticas e delicadas com o David. Eram muito jovens; sobretudo a Núria que achava piada às piadas do David, que nunca perdeu o sentido de humor e brincava com tudo o que tinham que lhe fazer.
E eu sei o quanto lhe custava picarem-lhe a veia; ainda não colocara o novo cateter.
Ainda estava muito dorido da biópsia... E sem dormir, devido a dores musculares!
Mesmo, assim, brincava com as enfermeiras.
Eu fazia-lhes écharpes. As lãs e as agulhas sempre me acompanharam, desde o início da doença do David e a toda a gente oferecia cachecóis e écharpes.
As enfermeiras, tanto cá como lá, sempre foram excepcionalmente ternurentas com ele.
Era um rapaz bonito, de olhos verdes e com um humor cativante. Como poderiam não se "apaixonar" por ele?
Ainda, agora, quando o meu neto nasceu e o fui ver, aproveitei para fazer uma visita ao hospital de dia, onde fse azia a quimioterapia, e dar um abraço sincero às enfermeiras que tanto se dedicaram ao meu rapazinho.
Não o esqueceram... e eu não quero que o esqueçam.
Não vou deixar.

As coisas de que uma mãe se recorda, quando cruza os braços e o pensamento invade o dia.



MÃE

Generosidade é ser mãe
É ser o que está para vir
Como a minha Amiga tem
Todo o lugar para ouvir

Todo o lugar para cingir
O Mundo todo que vem
Pois se já sabe acudir
Tem todo o espaço refém

Sofrer é sempre ser mãe
É não saber por onde ir
É ter a coragem de quem

Mesmo ao vê-Lo partir

Mais sabe por ter alguém
Que por A querer sabe rir

Jaime Latino Ferreira

10 agosto 2008

E, no entanto,...


ODETE LOUREIRO

Percebo a duplicidade que existe em cada um.
E não é necessário fingir...
Basta recuar e avançar no tempo.

10.Agosto.07
Foi o início da queda, do desconforto da saudade, do não saber o que fazer, de correr sem pensar, de sentir ... sem tempo para refelectir.
Acordámos, em Barcelona, às cinco da manhã. Às 7h tínhamos que estar no Hospital Bellvitge, distante do centro. Foi preciso chamar um táxi para as 5h da manhã, na véspera, para termos a certeza de chegar a horas.
O PET, sabíamos que não era doloroso. Um relaxamento muscular e sensação de sono... Íamos descontraídos.
O que nos causava alguma ansiedade era a biópsia ao fígado, mais tarde, por volta das 13h, no hospital onde decorreriam os tratamentos e que já conhecíamos.
E foi assustador...traumatizante. Muito doloroso.
O David não estava, psicologicamente, preparado para aquelas dores!
E raramente se queixava! O meu rapazinho dizia sempre que estava bem.
Saiu do bloco triste, derrotado, de lágrimas nos olhos que imploravam ajuda, revoltado porque lhe tinham mentido; porque lhe tinham dito que não custava.
As dores nunca mais o abandonaram e a essas dores juntou-se o medo da nova biópsia que sabíamos que teria que fazer, passados 15 dias.
Que desespero! Que impotência a nossa, minha e do Manel, por nada podermos fazer.
Ainda, agora, neste momento, os sinto.
Que frágil somos perante as dores de um filho!
Ficam-nos marcadas na carne, na memória e nada apaga essas imagens de mãos vazias e agrilhoadas.
E ... não mais vontade de ver espectáculos.
E... não mais vontade de comprar guitarra.
E...não mais vontade de sair.
E...não mais vontade!
Apenas dormir, esquecer as dores, não pensar nas que, ainda, viriam.
Perderam-se no tempo, os gestos familiares
Ficaram como que adormecidos. Nada os recolhe. Nada os recupera.
.....................

Agora, há certos momentos nocturnos do dia, em que o meu falar está vazio de sentido, embora me ouçam e eu fale e me continuem a ouvir e eu responda…
Estamos todos juntos, próximos, frente a frente, e, no entanto incomunicáveis, como a imagem e o seu reflexo num espelho, onde a vida corre, mas a imagem reflectida se mantém fixa.
...........................

E, no entanto, tudo se concilia.
Porque há um choro de bebé que sossega no meu ombro, um olhar meigo e diferente duma jovem mãe e um pai/filho mais terno, tolerante e protector (também da sua mãe).
Confuso? Não.
Tudo bem nítido.
Nada apaga a dor nem a saudade do "menino da sua mãe".
Sei que sabia que o protegia. Sei que sabe que estou onde ele está e ele está onde estou, como uma segunda pele colada ao corpo (meu ou dele...não sei!).
E nada perturba o prazer de sentir um bebé que se entrega confiante e adormece.

...............................



E ao anoitecer

e ao anoitecer
adquires nome de ilha
ou de vulcão

deixas viver sobre a pele
uma criança de lume

e na fria lava da noite
ensinas ao corpo

a paciência o amor o abandono das palavras o silêncio
e a difícil arte
da melancolia


Al Berto

08 agosto 2008


David, filhote

Nasceu, hoje, um rapazinho. Chama-se Miguel.
É o meu neto, o teu tão desejado sobrinho.
Sei que serias o tio mais entusiasta e mais carinhoso do mundo.
Nem sempre os caminhos se bifurcam, ... E muito se perde, porque tu e ele jamais se juntarão.
Mas o teu caminho e o dele vão cruzar-se e entrecuzar-se dentro de mim, sempre.
O coração é uma casa espaçosa, imensa e onde nada se sobrepõe. Há espaços privados.
Tu tens, aqui, o teu lugar que é e será teu pela ordem natural das coisas do Amor duma Mãe dorida.
Tu me darás a serenidade necessária para olhar este novo rapazinho, porque sei que me olhas lá desse teu espaço etéreo, luminoso e musical e me sorris.
Tu me darás a força que eu sentia quando me apertavas a mão, como quem dizia "Mamã, vai correr tudo bem!"
Hoje, estou confusa.
Hoje, estou feliz.
Hoje, apertei o meu filho Sérgio, com força porque quero que tenha uma vida longa e seja um pai bom, tolerante e feliz.
Hoje, ofereci à Carla, uma medalhinha que diz "MAMA, forever!", igual à que trago ao pescoço.
Hoje, escrevo-te...porque o teu lugar continua. Aqui.
Dói? Claro que dói.
Dói muito esta lonjura que te afastou de mim.
Tal como sempre tive um sorriso de mãe para ti, o sorriso de avó já desabrocha e sorrirei ao Miguel, também, por ti.



Grande amor
Um dia vou gritar
Fazer-me ouvir

Para que todos me olhem

Com olhos de olhar

Vou dizer bem alto

O quanto te amo

E o quanto me encanto

De tanto te amar

E depois de gritar

Vou pular e saltar

Não mais calar

Sem nunca cessar

Este grande amor

Que eu te quero dar


David Sobral

05 agosto 2008




No fundo, tal como sempre disse, é, sobretudo para mim que escrevo e continuarei a escrever...porque há coisas que não dependem de respostas, embora as do Jaime me tenham sido sempre interessantes e me tivessem obrigado a pensar, às vezes, de outra forma.
Mas a saudade não tem data marcada, nem a dor se repete, já que, cada dia, outros pormenores me visitam e sinto as coisas de forma diferente.
Desisti dos cadernos onde escrevia há mais de dois anos. Corriam o risco de se perderem todas as recordações registadas...
Aqui! Permanecem.

Muito obrigada ao Jaime e Manuela.

Hoje, fui à praia.
Com os mesmos amigos, sempre e cada vez mais amigos, porque partilhamos as tristezas e alegrias com que nos vamos defrontando, ao longo dos anos.
As mesmas barracas em fila; as crianças diferentes (mas ainda assim as mesmas), a brincarem nas pocinhas de água; as algas a pintarem a areia de verde; a mesma Nortada (hoje ligeira)... a mesma rocha que viu os meus filhos brincar; a mesma rocha que acolheu o David como última morada...
Sinto-o mais aqui.
Ou me calo mais ou falo demasiado, até a boca me secar...
Tenho tantos e tão bons amigos! Ouvem-me, sem desviarem a conversa, na tentativa de me distraírem.
Sabem que preciso de abrir a caixinha de recordações e relatar este ou aquele episódio, triste ou menos triste, como se de um álbum fotográfico se tratasse.
É só disso que preciso; que os meus bons amigos que adoravam o David me deixem falar.
Nem que não ouçam!

Há um ano, Moledo ficaria para trás, estávamos a aterrar em Barcelona.
Levávamos malas e mais malas, música, livros, portáteis e fúria de viver e desespero escondido indizível. Amordaçado, porque o desespero por um filho doente não pode andar à solta.
À saída do aeroporto, tínhamos à nossa espera uma amiga do David, cantora lírica - Maria Hinojosa. Até ali tinha amigos, prontos a ajudar.
Tinham insistido em nos levar aos apartamentos que alugáramos na Calle Valencia.
Nada os demovera e lá estavam, Maria e o pai, dois catalães simpáticos e afáveis.
O David deixara para trás as relações conturbadas com o pai e prima. Já não pensava nisso. Decidira só pensar na cura prometida pela nova droga.
A conversa com a Maria andava à volta dos espectáculos que iriam ver em Barcelona, da praia que iriam fazer, das casas de tapas mais famosas, das visitas por lojas de guitarras, dos contactos para a nova empresa do David.
Tudo era entusiasmo e força de viver.
Eu e o Manel seguíamos atrás, com as inúmeras malas. A leveza do David tornava-nos as malas leves.
Ninguém diria, ao ver-nos, que aquele rapazinho alegre e descontraído se preparava para enfrentar mais uma luta desigual.
Apesar do "bom ar", ia frágil, ia cansado de longos combates.
Não imaginávamos o inferno que nos esperava, apesar das boas expectativas ...
E, agora, aqui, sinto que continuo também lá.
Não o posso evitar.
Este é o regresso a Moledo sem o David, sem as guitarras, sem a música que sempre havia, sem as sandes minimalistas que ele fazia ao almoço, sem a bicicleta encostada ao muro.
A sombra onde estacionava o carro está vazia, a bicicleta está guardada.
Eu estou aqui e estou lá.
Dispersa por aí.


Querida família,

No me lo puedo creer, estoy muy emocionada, mucho, no puedo creerlo, jamás vi tan seguro a nadie de si mismo, confié en él tanto como él lo hacía en sí mismo, estoy muy conmocionada.
No sabía nada.

Te agradezco infinitamente que me lo hayas comunicado y en un mail tan hermoso. Quiero mucho a tu hijo David, mucho, y me siento muy triste.
Espero que hayá donde esté siga haciéndonos tan felices como lo hizo aquí. Espero que él también lo será.
Isabel, quiero deciros a ti y a tu família que si necesitais cualquier cosa me teneis aquí a mi y a mi família. Siempre que lo necesiteis.
Quería felicitaros por vuestro tesón y compañía hasta el final. Por no dejar de ser vosotros y acompañar a David en todo lo que él necesitaba.
Sois una gran família.
No tengo palabras para expresar lo que siento.
Gracias por todo David, gracias Isabel y gracias a tu marido.
Le dije a tu hijo en un mail que el 1, 2 y 3 de febrero voy a cantar a Lisboa, si estuvierais cerca me gustaría invitaros, así podemos estar un rato juntos, aunque ahora sé que es muy temprano y no es momento quizá solo quería que lo supierais. Un abrazo infinito, como todos

María Hinojosa Montenegro

04 agosto 2008

Estou menos...

Esta casa nunca tem a porta cerrada e as janelas estão abertas para o sol, que a inunda de luz, e para os verdes do monte.
Esta casa não está fechada; mesmo não estando eu à porta, há sempre uma fresta entreaberta que aguarda, diariamente, o momento em que vens.
Aguardo, pacientemente, o momento de me despojar de "máscaras" e encostar os ombros à secretária e olhar para dentro de mim.
E vou vendo, como se de fora estivesse e me olhasse e a tudo o que me cerca.
As coisas, os espaços, as casas, o céu, o monte ou o mar continuam por aqui. Mas tudo é sempre, só e apenas, o que pensamos e sentimos que é.
O meu jardim ... olho-o daqui, mas não é o meu antigo jardim, embora seja o mesmo...
Nem as paredes completamente brancas da casa têm a mesma brancura repousante, de antes.
Tudo perdeu um pouco o significado que tinha. Apenas porque eu lho atribuía.
As minhas árvores são as mesmas árvores; mas não são as minhas árvores.
Sentia-as, confiando que as minhas árvores dariam fruto para além de mim; certa de que eu permaneceria também em ti.
E é talvez certo que, ainda assim, vou permanecer...
Mas já não da mesma forma.
Eu sou apenas aquilo que os outros pensam que sou e o que vêem em mim.
E cada um vê apenas o que vê e eu revejo-me no que cada um vê em mim.
Somos feitos de pequenas parcelas de representação de nós próprios nos outros.
Foi-me amputada a parte de mim que vias em mim.
Por isso, também Moledo e a brancura das minhas paredes perderam uma parte do seu fulgor.
Porque já não existe a parte de mim que tudo sentia dessa forma tão completamente fulgurante.
A parte de mim que tu vias em mim não regressa, levaste-a contigo.
Juntamente com a luminosidade de Moledo que aprendi a ver contigo.
Não estou melhor nem pior...estou menos...

Amanhã, tu, eu e o Manel partíamos para Barcelona. Com esperança redobrada...