
Vivo em mundos paralelos; acho que será sempre assim.
A claridade do dia obriga-me a viver de acordo com a vida. De acordo com a minha nova responsabilidade de me tornar uma boa avó e continuar a ser mãe.
O anoitecer e a madrugada trazem-me o David e destapam a saudade e as imagens que, ainda, não são alegres nem serenas.
Sinto-me perdida nos corredores da noite.
As imagens que se fixaram são, em tudo, ainda, o oposto do meu rapazinho que era alegre, dinâmico, meigo e inconformado.
Ainda o vejo, nitidamente, naquele quarto nº24, já frágil e desprotegido, completamente dependente de mim e dos cuidados das enfermeiras.
E com um sorriso ténue e sempre as mãos doces, prontas para uma carícia; talvez já não completamente consciente de que o era...
Estava na natureza dele, essa meiguice com a mãe, aprofundada por 18 meses de cumplicidade, luta e força de viver.
Ainda o vejo, nitidamente, em Barcelona.
Ao acordar, penso "Hoje, é dia...; no ano passado..."
A 13 de Agosto de 2007, em Barcelona...
Depois de imensos exames, quase diários desde que ali chegámos, primeiro tratamento, às 10:30.
Fomos os três. Íamos sempre os "três mosqueteiros", como o David gostava de nos designar.
Eu estive, quase sempre na sala onde o David esteve a fazer os "anti-corpos". O Manel, sempre cá fora, à espera. Discreto.
Entrava, de vez em quando, para ver se estávamos bem e saber se eu não quereria ir comer qualquer coisa ou se era preciso ir buscar algum sumo ou alguma "orchata" ao David.
As enfermeiras Sónia e Núria, muito simpáticas e delicadas com o David. Eram muito jovens; sobretudo a Núria que achava piada às piadas do David, que nunca perdeu o sentido de humor e brincava com tudo o que tinham que lhe fazer.
E eu sei o quanto lhe custava picarem-lhe a veia; ainda não colocara o novo cateter.
Ainda estava muito dorido da biópsia... E sem dormir, devido a dores musculares!
Mesmo, assim, brincava com as enfermeiras.
Eu fazia-lhes écharpes. As lãs e as agulhas sempre me acompanharam, desde o início da doença do David e a toda a gente oferecia cachecóis e écharpes.
As enfermeiras, tanto cá como lá, sempre foram excepcionalmente ternurentas com ele.
Era um rapaz bonito, de olhos verdes e com um humor cativante. Como poderiam não se "apaixonar" por ele?
Ainda, agora, quando o meu neto nasceu e o fui ver, aproveitei para fazer uma visita ao hospital de dia, onde fse azia a quimioterapia, e dar um abraço sincero às enfermeiras que tanto se dedicaram ao meu rapazinho.
Não o esqueceram... e eu não quero que o esqueçam.
Não vou deixar.
As coisas de que uma mãe se recorda, quando cruza os braços e o pensamento invade o dia.
MÃE
Generosidade é ser mãe
É ser o que está para vir
Como a minha Amiga tem
Todo o lugar para ouvir
Todo o lugar para cingir
O Mundo todo que vem
Pois se já sabe acudir
Tem todo o espaço refém
Sofrer é sempre ser mãe
É não saber por onde ir
É ter a coragem de quem
Mesmo ao vê-Lo partir
Mais sabe por ter alguém
Que por A querer sabe rir
Jaime Latino Ferreira






