12 agosto 2017

Não, em Agosto, não me peçam que não chore!!


                                               Barcelona, 2007

10 Agosto 07

São 7 horas da manhã; estamos no Hospital Bellvitge, muito distante do centro de Barcelona. Acordámos cedo, às 5.30h, para chamar um táxi.
Deixei, agora, o David lá dentro, deitado numa marquesa, próximo da sala onde vai fazer o PET. Ficou meio adormecido, por causa do relaxante muscular muito forte que lhe injectaram. Estamos na sala de espera; o Manel ocupa o espírito com as suas intermináveis paciências, no Palm; eu faço malha.
O PET não é um exame doloroso. Dão uma injecção para relaxar os músculos e depois um técnico activa uma “maquineta” sofisticada que olha para dentro de todo o corpo. Causa apreensão e muita ansiedade, não saber o que se passará lá dentro. Eu fico mortificada com estes pensamentos que me assaltam, constantemente. O David parece aceitar estes exames com alguma descontracção e optimismo. Aproveita para dormir, já que fica completamente relaxado.

Mal terminou o PET, chamaram-nos um táxi e dirigimo-nos ao Vall d’Hebron, onde o David iria fazer as primeiras biópsias.
Não estávamos preparados para o que se passou a seguir.
No hospital, estava o X. à nossa espera com duas técnicas que lhe fizeram a biópsia à pele e que o David disse não ter custado. Depois, em passo acelerado e com o David ainda muito sonolento por causa do PET, fomos para o bloco operatório, onde lhe fariam a biópsia ao fígado.
E foi horrível, horrível e pavoroso! Foi tremendamente doloroso! O David não estava psicologicamente preparado para tanta dor. Tinham-nos dito que lhe davam uma anestesia local e que não custava muito. Mas a anestesia local é uma treta; tudo uma
aldrabice; o fígado é um órgão grande e está profundo... Dói mesmo! Dói muito!
Vimo-lo sair de lágrimas nos olhos, muitas lágrimas,... tantas lágrimas! Oh, meu filho! Muito triste, sombrio, em estado de choque, muito revoltado, a queixar-se do sofrimento... que tinha sido medonho. E ele que tão raramente se queixou, até hoje. Deve ter magoado tanto, tanto, meu filho! Como pode ser permissível? Deve ter sido um inferno, meu pobre David.
Não é possível, assim! Eu não posso fazer nada por ele, sinto- -me destroçada; impotente e revoltada também. Como não é possível sedar o doente para uma biópsia tão agressiva? Não compreendo.
Mas tenho de ser forte, não posso exteriorizar o que sinto; é ele que tem direito a desabafar, a chorar de sofrimento, a revoltar-se contra a dor, contra a doença. Sentámo-nos ao lado dele, dei-lhe a mão, a tentar acalmá-lo. Juntaram-se-nos as duas técnicas patologistas que levavam, numa “caixinha térmica”, os tecidos da biópsia. Também elas faziam festas na cabeça do David e nos diziam, com os olhos, que sim, que era muito doloroso.
“Mas por que razão mentem? Os médicos deviam sujeitar-se aos exames que mandam fazer para verem se custa ou não! A anestesia é uma intrujice!”, protestava o David, furioso e exausto. Nunca o tinha visto assim, a queixar-se. Eu e o Manel não sabíamos o que fazer. Pedimos ajuda; tomou dois analgésicos que uma enfermeira lhe trouxe. Sem grande efeito! Deve haver qualquer coisa que lhe tire estas dores, protestava eu. Assim não! Isto é desumano e ele está doente e debilitado. Que pavor!
Permanecemos junto do bloco operatório até o David sossegar e conseguir pôr-se de pé. Estava pálido, curvado e chorava, ainda, com o braço por cima dos ombros do Manel que o segurava. Depois fomos a andar, devagarinho, até ao bar, para ele comer alguma coisa; já passava das três da tarde e estava em jejum desde ontem à noite.
As dores continuavam ainda violentas. Comeu qualquer coisa e bebeu duas orchatas geladinhas. Mas tinha um ar tão, tão desalentado, como um balão que, subitamente, se esvazia e encolhe. Ficou de rastos. Insistiu em dar-me a mão e o braço ao Manel; ele que foi sempre tão corajoso, neste tipo de coisas. Pobre filho meu!


Que faço da dor, do medo, da solidão, do sofrimento imenso que não despega de nós? Como ajudo a debelar o padecimento que se vai abatendo mais e mais sobre o David. Não suporto vê-lo assim. Apetece-me morrer.

São quase 21h. Estamos em casa; o David está, ali, a dormir na nossa cama.
Esperamos, em silêncio, que acorde... quando acordar! O repouso só lhe pode fazer bem; não temos pressa. O tempo não nos importa! Não temos nada para fazer, a não ser tomar conta dele e deixá-lo descansar.
Subitamente, alguma coisa mudou. Dores, não! 

02 junho 2017

Não podia ser de outra maneira!










Queria dizer-te, David, que o silêncio se apossou de mim.
As saudades abundam.
A dor lateja.
O medo sempre presente. De quê, já nem eu sei!
Acompanhou-te, entranhou-se e permanece. Por ti, ainda e estranhamente, ... por todos.
Desgastante esta ansiedade latente; esta incapacitante falta de ânimo para olhar o sol e ver luz.
Só pode ser assim.

Perdi-me há muito, neste interminável viajar entre o antes e o agora. Num tempo/espaço impalpável e sem sentido visível.
Continuas a ser a primeira e última imagem de cada um dos meus dias.
Que conto um a um! Sem antes e quase sem depois.
Estou cansada, olho mas nem sempre vejo, ouço mas nem sempre escuto.
Tudo me parece envolto em distância.
Aguardo, imóvel, o próximo momento para reagir ... e o próximo, outra vez ...
E não tenho vindo aqui.
Não te envio palavras.
Estão presas nas teias do silêncio.
E numa saudade já quase indizível.