14 outubro 2017

Foi assim, num dia 14 de outubro



14 Outubro 07

É Domingo, já estou com o David, no 4o piso, no quarto 24. Só ao fim da tarde, é que nos trouxeram. Tiveram de mudar doentes de enfermaria para poderem ter um espaço para o David e para mim. Pediram, muitas vezes, desculpa pela demora, mas nós estávamos bem! O Manel veio logo, assim que se fez o internamento, já como visita. Esteve até às 20h. O Manelzinho também apareceu, sozinho, um pouco mais tarde; o David gostou muito de o ver e conversaram um bocadinho sobre “as coisas deles”.
Agora, o David dorme, aqui ao meu lado. Continua com soro e oxigénio e está calmo. Ontem e hoje foram dias de completo desespero, num silêncio gritante de pânico. Não sei raciocinar sobre esta avalanche de infortúnios; não sei o que fazer! Estou aturdida, lacerada por tantos golpes contínuos. Sei que não posso chorar, mas isso é muito pouco; sempre o fiz! Nunca a situação foi tão trágica e tão sinistra como agora. O David internado, com febre, sem força para falar, com dificuldade em ingerir líquidos, tão pálido!

Logo pela manhã, a psiquiatra veio ter connosco; deixei-a a sós com o David. Fui ver o Manel que já se encontrava, novamente, à porta da urgência. Contei-lhe, como pude, o que a médica que estava, agora, a assistir o David me dissera, quando eu tinha pedido para falar com ela.
... “cancro difuso”, nada a fazer, apenas mantê-lo confortável e sem dores; está bem hidratado... não tem sede... precisa que o animem e acarinhem... e chorei, chorei baixinho lágrimas incontroláveis, sepultadas bem no fundo de mim e presas no tempo. Ela tirara-me dali para que o David não ouvisse e segurou-me na mão. Ajudou-me a sentar, ali próximo, num cantinho qualquer. E chorei muito e mais e mais baixinho ainda. Ele estava com a psiquiatra; estava bem. Eu podia chorar só por um bocadinho!

Que sensações desconexas e de endoidecer! Não se explica porque tudo é sentimento, mágoa e demência em catadupa. Soube que o David já não vai sair deste hospital. Soube que estavam a tentar libertar uma enfermaria, só para o David e para mim. Soube que não nos iam separar ! Soube que era o fim; e que não tinha dores... Que talvez perdesse a consciência! Talvez coma! Por quanto tempo? Não sabe; ninguém sabe! Tudo imprevisível! Ficarei com ele. O tempo não existe.
E foi tudo isto que fui dizer ao Manel. E vi-o ficar “pequenino”, pálido,... encolhido de tristeza, derrotado e de ombros caídos. Uma batalha perdida! E chorámos ali, os dois. Encostados ao muro. À vista de toda a gente. Que interessava a gente? É o nosso filho que se vai...

Decidimos que não haveria rostos tristes, nem olhos molhados ou inchados de choro, em frente ao David. Nem suspiros de desânimo. Nem perguntas a que ele não sabe responder. Foi o que combinámos, nesse instante. O David, quando ficar bem, vai regressar a casa. É assim que ele pensa que será. E nós con- firmaremos... Não aceitaremos desiludi-lo! Seria cruel demais!
Ele deixará sonhos, utopias, um rasto de músicas e sons, uma espantosa capacidade de se dar aos outros e uma grandiosa paixão pela vida! A herança dele é um inexpugnável castelo feito de coragem, de solidariedade e de fortes laços de ternura. A chave desse castelo... leva-a com ele. Só ele a sabe usar!

Entretanto, a psiquiatra já tinha conversado com o David e, quando cheguei à beira deles, informou-me que o David tinha repetido que não queria ficar sem a mãe e que ela já o tinha sossegado. Eu ficaria com ele! E o David acenou-me com a cabeça, como quem diz “Está tudo resolvido!”
Perguntou se a Olga já estava lá fora, tinha saudades dela; ficara de vir um pouco mais tarde; não devia tardar. Perguntou pelo Manel que o foi ver, já de olhos bem enxutos; falaram de futebol. A Carla apareceu-lhe, sorridente.
O David perguntou se o Sérgio não tinha vindo! Tinha vindo; estava, lá fora, muito perturbado e um pouco renitente em entrar! Foi a própria médica que foi ter com ele e lhe explicou que o David estava bem disposto e que tinha dito que gostaria de receber a visita do irmão. O Sérgio acatou, timidamente, e foi vê-lo. Sei que lhe estava a custar dominar-se para não demonstrar emoção. Mas só podemos pensar no David! Não vai ter muitas mais ocasiões de estar com o irmão! Já mo disseram, já o repetiram; sei que é assim, embora não consiga acreditar no que sei ou no que os outros me dizem... Há coisas que não podem acontecer!
O tempo alongou-se na urgência. O David quase nada comeu do que lhe trouxeram, apesar de passado. Na cozinha, já sabem do menino que não consegue engolir e que precisa que lhe passem a comida. Foi dormitando, acordando e conversando... dormitando... Eu fui vagabundeando entre o dentro e o fora da urgência, sem saber o que fazer, o que sentir, o que pensar. O Manel ficou mais um bocadinho só com o David. Ninguém impede a nossa entrada, desde que seja um de cada vez. Devem estar informados do que se passa. A Olga chegara e eu precisava de conversar com ela, antes de a deixar ir ver o David.
Chegara o momento cruel de toda a verdade, e eu não encontrava as palavras, não sabia como dizer-lhe. Ela sempre foi optimista, tal como o David. As nossas conversas à mesa sempre tinham tido como tema os projectos do David, os concertos do Drumming, a profissão da Olga, o nosso dia-a-dia e, por vezes, o decorrer da doença do David. Mas sempre num tom confiante!
Sentei-me, encostada ao muro, junto da Olga, a fumar e a tentar explicar-lhe, no meio de lágrimas, que o David vai viver pouco mais. Contei-lhe tudo o que a médica dissera. Senti-me tão culpada pelo sofrimento dela, por esta revelação tão súbita... Nunca lhe pude dar tempo para se preparar,... Mas como? Se eu nunca estive preparada! Se eu não estou preparada! Mesmo agora!
Custou tanto dizer esta verdade tão cruel a uma rapariguinha que sempre acreditou que o David se ia curar; que o amou e apoiou nos bons e maus momentos de um namoro tão atribulado pela
doença. Doeu muito magoar, desta forma tão áspera, aquela a quem o David sempre dissera que só era preciso ter um bocadinho de paciência. Só mais um bocadinho de paciência! Sentia-me como se estivesse a magoar, a trair o David!
Pedi-lhe perdão. Pedi-lhe compreensão. Mas não podia ter feito de outra maneira! Pelo David e pela paixão com que vivia! Também eu e o Manel acreditámos, sempre, que talvez fosse possível o David melhorar. Não podia destruir-lhe esse sonho; não era justo que ela tivesse vivido cada dia no mesmo sobressalto em que eu vivera. Porque cada momento da minha vida fora, desde há muito, vivido num medo tenebroso. Agora, a única coisa que podíamos fazer pelo David era... viver com ele como se tivéssemos todo o tempo do mundo, como se a nossa confiança nos tratamentos continuasse!
O David teria orgulho na Olga... que, serena mas muito triste, me disse que o amor pelo David era o de sempre e que eu não devia ter receio; ela saberia controlar-se à beira dele e manter-se confiante!! Se era a única e última forma de continuar com o David, fá-lo-ia, como eu e como o Manel
O pai do David, que chegara e se aproximara de nós, ouviu tudo o que eu dissera. E poderá visitá-lo? Não depende de mim... nunca dependeu, aliás! Será como o filho quiser. Tentarei falar com o David, amanhã, numa altura em que esteja sereno. E chamá-lo-ei se ele quiser a visita do pai. Mas o David espera regressar a casa...

São onze horas da noite. O David está encolerizado! O novo médico assistente veio observá-lo e conversar um bocadinho com ele. Disse-lhe que, amanhã, terá a visita de uma prima médica (de quem ele não fixou o nome!) e que virá acompanhada por uma colega dela que trabalha, aqui, no HGSA.
O David percebeu imediatamente de quem se tratava. Insurgiu-se; ficou muito inquieto e alvoroçado, “Se quiser ver alguém, eu telefono! Não a quero aqui! Nem a ela nem a ninguém... nem aqui nem em casa! Mas porque nunca respeitam a minha von- tade? Que não se atrevam a entrar! Dr., pode dizer-lhe que se a vir aqui, chamo os enfermeiros para a porem na rua. Envergonho-a!”.

Eu tinha prometido perguntar sobre a vinda do pai. Mas, perante a ameaça da visita surpresa da prima e pela reacção exaltada do David... percebi qual seria a resposta. Ele acabava de a dar! O David não tem paz! Esta rapariga não respeita a privacidade de ninguém; impõe-se às pessoas; só pensa nela. O David está vivo, ó deuses. Deixem-no manter a sua integridade até ao fim!
O médico não sabia o que dizer; desculpou-se. Disse que daria o recado! Coitado, não fora por mal, antes pelo contrário. Pensava que estava a ser simpático; que o David ficaria satisfeito! O David esclareceu-o que a mãe tem autorização do director deste serviço para permanecer aqui sempre e que não haverá nenhuma visita surpresa. Nenhuma! Porque é assim que ele quer!
Só interessa proteger o David, com calma e sem que nada haja de diferente do usual, neste quarto. Temos-lhe dito que o internamento se destina a combater a infecção e a febre e que, depois, vai para casa.
Estranharia, até, se começassem a aparecer pessoas com quem não tem tido qualquer contacto ou que pouco se aproximaram dele na fase mais difícil da doença – antes de irmos para Barcelona. Apesar de estar um pouco entorpecido e dormente (por vezes), o David é muito inteligente e perceberá que algo não está bem se começarem a rondar-lhe a cama do hospital, de forma inusitada.
Tenho de manter o sangue frio! Isto não vai transformar-se num velório. E não é! Não quero o David apoquentado! Não o quero triste! Mais triste ainda? Tudo deve ser encarado como uma fase de internamento para combater a febre. Não; sei que não é assim!! Não voltaremos os dois a casa! Mas é a única coisa que posso fazer, ainda, pelo meu filho – protegê-lo do sofrimento atroz que seria alguém dizer-lhe “Não penses no amanhã! O mais provável é que lá não chegues! Venho despedir-me.”.
Não, não posso consentir numa atrocidade dessas para este rapazinho já tão frágil, já um pouco anestesiado... mas sempre tão doce? Ele sempre me disse que havia perguntas que não fazia porque não queria saber a resposta! Que direito tenho eu de lhe dar respostas para esta situação. Fez as opções que entendeu e eu não tenho direitos. Só o dever de o respeitar.


O meu filho tem o direito de se sentir vivo, até sempre! Está vivo, ainda nos sorri! Ainda me dá o meu abraço da noite! Ainda fala da vida pela frente e dos sonhos a realizar.
Está vivo e quero olhar para ele, sem que sombras de lágrimas ou desacertos da vida o perturbem. É um direito que ele conquistou! Quem lho poderá negar? Nunca os que o amam! E são muitos os que sabem que ele se entregou por inteiro, ingenuamente e sem escudo a todos os que conseguiram penetrar na sua cidadela feita de luz e de imensa bondade.
Dorme bem, meu filho! 

06 setembro 2017

A marca das datas.














6 Setembro 07

 

Hoje, logo pela manhã, recebi um telefonema do X. Disse que o tratamento teria de ser adiado; as bilirrubinas do David estão muito altas. Comecei a suarsuores frios, e senti a força a esvair-se. Outra vez aquela sensação de precisar de vomitar!! 
    Avisei o David, ainda sonolento, tentando não demonstrar pânico, e disse-lhe que era melhor continuar a dormir. Comeu porque estava em jejum e voltou a adormecer, até à uma da tarde. Enquanto dorme, o tempo passa, não pensa nestas imprevistas alterações e descansa. Sobretudo, não pensa!!
Já tinha visto no protocolo do ensaio qualquer coisa relacionada com as bilirrubinas, mas, na altura, não prestei atenção. Não imaginei que pudesse suceder também com o David. O ensaio também é para o mieloma. Mas tudo de mau acontece ao meu filho!
As bilirrubinas estão relacionadas com o fígado! Será disso a cor amarelada da pele? A Dra M. telefonou, mais tarde, a dizer que temos uma ressonância ao fígado marcada para hoje à tarde, na Clínica dell Pilar. Lá fomos. Esperámos um bocadinho, o David entrou e deram-nos logo “as chapas”. O relatório será enviado, por fax, para a médica.
Regressámos, logo, a casa, depois de uns minutos numa esplanada para bebermos água. O cansaço não se aguenta e eu ando como um zombie. Amanhã, vamos ao hospital, saber do resultado da ressonância!! Que mais irá acontecer? Maldita pouca sorte! Tanto sofrimento! Porque não morrer-se, durante a noite... um sono que se prolongue e se alongue, alongue... profundo e sem acordares dolorosos para mais um dia de dor? Porque não, enquanto há esperança... mesmo que seja vã! Percebo melhor, agora, aquele ditado popular “Enquanto há vida, há esperança!”

Liguei à Graça Ferreira, minha colega e amiga da escola, e à Berta Ribas; preciso que me digam o que poderá estar na origem deste tom amarelado e das tais bilirrubinas. A Berta, como sempre, brinca comigo e disse-me que a icterícia é o que têm os bebé. A Graça falou com o marido. Foram sempre muito amáveis, pacientes e disponíveis para me aturarem, nas minhas crises de dúvidas e de inquietação. De forma suave, sempre me animaram, mas nunca me enganaram. Tanta gente que nunca me quis dizer que podíamos avançar com confiança; com muitos maus bocados pelo meio... mas com confiança! E uma possibilidade veio ensombrar os meus dias já tão tristes... descoberta na internet. Pode não ser nada, mas também pode ser uma metástase do fígado que aumentou e que pode estar a bloquear as vias biliares. As minhas mãos tremem! O coração desata a latejar, apesar de cansado de se debater contra o pânico, contra a amargura de ver o meu filho sofrer tanto.
Têm sido assim os dias e a vida, desde Março de 2006.
Já não me lembro de ter outra. Onde não vivesse afogada em medo!
É o meu filho!
E dizem-me que tenha fé; Deus existe! Onde está, que não o vejo? Que preciso de acreditar! Talvez. Mas acreditar em quê? Em quê?
Na sorte! Não, a sorte nunca esteve de mão dada connosco.
Tivemos muitos amigos a torcer por nós! Pelo David! Mas fomos, também, alvo de inesperadas atitudes de desdém e inacreditáveis surpresas de completo desamor.
Não, a sorte não protege os audazes! 


12 agosto 2017

Não, em Agosto, não me peçam que não chore!!


                                               Barcelona, 2007

10 Agosto 07

São 7 horas da manhã; estamos no Hospital Bellvitge, muito distante do centro de Barcelona. Acordámos cedo, às 5.30h, para chamar um táxi.
Deixei, agora, o David lá dentro, deitado numa marquesa, próximo da sala onde vai fazer o PET. Ficou meio adormecido, por causa do relaxante muscular muito forte que lhe injectaram. Estamos na sala de espera; o Manel ocupa o espírito com as suas intermináveis paciências, no Palm; eu faço malha.
O PET não é um exame doloroso. Dão uma injecção para relaxar os músculos e depois um técnico activa uma “maquineta” sofisticada que olha para dentro de todo o corpo. Causa apreensão e muita ansiedade, não saber o que se passará lá dentro. Eu fico mortificada com estes pensamentos que me assaltam, constantemente. O David parece aceitar estes exames com alguma descontracção e optimismo. Aproveita para dormir, já que fica completamente relaxado.

Mal terminou o PET, chamaram-nos um táxi e dirigimo-nos ao Vall d’Hebron, onde o David iria fazer as primeiras biópsias.
Não estávamos preparados para o que se passou a seguir.
No hospital, estava o X. à nossa espera com duas técnicas que lhe fizeram a biópsia à pele e que o David disse não ter custado. Depois, em passo acelerado e com o David ainda muito sonolento por causa do PET, fomos para o bloco operatório, onde lhe fariam a biópsia ao fígado.
E foi horrível, horrível e pavoroso! Foi tremendamente doloroso! O David não estava psicologicamente preparado para tanta dor. Tinham-nos dito que lhe davam uma anestesia local e que não custava muito. Mas a anestesia local é uma treta; tudo uma
aldrabice; o fígado é um órgão grande e está profundo... Dói mesmo! Dói muito!
Vimo-lo sair de lágrimas nos olhos, muitas lágrimas,... tantas lágrimas! Oh, meu filho! Muito triste, sombrio, em estado de choque, muito revoltado, a queixar-se do sofrimento... que tinha sido medonho. E ele que tão raramente se queixou, até hoje. Deve ter magoado tanto, tanto, meu filho! Como pode ser permissível? Deve ter sido um inferno, meu pobre David.
Não é possível, assim! Eu não posso fazer nada por ele, sinto- -me destroçada; impotente e revoltada também. Como não é possível sedar o doente para uma biópsia tão agressiva? Não compreendo.
Mas tenho de ser forte, não posso exteriorizar o que sinto; é ele que tem direito a desabafar, a chorar de sofrimento, a revoltar-se contra a dor, contra a doença. Sentámo-nos ao lado dele, dei-lhe a mão, a tentar acalmá-lo. Juntaram-se-nos as duas técnicas patologistas que levavam, numa “caixinha térmica”, os tecidos da biópsia. Também elas faziam festas na cabeça do David e nos diziam, com os olhos, que sim, que era muito doloroso.
“Mas por que razão mentem? Os médicos deviam sujeitar-se aos exames que mandam fazer para verem se custa ou não! A anestesia é uma intrujice!”, protestava o David, furioso e exausto. Nunca o tinha visto assim, a queixar-se. Eu e o Manel não sabíamos o que fazer. Pedimos ajuda; tomou dois analgésicos que uma enfermeira lhe trouxe. Sem grande efeito! Deve haver qualquer coisa que lhe tire estas dores, protestava eu. Assim não! Isto é desumano e ele está doente e debilitado. Que pavor!
Permanecemos junto do bloco operatório até o David sossegar e conseguir pôr-se de pé. Estava pálido, curvado e chorava, ainda, com o braço por cima dos ombros do Manel que o segurava. Depois fomos a andar, devagarinho, até ao bar, para ele comer alguma coisa; já passava das três da tarde e estava em jejum desde ontem à noite.
As dores continuavam ainda violentas. Comeu qualquer coisa e bebeu duas orchatas geladinhas. Mas tinha um ar tão, tão desalentado, como um balão que, subitamente, se esvazia e encolhe. Ficou de rastos. Insistiu em dar-me a mão e o braço ao Manel; ele que foi sempre tão corajoso, neste tipo de coisas. Pobre filho meu!


Que faço da dor, do medo, da solidão, do sofrimento imenso que não despega de nós? Como ajudo a debelar o padecimento que se vai abatendo mais e mais sobre o David. Não suporto vê-lo assim. Apetece-me morrer.

São quase 21h. Estamos em casa; o David está, ali, a dormir na nossa cama.
Esperamos, em silêncio, que acorde... quando acordar! O repouso só lhe pode fazer bem; não temos pressa. O tempo não nos importa! Não temos nada para fazer, a não ser tomar conta dele e deixá-lo descansar.
Subitamente, alguma coisa mudou. Dores, não! 

02 junho 2017

Não podia ser de outra maneira!










Queria dizer-te, David, que o silêncio se apossou de mim.
As saudades abundam.
A dor lateja.
O medo sempre presente. De quê, já nem eu sei!
Acompanhou-te, entranhou-se e permanece. Por ti, ainda e estranhamente, ... por todos.
Desgastante esta ansiedade latente; esta incapacitante falta de ânimo para olhar o sol e ver luz.
Só pode ser assim.

Perdi-me há muito, neste interminável viajar entre o antes e o agora. Num tempo/espaço impalpável e sem sentido visível.
Continuas a ser a primeira e última imagem de cada um dos meus dias.
Que conto um a um! Sem antes e quase sem depois.
Estou cansada, olho mas nem sempre vejo, ouço mas nem sempre escuto.
Tudo me parece envolto em distância.
Aguardo, imóvel, o próximo momento para reagir ... e o próximo, outra vez ...
E não tenho vindo aqui.
Não te envio palavras.
Estão presas nas teias do silêncio.
E numa saudade já quase indizível.