27 abril 2013

Mães que perderam um filho ...





As mães que perderam um filho
ainda acreditam que há coisas que não podem acontecer ...
(Como o morte do filho acontecida)
sorriem por entre lágrimas, quando falam dele ...
choram sozinhas dentro do carro ...
e mergulham nos sonhos dos outros.

As mães que ...
estando presentes, estão sempre ausentes ...
e não compreendem o tempo ...
que se fixou por detrás do choro das pálpebras.

As mães ... um filho
choram a perda dos filhos das outras mães ...
criam laços de ternura imensa com quem as ouve,
ouvindo só ...
somam e subtraem dias, a partir daquele dia ...

As mães que perderam um filho
têm  um coração/espaço imenso, ocupado por inteiro por todos os outros filhos
e filhos dos filhos ...

As mães que perderam um filho
perdem-no todos os dias ...
são devoradas por uma revolta surda contra ninguém
e acordam aterrorizadas e envoltas em suor ... com medo que volte a ser ...
esse o dia.

As mães ...
engolem raiva e calam soluços
enquanto
aguardam pacientes a companhia de uma certa solidão
onde
choram, finalmente, em silêncio... sem saber porquê ...

As mães que perderam ...
procuram sinais no céu estrelado, encostadas à janela da noite,
e perseguem, e dia, silhuetas na rua
(um certo arregaçar de manga
uma mochila ao ombro
um cabelo em rabo de cavalo
o capuz de uma gabardina cinza
uma cabeça erguida
talvez um olhar de frente)
E desistem desoladas... 
não o sorriso igual ... misto de troça, ironia, tristeza ou ternura
não o tal timbre de voz
que se fixou, eternamente jovem ...
voz de menino, onde ficou longe de nós

As mães que perderam ...
isolam o olhar, cortam perfis, recortam gestos doces
montam fotografias antigas
repassam filmes de festas de família, remontam-nos
ouvem-nos e veêm-nos, mil vezes ...
pontes travessias de lá para cá...
de cá para lá

Há mães que, crendo em Deus, aguardam um reencontro ...
Acreditam na perda temporária ...
garantem-me que os filhos estão bem!
Um dia ...
Vão encontrá-los.

Outras não!
Dolorosamente, 
nada.
Eu! Nada!
A não ser poeira de estrelas ou talvez uma estrela no mar ...
Luz somente ...

Não, não quero ser contente!
Chamem-me masoquista!!!
Se isso vos tranquiliza ....

A mágoa que dói
A saudades que esmaga
A amargura do "never more".
São minhas companheiras de viagem nesta travessia para o nada.
E para o tudo que é nada.

"Mamã, chegarei aos 30?"
Seguido de um sorriso doce, lento e esquecido ...
É também o que me sobra do David.
Guardo tudo, mil vezes tudo na conchinha da minha mão fechada
e em cada bater de pálpebras dos meus olhos
mesmo assim
abertos para os outros ...

Ó mães que perderam filhos ...
Só sei viver desta forma!
E não quero outra.
O meu filho David faria, hoje, 35 anos.

Parabéns, David!








5 comentários:

Ana Cristina disse...

Parabéns, meu querido David.
Bjis de saudades da tua Nini.

Branca disse...

<3

Um beijo.

Branca

Ana Mestre disse...


É verdade Isabel, tudo o que escreve é tão real.............., eu mesma, por vezes, quando olho para as estrelas, ando sempre á procura da mais brilhante, e gosto de pensar para mim mesma, que talvez possa ser a Rita...
Mas, são mais as vezes em que acredito no "Nada", depois da partida não existe mais nada...
Acho que o tal "reencontro", foi inventado, para os que conseguem acreditar nisso, pois assim a vida não custará tanto a passar, aguardam pacientemente a sua partida, para depois se dar o "reencontro"...

Quem me dera conseguir acreditar nisso......

Parabéns ao David e à Isabel.

irene alves disse...

Comovidamente um beijo para si
e para o David.
Penso muito em si.
Beijinhos
Irene Alves

Isabel Venâncio disse...

Obrigada a estás minhas amigas desde a primeira hora deste blog, por me acompanharem e me aceitarem como sou. Fazem-me sentir menos só. Um beijo.
Isabel