03 agosto 2011

Dias lentos

Hoje, o sol brilhou durante todas as horas do dia.
A praia encheu-se de gente.
Uns a passear à beira-mar, apesar do frio da água.
Outros a jogar a bola com aquelas raquetes pequenas e largas, parecendo perturbados à passagem dos que passeiam.
Muitos estendidos ao sol; frente, costas, frente, costas ... creme ...
Vozes alteradas "Viens ici, Hugo Paulo! Viens, rapide!"
"Ó Hugo, não ouves a tua mãe a chamar-te?"
Uma saca cheia de arrufadas a ser distribuída pelos filhos e sobrinhos.
Maré vaza, pela manhã.
Maré cheia, ao entardecer.
...
Finalmente, algumas gaivotas começam a rasar a areia.

Demasiado tempo, demasiada agitação, demasiado movimento.
E uma vontade de fugir por sobre as ondas, em direcção ao horizonte.
No fim do mar.
Sair deste dia longo.
Para o lado de lá, donde não vem som, onde nada se move ...
Descansar de tentar fazer de conta que eu ainda sou eu.
Uma mãe igual às outras ... com quem me cruzo.
Com quem converso, sentada na areia, em frente ao horizonte que fica lá no fim do mar.




Segredos do oceano

Ouvi o vento
Observei a minha vida
Nascer para ser selvagem...
Era o que eu pensava
Mas quem falou comigo?
Que não vi
Dei-lhe um beijo.
Talvez sinta a minha falta
Porque eu fugi
Por algum tempo
Em busca do meu dia
Esquecendo o meu lamento.

            Porquê chorar? Porquê?
            Não sei
            E não quero saber
            E não preciso
            E porquê chorar?

Os meus passos
A par do meu destino
Amarram os meus pensamentos,
De outro modo livres
Cheguei então ao meu destino
Onde está o mar
Corri pela praia
Parei quando procurei
Um pequeno cavalo-marinho
Com quem tinha falado
Disse que a razão da minha raiva
Me empurra para a morte
Procurei o que todos procuram
A imortalidade
Que não existe!
Mas eu sei
Que o segredo da imortalidade
É saber partilhar
Com os deuses a maravilha da criação
E os cavalos-marinhos mergulham
No oceano
E o silêncio chora comigo

David Sobral (1995)


1 comentário:

BRANCAMAR disse...

Isabel,

Lindo, lindo de morer o seu texto e conhecendo Moledo como conheço, tendo-o conhecido em anos e dias mais calmos, como entendi e apreciei esta narrativa! Há muito não vou por aí e tenho saudades, mas há motivos vários que não me têm permitido ir a Moledo por este ano.

Depois desci ao poema, comovi-me, está ali o espírito do David, premonitório, deixando-nos uma grande lição, a lição da mortalidade e da partilha, que quase ninguém quer ver.

E a música linda de dois montros sagrados...

Obrigada Isabel, é bom passar por aqui e sentir a vida, porque ela existe cá em todas as vertentes e existe de uma forma terna e carinhosa, plena de amor, plena de arte também.

Beijos
Branca