06 maio 2011

Valquíria, gata goordaaa!!

Tive uma gata chamada Valquíria!
Talvez ainda tenha, mas acho que já não ...
Já lhe devem ter dado aquela injecção que a liberta de dores.
Era uma gata grande, branca e preta, uma senhora dona gata. Tinha estilo no andar e fazia pose ao enroscar-se à volta, mais à volta ainda, da sua cauda, em cima de uma cadeira, aos nossos pés, no beiral do telhado.
Era a gata favorita do David! Chamava-lhe "gooorrdaaa!" e ela passava-lhe por entre as pernas, à espera de ser acariciada.

A Valquíria morreu.
Era, neste momento, a mais velha das três gatas que tinha. Tenho?
Antes dela, foi a Tosca ... também velhinha.

Hoje, quando me ligaram do veterinário, ouvi aquelas palavras que, ainda, ecoam nos meus ouvidos "ascite ... massa tumoral de grandes dimensões ..." e parecia-me, a certa altura, que me falavam do David e comecei a chorar ... do lado de cá.

Pude decidir o que pensei ser melhor para a Valquíria.
Tal como com a Tosca.
Uma injecção inofensiva, igual a outras tantas ...
Esta libertadora.
Esta ... libertador(a)!
Liberta dor (a).
(a) dor liberta.
Liberta (a) dor.
O mundo dos gatos, a sua vida, a sua morte são, provavelmente, mais humanos do que o mundo dos homens.
E lembrei-me de uma conversa triste e dolorosa que tive com o David.
Fui recolhê-la ao meu livro "Mamã, vamos dançar?"


Tive, hoje, a conversa mais longa, desgostosa e amarga com o David, desde que ficou doente. Fui ter com ele, ao apartamento, depois do almoço; estava sentado na cama, dobrado para a frente. Tinha dores. Outra vez, dores. Estas malditas dores! Aninhei-me ao pé dele e fui-lhe massajando as costas. Foi relaxando e encostou-se.
Enquanto lhe ia massajando os pés, foi-me dizendo que sempre tinha enfrentado tudo com optimismo e que aguentará tudo o que for preciso para ficar bem. Deixará tudo para se tratar. Mas ... dores, não! Não aguenta continuar a sentir-se incapacitado para o que quer que seja, com as dores que tem sentido.
Disse-me que se o tratamento (este ou outro) não resultar, em breve, e continuar a sentir as dores que tem sentido e que o impossibilitam de trabalhar, de viver ... desiste! Não vale a pena! “Lembras-te daquela reportagem que vimos, há uns anos, sobre uma clínica em Zurique, mamã ... Adormece-se com uma pastilhinha!?”
Vida sem qualidade e dores destas, não aguenta! E pediu-me ajuda! Expliquei, disse-lhe que tal não iria acontecer! Que as dores terão de passar! Mas sempre o ajudei, no que pude! Ai que dor e que vontade de gritar! Mas tenho a certeza que, exteriormente, me mantive calma!! Por um filho, faz-se tudo; finge-se tudo... Aprende-se a fingir completamente!
E pediu-me desculpa, se ... desistir. Eu não poderei pensar em mim! Ele não poderá pensar em mim, se isso acontecer!  E repetiu-me que, sem capacidade para trabalhar e realizar os sonhos que tem (incluindo constituir família e ser pai de dois ou três filhos), a vida não vale a pena. A vida, como ele a entende, ... com autonomia, com entusiasmo, até com sofrimento e luta, sim, mas só se houver esperança de melhores dias ... A não haver esperança, desiste de viver!
E que eu terei também de pensar só nele; que eu não mereço (já mo tinha dito em Junho), mas terei de o compreender, de o ajudar e perdoar por me abandonar. Não sabe viver desta forma; já aguentou muito e aguentará mais ainda ... Mas sem dores!
Fiquei, ali, deitada aos pés dele, a fazer-lhe festas ... E não falei. Dizer o quê? Limitei-me a acenar com a cabeça; num sinal de assentimento silencioso.
Sequei, por dentro. Não são precisas palavras.
O silêncio é, por vezes, ensurdecedor."





5 comentários:

manuela baptista disse...

não sei como se aceita

a desumanidade de tanta dor, não sei

a gata branca e preta
encontrou as pernas onde tanto gostava de dar turrinhas

um beijo

manuela

Jaime Latino Ferreira disse...

ISABEL VENÂNCIO


Querida Amiga,

Um beijinho pela Sua gata ...

... um beijinho pela dor que sente!

Seu


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Maio de 2011

Ana Cristina disse...

Um beijinho para o David, para a Tosca e para a Valquíria.

Nini

BRANCAMAR disse...

Isabel,

Sem palavras...

Ouço tantas vezes algo parecido...numa outra dimensão, porque os jovens hoje, neste país já não podem sonhar, são mortos-vivos, embora lhes digamos que não, que há sempre esperança, mas as mães mentem por amor, mentem tanto e se a isso se associa a falta de saúde ainda mais aprendemos a iludir a realidade...

Sinto muito pela sua dor, pela Valquíria, de que algumas vezes a vi aqui falar, creio que até numa passagem que tinha a ver com ela e o seu neto.

Sinto tudo o que isto lhe trouxe à memória, embora uma memória sempre presente.

Queria sair sem palavras, mas afinal as palavras foram muitas, talvez demais.

Um beijinho grande.
Branca

Anónimo disse...

Isabel, vim aqui, como venho, de vez em quando, para lhe escutar a alma. Vieram-me as lágrimas aos olhos. Não há direito haver tamanha dor, NÃO HÁ!
Um beijinho,
MM