22 julho 2010

A seguir ...



Dizem que se vai vivendo por objectivos.
Vivi a doença do David, conduzida pela esperança que me recusei a perder.
Nem foi uma questão de recusar. Não.
As coisas não funcionam assim.
Situações extremas como a que vivi (em que vivo) não são comandadas por nós, não racionalmente.
A esperança impõe-se e é tudo. É ela que nos conduz.
E tinha um objectivo! Imenso! A cura do David.

Eu tenho um neto.
Eu tenho um filho.
Estas são questões sobre as quais não reflicto naquele sentido em que me dizem "Tens um neto, estás a ver? Veio ocupar-te! E o teu filho precisa de ti! E o Manel! e ... E..."
As pessoas não compreendem! Nada, ninguém se sobrepõe à mãe e avó que sou. Faz parte da natureza humana.
Não mudei como mãe, sou uma avó feliz ... Vivo a circunstância presente, não descurando os presentes. Fazem parte de mim. Impossível não viver para eles, sempre ... mesmo que pareça adormecida no outro cantinho de mim. Chamado David.
Nada, nada se mistura.

No entanto, falta-me a outra parte do que fui; daquela que escolhi ser - mãe de outro filho.
E essa foi um ser único que existiu, enquanto existimos todos.
Esse ser que foi único ... transformou-se nesta ... que é também única e não consegue ser mais do que é.
Saudosa por um filho que já não tem, desde o nascer do sol de hoje ao nascer do sol de amanhã!
Engelhada pela dor que não quero que seja visível, desde a vinda do sol ao regresso da lua.
Talvez só então!!
Solitária nesta condição de orfã de um filho...
Esta solidão não se partilha. É única e, também por isso, eu (talvez qualquer mãe que perde um filho) sou única.
Mas não sou menos para os outros. Não os amo menos. Amo-os com todo o amor a que têm, por natureza da situação, direito. E dou-o na totalidade.

A outra, a que existe ferida de morte dentro de mim, ama também e da mesma forma ... o filho que partiu.
Partimos os dois!
Seguimos caminhos que nunca se cruzarão.
Daí esta saudade!
Daí este novo vazio que me sacode e me diz que preciso de novo objectivo ... agora que o livro se fechou.
Um objectivo que, de alguma forma, esteja relacionado com o David!
Para me manter viva na parte de mim que foi ferida irremediavelmente de morte!


Gato Barbieri

Olá, caros ouvintes!

Com o inicio desta semana, terminou o ciclo de instrumentos que tem vindo a decorrer há cerca de dois meses.

A partir de hoje, vou falar aleatoriamente sobre músicos de jazz de qualquer parte do mundo. Alguns destes músicos nunca passaram pelo jazz faz tarde, outros já passaram mas são tão bons que terão direito a passar outra vez por aqui.

Outros ainda ...não são propriamente músicos típicos do jazz nem perseguem esse estilo ... mas sente-se a influência na sua música e claro são óptimos artistas.

Hoje vamos ouvir um senhor chamado Gato Barbieri que é um saxofonista argentino que toca como se o seu sax estivesse a arder. Se quiserem saber mais sobre o Gato Barbieri podem escrever para o email jazzfaztarde@hotmail.com

Até logo...

2 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

Um objectivo que de alguma forma esteja relacionado com o David naquela parte de Si que foi ferida de morte, que ao reencontro com ele a ajude a conduzir e que tem um nome tão simples como aquela mesma esperança que na doença do David a comandou e que incontornável se impôs ...!

Hoje mesmo, aqui e agora, a esperança!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 22 de Julho de 2010

BRANCAMAR disse...

Como eu a percebo Isabel, percebo mesmo, apesar de não ter vivido uma experência dessas, mas qualquer mãe pode perceber minimamente o que ela significa.
Que posso dizer mais? Que a outra parte de si, a que é feliz junto do neto, do filho, da nora, do Manel, toda essa Isabel seja uma plenitude que compense a outra parte de si.
Beijinho grande
Branca