06 fevereiro 2010

Ao som da "Sodade"



Esqueço-me, agora mais, de coisas recentemente ditas, feitas ou ouvidas.
Não é indiferença, não é distracção.

Foi mesmo agora que falaram comigo e já não me lembro ...
É ausência inesperada, não voluntária.
Estou sempre entre cá e lá.
Saio, só por um bocadinho ...
As evocações são tão reais!
Já estou de volta.
Percorro longos corredores de palavras, feitas de imagens, atoladas em areias movediças.
Ditas de cá ou ciciadas ao ouvido, de lá.
Tempo de antes e tempo do depois.
Permaneço em ambos, todo o tempo é agora.
É mais forte do que eu, este escorregar lento e contínuo.
Apesar da fadiga do viver à beira do abismo que separa estes meus mundos paralelos, não sobrepostos.
Instalo-me, onde quer que esteja, como duas.
Mesmo aqui, frente à lareira acesa ...
No sofá ao lado, o David adormeceu cansaços.
Mesmo aqui, frente à lareira, eu velava no silêncio.
Tudo está, duma certa forma, relacionado com o David.
Com o meu existir passado, que não escorreu lentamente pelos telhados do tempo...
Que, subitamente, se rasgou.
Me rasgou.
Deixando-me entre cá e lá.
Basta o vislumbre súbito do mar, basta um som com um timbre diferente, basta um gesto familiar, basta uma voz de locutor de jazz, basta uma luminosidade mais agressiva, basta eu existir …
Neste desalinho ausente dos dias.
Um pouco perdida na parte de trás da vida.

Para deixar de estar, aqui.
Afastar-me ... continuando aqui.


3 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

COMO SE FOSSE TRÊS


Instalo-me
onde quer que esteja
como se fosse três

Um aquele que sou
na voluptuosidade
fugidia
saudosa
de um momento sem ter quês

Outro
aquele que se distancia
na saudade
de um futuro
com porquês

Outro ainda
aquele que vês
que nesta escrita
escrevo
simples rês
que entre tuas saudades
é o que se fez


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Fevereiro de 2010

manuela baptista disse...

Alô? Isabel?

vim aqui chamá-la, para se sentar no sofá e conversar comigo

tenha lá as saudades que tiver, porque as saudades fazem parte de si e de cada um de nós, que afinal nunca poderemos passar sem elas e ao mesmo tempo passamos mal com elas!

Não se esqueça já a seguir do que lhe estou a dizer, porque francamente!

é muito cedo para a memória lhe faltar e ainda vai ter muitas memórias bonitas para guardar.

De qualquer jeito, para prevenir, chame lá a outra Isabel e numa dualidade permitida e consentida, estou certa que o som da saudade terá já outro som.

Alinhemos então os dias, para logo de seguida os desalinhar!

E agora

que já a desalinhei um bocadinho :))

desejo-lhe coragem, mas ao mesmo tempo humildade para acreditar, que todos torcemos por si!

um grande abraço

Manuela

Brancamar disse...

Deliciosamente belo este texto Isabel, sob o ponto de vista literário e psicológico. É todo ele um puro texto de saudade. Eu creio mesmo e parecendo contraditório, acontece em todos nós, que quando as pessoas que amamos estão ausentes físicamente, acabam por esta mais presentes de outra forma, estão paradoxalmente mais em nós, mais presentes em todos os momentos da nossa alma.
Gostei de a ler e esta não deixa de ser uma boa e belíssima catarse.
Beijinhos
Branca