31 dezembro 2010

Seguir!



Cruzo os braços. 
Dobro o horizonte, quero regressar ao ano antigo e ao outro e ao outro. E ainda outro. Onde tenha dois filhos. Não quero ser empurrada para um novo ano. Que não seja 11. Ou 12. Não quero que cresça a lonjura que eu continuo a percorrer. 
Tenho a alma coberta de dor! Mas que alma? Quem a vê?
E que dor? A que ninguém vê porque não se vê.
A minha dor dói, corta-me, range dentro de mim, muito profundo ou  ... atrás da cabeça. Não sei. Às vezes, sinto como se uma lâmina tivesse cortado, na vertical, a minha cabeça em duas.
É na parte de trás, resguardado dos olhares e dos ouvidos, que penso outros pensamentos, que vivo mil vezes uma outra vida já vivida. É lá que sinto a saudade e ganas de dar gritos de fúria. É lá que repito até à exaustão que não, que não compreendo, que não aceito, que não sei como aconteceu tão subitamente ter gerado um filho e ele não existir. A cama nunca desfeita ... no entanto, um cheiro distante ainda no roupão. É lá que sinto que se cerraram as portas duma parte de mim. É lá que uma parte de mim já desistiu, cansada e desenganada, de projectos, de quereres. Lá, já não formulo desejos, nada de fantasias tolas. Quero encostar a cabeça, trancar os olhos, ficar-me no pensar ou sentir ou choro ou desconsolo ... o que vier.

Descruzo os braços.
A parte da frente da cabeça aberta para o mundo ... essa continua a viver, como se viver, mesmo assim, fosse normal. 
E, deste lado, é.
Tem de ser, mamã! - diria, certamente, o David

09 dezembro 2010

Razon de vivir



http://www.youtube.com/watch?v=bfIfaqCCfgo

Mercedes Sosa
Para decidir si sigo poniendo
Esta sangre en tierra
Este corazon que bate su parche
Sol y tinieblas.
Para continuar caminando al sol
Por estos desiertos
Para recalcar que estoy vivo
En medio de tantos muertos;
Para decidir
Para continuar
Para recalcar y considerar
Solo me hace falta que estes aqui
Con tus ojos claros
Ay! fogata de amor y guia
Razon de vivir mi vida
Para aligerar este duro peso
De nuestros dias
Esta soledad que llevamos todos
Islas perdidas
Para descartar esta sensacion
De perderlo todo;
Para analizar por donde seguir
Y elegir el modo
Para aligerar
Para descartar
Para analizar y considerar
Solo me hace falta que estes aqui
Con tus ojos claros
Ay! fogata de amor y guia
Razon de vivir mi vida
Para combinar lo bello y la luz
Sin perder distancia
Para estar con vos sin perder el angel
De la nostalgia
Para descubrir que la vida va
Sin pedirnos nada
Y considerar que todo es hermoso
Y no cuesta nada,
Para combinar
Para estar con vos
Para descubrir y considerar,
Solo me hace falta que estes aqui
Con tus ojos claros.
Ay! fogata de amor y guia
Razon de vivir mi vida.

08 dezembro 2010

O sonho dos outros

Mais um Dezembro que se alonga
No calendário
é
Natal
....
era um dia de sol
(na minha memória)
depois de uma noite
mais longa
feita de aromas
de canela
de casca de laranja
muitas luzes
vozes que se atropelam
entre tilintar de brindes
...
um silêncio saudoso
pelos nomes dos lugares
que foram ficando
vazios
...
histórias de outras noites jovens
de Natal
numa aldeia beirã
tantas mesas
tantas vozes
tantos sonhos
no sapatinho da menina
a luz de uma candeia
que guia o regresso
a casa
na escuridão da noite
cortada pelos risos
muitas vozes
há quem cante
há muito
muito tempo
...
não agora
agora é preciso
 que tempo avance
que avance
de olhos vendados
sem olhar para trás
sem o aroma da canela
sem o tinir dos pratos
sem o cheiro da casca da laranja
sem o tilintar dos brindes
...
agora
já sinto o vazio
do teu lugar à mesa.


O sonho dos outros








Cecília Meireles

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome,
o som da nossa voz,
o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer
é o dia carregado de actos,
a ideia de recompensa e de glória.

O que é preciso
é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Contra natura

Pois é!
Se a morte de um filho é contra natura, como se pode esperar que eu viva naturalmente?
Se viver naturalmente é deixar que os dias escorreguem, esperando muito pouco e quase nada pedindo ... talvez eu viva de forma penosamente natural.

Dizem-me "Se tal me acontecesse, enlouquecia! Não aguentava!"
Quem pode assegurar a minha sanidade mental?

"Tenho tanta admiração por ti, Isabel. Como consegues?"
Quem diz que consigo?
Só por andar por aí?
Às vezes, sem perceber o que se está a passar à minha volta ... porque "estou ausente"...

Só eu conheço bem a cor da dor que navega no sangue que me corre nas veias!
...
Escondo-me entre dedilhares de cordas que me fazem lembrar os sons do David.
Fecho os olhos.
Deixo-me escorrer.


http://www.youtube.com/watch?v=0DEKQjj6Ga0

29 novembro 2010

Recompensa! Não espero.


Um passeio em grupo, dos antigos.
Num impulso de coragem.
Viseu, desta vez, por que não?
Montebello, um hotel confortável e acolhedor; quarto quentinho e espaçoso.
Um almoço a quatro, ao lado da Sé, um lento escorregar pela Rua Direita, onde o sol projecta as sombras dos telhados.
Ao fundo, o Teatro Viriato. E eu a atravessar o fosso do tempo, para trás, para trás.
Uma lágrima repentina a escorrer.
Ninguém a reparar.
Uma descida, agora, a oito, no funicular.
Um passeio pelo Polis de Viseu, que nos leva até ao rio, antes raramente apercebido.
Passos lentos, conversas cadenciadas, monólogos interrompidos ...  alguns risos, algumas piadas antigas. Sinto-me segura.
Quatro de nós somos velhos amigos. Quarenta anos!
Somos um velho grupo de amigos. Vinte anos?
O funicular sobe esforçado.
Anoitece.
O meu coração esmorece.
Como a noite. E sinto a saudade a crescer.
...
O mesmo ritual, repouso no hotel antes de sair para jantar.
O velho Cortiço.
As mesmas conversas, sempre diversas, às vezes, mais calorosas, porque somos diferentes.
Diferenças que a amizade dilui.
Mais um jantar que acaba nos mesmos risos, em piadas de sabor antigo, embora renovadas. Um porto seguro.
Recolher rápido sob os 4 ou 5 graus negativos.
Os corpos distendem-se pelos sofás, no hotel, antes de dormir.
Jornais que se lêem, revistas que se folheiam, um jogo de futebol entrecortado de comentários sobre a cidade de Viseu, partilhados através de uma consulta rápida na net.
Alguém fala do Chiado de Lisboa.
Uma faísca salta do recanto da memória. Lágrimas que não controlo e mostro a fotografia que trago comigo.
Eu e o David no Chiado; as marcas da doença já visíveis.
Dois sorrisos serenos. Como aconteceu não restar nada?
....
Um pequeno-almoço a sete e a conversa já vai acalorada. Caótica.
Este país ... a situação politica ... empregadas domésticas ... esta cidade .... e a miséria e a fome envergonhada a aumentar  ... Buenos Aires ... divórcios inesperados ...
Foi sempre assim. É bom que continue a ser assim; caótica mas perceptível entre nós.
O Museu Grão Vasco. Um aldeia medieval recuperada. Uma estradinha romana.
Mais um almoço.
Que é feito desta? Tens visto aquele? E os filhos? Que fazem? Quando nos veremos?
Estamos quase a partir. Para o Porto. Para o Alentejo.
Não é um regresso como os antigos; em casa, espera-me o vazio. O teu quarto vazio. Apercebo-me de que estou ansiosa por regressar porque até dos teus lugares vazios, em casa, tenho saudades.
...
Cheguei.
Sinto-me cansada.
Gostei de rever os amigos. Mas resistir “bem” fora do meu canto toma-me todas as energias.
As mãos tremem-me e a cabeça abandona-se no encosto do sofá, temerosa do dia de amanhã.
Aquele mesmo peso no estômago ... aquele não querer pensar, falar ou ouvir ... de quem sente que o caminhar, o tentar, o esforçar-se (por mim, pelos outros) já não me leva onde, antes, supunha poder levar.
...
Os meus livros chegaram. Estão ali encaixotados.
Alguém quererá ler o que se esconde por detrás do teu sorriso tímido e maroto, nas capas?
É só onde te podem ver!!



Foi o que restou de todo este tempo com que ainda não aprendi a lidar?
Sei perguntar.
A nada sei responder?

14 novembro 2010

Faz, muda, altera, não faças ...

Moledo,
Gaia,
Moledo,
uns cravos vermelhos na areia,

Paris, a luz da cidade, a cidade LUZ, as comidas preferidas do David,
numa loja "do David", brinquedos para o Miguel,
passeios de city tours, muitas dores nos pés, mais locais de Paris,
uma boutique Nytia,
algumas lágrimas e a saudade,
um museu líndíssimo,
não tanto pelo que alberga,
mais pela arquitectura, mais pelos jardins suspensos, Branly,
perto da torre Eiffel,
os cartazes a anunciar espectáculos, muitos espectáculos,
muitos desenhos de luz,
sem a luz de palco, o palco na penumbra,
eu na penumbra, sempre,
apesar da luz brilhante do sol, que me aquece.
E que me agrada! 
... mas preciso de chorar.


Faz um esforço mais,
é preciso ter outra atitude,
pensa nos outros,
ainda tens tanto para viver,
não podes continuar assim,
precisam de ti,
o David não volta,
constrói projectos,
és tão nova,
volta à escola,
não podes continuar assim!

Assim como?
Isto que faço não se chama viver? 


Então e Moledo e o livro terminado e o jardim 
e as ervas daninhas que arranco, debruçada sobre a terra, durante horas.

E a chegada do Miguel, logo pela manhã, que, 
com um belo sorriso de quem acabou de acordar, 
avança intrépido para as três gatas que o aguardam no hall, 
ali atraídas pelo toque longo da campainha.
E avança, 
"GATATATA ..."
 fazendo girar a sua própria gata de peluche, na direcção dos "pobres" animais, 
sempre curiosos deste ritual.
Subitamente, num momento de ternura, o Miguel pára;
 sorri, abraça a sua Becas, 
dá-lhe dois beijos no focinho e ... 
de novo, lá vai ele na direcção da Genufa que, curiosa, ainda resiste, 
atrás da cortina. 
Mas não tarda a fugir, impelida pelo “Gatatatatata ...” vigoroso 
ou por algum bocado de plasticina que esteja à mão. 
E o Miguel dá gargalhadas sonoras, 
mais ou menos indiferente aos pedidos de beijos da avó ou da Tata 
ou às tentativas de despedida da mãe ou do pai.
Que aguardam que o Miguel termine a sua entrada sempre tão calorosa e viva.
...
E Moledo, Gaia, Caldas de Aregos para almoçar com amigos 
e Chipre, ainda a acompanhar o Manel!
Chipre,
o mar azul e quente, sobretudo o mar azul e quente,
azul
e a lonjura
e as saudades ...
dos telefonemas aos filhos
...
do tempo em que havia David,
do David.

Faz um esforço, por quem precisa de ti.
Tens de viver!
E quem diz que não faço?
E tudo o que faço ... não se chama viver?
Ou tentar?
Muito esforço ... talvez não se veja!
Maldito cansaço!
Só o Miguel o espanta!
Quem sabe do esforço que faço?


Anda!
Fá-lo por ti!
E o tricot?
Tens-te esquecido do tricot!
Faz um esforço por ti.

Por mim? Quem diz que preciso de mim?
Confunde-se, talvez, com o que faço pelos outros!

Vai ao ginásio
Inscreve-te na natação
Faz ioga
Vai ao cinema
Faz um curso de culinária, gostas tanto de cozinhar
Não te enfies em casa
Descansa
Vai à escola
Dá uns passeios à beira-mar.


Sinto-me cansada!
Hei-de voltar à Junta Médica
(um pequeno problema oncológico)
Mas estou bem.
Tristeza? 
É normal!
....
E o esforço que eu podia pedir que fizessem por mim?
Mas não peço!
Bastaria que não ligassem quando me vêem com uma lágrima.
Nem sempre lhes resisto! 
Durante o dia ...
Mas esforço-me.
Bastaria uma festa silenciosa na cabeça,
 ou apenas aquele "Está bem, só um bocadinho, para aliviar!" 
que o Manel murmura.

...
Por que razão preciso tanto de chorar?
Talvez porque não chorei antes ...  não podia.
Agora, choro muito ... porque sim.
Há momentos em preciso de respirar, 
como se tivesse a respiração aprisionada,
há muito tempo.
Preciso de respirar fundo.
Encher os pulmões do ar que me rodeia.
E que me faz chorar.
Porque não sinto o cheiro do David.

03 novembro 2010

Marionetas

Morreu o João Paulo Seara Cardoso, o criador do Teatro de Marionetas do Porto.
Já não vai ler o quanto lhe agradeço no livro "Mamã, vamos dançar?" a confiança que sempre depositou no David e o apoio que lhe deu, até ao fim.
Um fim ... que foi acontecendo como se nada fosse.
Um fim, com luz e palco ... sempre ali ao lado.
Como se nada fosse!
Como se pudéssemos continuar a falar dos amanhãs de Jazz, de festivais de percussão, de rabiscar projectos, de sonhar.

É verdade, David, o João Paulo morreu e esta cidade, mais uma vez, quase não estremeceu.
Os mesmos de sempre choraram o seu desaparecimento.
Umas notícias de rodapé.
Comentários no Google.
Não chega!!
O meu coração entristeceu; tu ficarias desolado.

Tinhas razão - esta cidade não merece os seus artistas, os que a fazem brilhar lá fora, os que continuam a lutar por um espaço cultural digno... contra ventos e marés.
Os que buscam a beleza.
Os que acabam por se aninhar nos nossos corações, porque fizeram coisas bonitas e dedicaram a sua vida a construir torres feitas de sonhos, suportados por lindíssimas marionetas.

Foi um lutador como tu, David.
Foi teu amigo.
Foi-se e senti que mais um fio que nos liga ao passado, se quebrou e sabes, filhote, senti o coração mais amargurado e sem ânimo.

Hoje, apeteceu-me dizer "Obrigada, João Paulo!"


Por mim.
Pelo David, certamente.

18 outubro 2010

O sol brilhava

E o sol teima em brilhar, neste dia, tal como brilhou quando te foste.

É, sobretudo, de um quarto cheio de sol que me lembro.
Um sol teimoso.
Um quarto claro.
Uns olhos fechados.
Uma figura esguia, comprida e franzina, adormecida, com a face esquerda encostada à almofada.

Umas grades que eu tentava, desesperada, baixar.
Para te prender a mim.
Para me segurar a ti, meu David "O BOM".
E me levares.
A tua mão na minha; subitamente mais abandonada.
Várias mãos na tua.

E, hoje, sempre, as mesmas lágrimas que a saudade não seca.

Não me queixo das lágrimas.
Não ligues.
Deixa-me, chorar um bocadinho.
E ouvir-te ...


Crescer


O meu espírito cresceu
Cresceu tanto que o meu corpo acendeu
Vejo agora ideias que nunca tinha visto
E vou idealizar as ideias que quero ideais
Organizar o pensamento para obter sempre, sempre mais
Já não me importa o que existe lá fora
Nunca me senti mais exacto do que quero agora



Quero crescer, crescer, crescer mais
Até um dia saber
Qual a minha razão de viver.

David Sobral 1995

16 outubro 2010

Que lugares serão reais


Luso. Estou no luso, David.
Num daqueles encontros "familiares" do INESC. Já não se fazem Há muito tempo.
Hoje regressei. Eu e o Manel, com uma sombra pesada no peito. Com uma saudade a cobrir-nos os ombros.
Viemos os dois, só. Antes íamos os quatro, quando tu e o teu irmão eram jovens, pequenos.
Gostavam muito ... um hotel, por vossa conta, descontracção total na segurança do recinto, jogos, piscina, brincadeiras nos quartos dos filhos dos outros "inesquianos" mais ou menos da vossa idade. Horas e horas desaparecidos, num recanto qualquer.
Nunca deixaram de vir com o Manel e comigo aos encontros que se organizaram.

Depois, também o tempo trouxe alterações, mudanças no INESC. Vocês cresceram.
Mas hoje, voltei.
Um mar de tempo tornou-nos grisalhos os cabelos.
Enquanto o Manel foi trabalhar ... passeei por aí; pelos mesmos (restaurados) recantos do hotel ...
E vi os os mesmos filhos da vossa idade, e vi-os passar com as toalhas debaixo dos braços em direcção à piscina, e senti-lhes o suor a cheiro juvenil de quem brincou e saltou muito com outros por cima das camas do quarto onde se refugiaram ...
Vi tudo, recordei os banhos rápidos para aparecerem "decentes", à hora de jantar.

Vim com amigas que também trouxeram filhos, com quem tu, David, partilhaste essas brincadeiras, essas aventuras pelos corredores do hotel ...
Para elas o tempo seguiu um curso natural ... os filhos cresceram ... não vêem ... mas podem recordar "os encontros do INESC".

Eu tenho de desviar o olhar destas crianças e destes jovens que correm por aí, livremente.
Vejo-te, vejo-me.
E não sei se não me tornei um fantasma que regressou desses tempos para constatar que não estás cá. Que não voltas.
E que eu não volto.
Apesar de estar aqui.
E de recordar, agora sozinha, no quarto do hotel, que hoje é um dia especial. Triste.

Há 3 anos, a esta hora, ainda me sorriste, ainda falámos dos teus projectos culturais, ainda demos um passeio no corredor do hospital e ... sorriste-me e sorriste-me, outra vez.
Às dez da noite, perguntaste-me se queria dançar contigo e ... adormeceste num coma lento.
Quiseste dizer-me adeus, desta forma triste mas suave. De mão dada comigo.

Porque no dia 18, apenas o respirar parou.

Ainda não consigo viver sem ti, David.
Não sei fazer melhor do que vou fazendo, para viver o dia que segue ao outro.
Entre dois mundos.

27 setembro 2010

Mais um brilho no olhar do David

Mais um amanhecer.
Mais um acordar para hoje e para os ontens.
Todos os dias têm um significado diferente porque estão associados a uma data específica daqueles dezoito meses do passado.
Cada dia desse passado ficou marcado de uma forma especial - mais triste, mais esperançoso ...
E, ao acordar, a minha primeira ideia, ainda sonolenta, foca-se no dia e no mês.
Invarialvelmente.
Involuntariamente.
O ano não interessa.
O tempo cristalizou-se.

Estávamos de regresso de mais uma consulta, em Paris, no Hospital Paul Brousse.
Vínhamos "animados". Talvez não, talvez apenas convencidos de que poderíamos viver mais algum tempo de fingimento. E que essa autorização para fingir ... era a nossa realidade.
Sem tecto, sem chão, sem muros de amparo.
Uma realidade construída de tudo o que existe de irreal, transparente.
Éramos nós os nossos próprios alicerces ... com pés de barro tão fino.
Mas as cabeças; essas sempre nas estrelas ou cansadas, encostadas no ombro mais próximo.


Penso e aconselham-me a encerrar este blog.
Não venho regularmente. Eu sei!
Mas preciso dele. É para mim.
Verto lágrimas, saudades, angústias, pensamentos às vezes terríveis ... aqui.
São daquela que se perdeu e não consegue encontrar um caminho que não seja feito de dor.
Aqui esvazio o meu sofrimento imenso.
Para que a outra, quando se fecha a porta desta casa, consiga aguentar os dias, consiga deslumbrar-se com o sorriso, a alegria, as primeiras "conversas" do neto; procurar os sorrisos tímidos do filho, olhar para o Manel e não através dele e encarar os meus pais, a minha irmã com os olhos mais ou menos secos.
Será que alguém compreende estas duas que sou eu?

Desculpem-me.
Terei de ficar por mais um bocadinho; aqui perto do David.

SONS

Amame como soy-Omara Portuondo y Pablo Milanés

22 setembro 2010

Utopias


Setembro é um mês bom para visitar a Grécia.
Creta é sinónimo de dias muito bons que lá passei com o meu filho David, durante congressos do Manel.
Estes restaurantes cobertos de buganvílias foram testemunhas de tantas conversas, de tantos frappées bem frescos. De tantos sonhos e projectos!
Voltarei às mesmas ruas coloridas e aos mesmos cheiros, sempre que puder.
Tenho sempre encontro marcado contigo ... algures, por ali, donde se veja o mar.



Foi num destes "barcos" que atravessámos de Heraclion para Atenas. Saímos à noite e vimos o alvorecer de Atenas, ao amanhecer.
Eras boa companhia.
E eu tenho saudades!



18 setembro 2010

O teu silêncio bastava






Moledo, hoje

Um ramo de cravos vermelhos enterrados na areia, logo pela manhã.
O Mar vai levá-los, em breve, para mais próximo da tua rocha.
Algumas lágrimas vão juntar-se ao mar.
Lágrimas vigilantes no canto do olho ...
Quase a brotar, a um som, a uma imagem, a uma luz, a uma lembrança.
Lágrimas da tristeza e das saudades que aumentam a par dos dias que passam e não regressas.
Lágrimas desta certeza cruel de não saber viver sem ti.
Sem os teus sons pela casa.
Sem as tuas gargalhadas.
Ou apenas o teu sorriso.
Ou só o teu silêncio.


12 setembro 2010

Silêncio, por favor!


Dói!

Dói a saudade.

Dói não ter alcançado mais.

Dói o que doeu e não deixa de doer.

Dói o desalento em cada dia que passou.

Dói cada expectativa defraudada.

Dói tudo quanto vi que doía, veladamente, nos teus olhos.

Doem os silêncios gritantes de impotência.

Dói a carne por estender a mão e não te tocar.

Dói o cansaço a crescer a crescer.

Dói a desilusão a morrer a morrer.

Dói-me a alma.

Os olhos de não te verem.

Os ouvidos de não levarem uma palavra doce ao coração.

Dói o coração mal amado.

Dói a falta do teu abraço.

Dói tudo.

Novamente.

Todos os dias.

Dói tanto esta dor que não se vê.

Repetidamente.

Dói mais do que ontem.

Às vezes, visto o teu roupão e cheiro-te.

E guardo-o.

Ó céus, alguém imaginará mesmo quanto dói?

Vai doer e doer.

Acho que só mesmo tu me compreendeste bem, ainda antes de acontecer!

Que ia doer muito, David.

"Que pena eu tenho de ti, mamã!"


Nota: Passou mais um 11 de Setembro. É também o Dia da Nacional de Catalunha, em que nos mandaram embora do Hospital de Barcelona. Cada vez mais próximos do fim. Sempre e ainda uma luz no olhar e um sorriso meigo.

24 agosto 2010

Moledo, de passagem

Barcelona?
Terá sido em Barcelona que acordei, hoje de manhã?
Confusa.
Porque a janela não estava no sítio exacto; ao fundo da cama não tinha um separador feito de estantes de livros ...
Mas era o apartamento de Barcelona.
Ouvi o bater leve do David, à porta,
O mesmo receio de me incomodar.
Incomodar meu filho?
Quem dera sentir-me incomodada, perturbada.
Ainda que o medo da morte estivesse colado a mim.

O mesmo falar baixinho "Mamã, podes fazer alguma coisa por mim?"
Fazia sempre alguma coisa; tentava ...
Mas não, acho que nunca esteve na minha mão poder fazer, realmente, alguma coisa por ti.
Nem tu ... por mim.
Já que eu fiquei.
E tu te foste ... apesar de saberes que não seria, nunca mais, capaz de viver sem ti.

Perdi o cerne de mim.
Isto não é uma metáfora, nem tem a leveza das imagens.
Fugiria se pudesse, quando certo silêncio se instala impiedoso entre mim e "outro de mim".
Como se eu não tivesse perdido parte da alma, algures.
Não me obriguem a fingir que não gostaria de me ir.
Para onde não tivesse de, constantemente, me procurar.
Sabendo sempre ...
Que não me volto a encontrar.



22 agosto 2010

Talvez a tristeza mate ...

Todos as manhãs me levanto na firme decisão de que vou viver de frente; abrir as mãos para o que me quiserem dar.

Espero ...

Mas não tenho energia ; a resistência que me resta perde-se no esforço de fingir, fingir sempre, fingir cada vez mais que não me sinto, às vezes, tão mal amada.

E ... bastava um sorriso, um em especial, menos incomodado, menos escondido, menos acusador. Da minha fragilidade, da minha debilidade, das minhas tolices, das minha mãos inábeis, das minhas acções despropositadas, de já não ser capaz ... de ser. Ou nunca ter sido capaz.


Perdi a esperança, há muito.

Perdi bocadinhos de sonho que vou reconstruindo, reinventando ... ao acordar.

Nada é o suficiente.

Sinto-me perdida na vida.

Perdi a auto-estima.

Sinto-me dispensável, incómoda mesma.

Os silêncios instalam-se, em redor de mim.

A minha tristeza é perturbadora.

Canso-me de esperar, de ver que o sol dorme e amanhece.

Revigorado

Dorme e amanhece.

E comigo nada acontece.

Manhã após manhã, noite após noite.

Deito-me derrubada.

Sedenta de nada, de vazio, de silêncio, de olhares puros.

Da paz que dizem que vem com a morte.

Gostava de estar desse lado de lá da vida.

David, fiz mal em não ter ido contigo!






04 agosto 2010

Moledo

Ando um pouco estonteada.

Sinto-me zonza.

Em precário equilíbrio.

Trago um quebranto antigo no arrastar das pernas.

Um torpor no lugar do coração.

Um cansaço lento no descerrar das pálpebras junto à brisa do mar.

Moledo, Barcelona!

Locais unidos por águas do mar.

Pelas lágrimas escondidas no seu contemplar.

...

Ventos de Barcelona, sinto-os, próximos; zumbem perto dos meus ouvidos.

O mesmo mês.

É o mesmo calor; aqui, menos abrasador.

Mais sufocante na saudade.

Mais arrasador no desgaste das últimas forças.

Inadiável, no ter de dizer adeus.

...

Porque … é sempre de saudade que se trata.

Falta-me a força que, sempre, tive para me rodear de entusiasmos e se me esmoreceu nas veias.

Em que poço fundo se perdeu a alegria que trazia guardada dentro do olhar?

Saudade das minhas flores, dos meus arbustos? Acho que já não; não aquela urgência imperiosa de me debruçar … cansaram-se de me esperar.

Saudades de mim?

Claro que são. São saudades de mim ... Também se trata de mim ...

Mas são muitas, sempre muitas e cada vez mais indomáveis ... as saudades do tempo em que estavas comigo.

Que força impensável nos estilhaçou?



Mário Delgado

O convidado de hoje do jazz faz tarde chama-se Mário Delgado é guitarrista e é português.

Mário nasceu em 1962 e iniciou os seus estudos na escola do Hot Club de Portugal e teve como professores o contrabaixista José Eduardo e também com David Gausden.

Delgado estudou também guitarra clássica com José Peixoto e, paralelamente, fez parte de grupos com Carlos Martins, Maria João e Carlos Barretto, entre outros...

É o Mário Delgado quem toca no novo disco da Maria João e do Mário Laginha que se chama “Undercovers”.

Mário participou em seminários com: Bill Frisell, Joe Lovano, Gary Burton e muitos outros músicos.

Agora vamos ouvir um dos temas do seu disco “Filactera” e o tema chama-se “...”

Até logo...

A LUZ

26 julho 2010

Desaniversário



David

Também vieste num dia 27!
Sei que sabes que, amanhã, trocaria de mês, de dia, de vida ... contigo!
De certa forma, sinto-me uma intrusa.
E tu percebes-me bem ...
Nunca liguei ao meu dia de aniversário!
Uma questão de hábito ... está-se de férias!
E, agora!
Como pode sentir-se feliz alguém por ter nascido ... para assistir à morte de um filho a quem deu vida?
Fica-se muito zangado com os dias.
Que seja, então, pelos que gostam de mim.
Sobretudo pelos meus pais ... !



22 julho 2010

A seguir ...



Dizem que se vai vivendo por objectivos.
Vivi a doença do David, conduzida pela esperança que me recusei a perder.
Nem foi uma questão de recusar. Não.
As coisas não funcionam assim.
Situações extremas como a que vivi (em que vivo) não são comandadas por nós, não racionalmente.
A esperança impõe-se e é tudo. É ela que nos conduz.
E tinha um objectivo! Imenso! A cura do David.

Eu tenho um neto.
Eu tenho um filho.
Estas são questões sobre as quais não reflicto naquele sentido em que me dizem "Tens um neto, estás a ver? Veio ocupar-te! E o teu filho precisa de ti! E o Manel! e ... E..."
As pessoas não compreendem! Nada, ninguém se sobrepõe à mãe e avó que sou. Faz parte da natureza humana.
Não mudei como mãe, sou uma avó feliz ... Vivo a circunstância presente, não descurando os presentes. Fazem parte de mim. Impossível não viver para eles, sempre ... mesmo que pareça adormecida no outro cantinho de mim. Chamado David.
Nada, nada se mistura.

No entanto, falta-me a outra parte do que fui; daquela que escolhi ser - mãe de outro filho.
E essa foi um ser único que existiu, enquanto existimos todos.
Esse ser que foi único ... transformou-se nesta ... que é também única e não consegue ser mais do que é.
Saudosa por um filho que já não tem, desde o nascer do sol de hoje ao nascer do sol de amanhã!
Engelhada pela dor que não quero que seja visível, desde a vinda do sol ao regresso da lua.
Talvez só então!!
Solitária nesta condição de orfã de um filho...
Esta solidão não se partilha. É única e, também por isso, eu (talvez qualquer mãe que perde um filho) sou única.
Mas não sou menos para os outros. Não os amo menos. Amo-os com todo o amor a que têm, por natureza da situação, direito. E dou-o na totalidade.

A outra, a que existe ferida de morte dentro de mim, ama também e da mesma forma ... o filho que partiu.
Partimos os dois!
Seguimos caminhos que nunca se cruzarão.
Daí esta saudade!
Daí este novo vazio que me sacode e me diz que preciso de novo objectivo ... agora que o livro se fechou.
Um objectivo que, de alguma forma, esteja relacionado com o David!
Para me manter viva na parte de mim que foi ferida irremediavelmente de morte!


Gato Barbieri

Olá, caros ouvintes!

Com o inicio desta semana, terminou o ciclo de instrumentos que tem vindo a decorrer há cerca de dois meses.

A partir de hoje, vou falar aleatoriamente sobre músicos de jazz de qualquer parte do mundo. Alguns destes músicos nunca passaram pelo jazz faz tarde, outros já passaram mas são tão bons que terão direito a passar outra vez por aqui.

Outros ainda ...não são propriamente músicos típicos do jazz nem perseguem esse estilo ... mas sente-se a influência na sua música e claro são óptimos artistas.

Hoje vamos ouvir um senhor chamado Gato Barbieri que é um saxofonista argentino que toca como se o seu sax estivesse a arder. Se quiserem saber mais sobre o Gato Barbieri podem escrever para o email jazzfaztarde@hotmail.com

Até logo...

21 julho 2010

Ponto final?



E, agora, David?
Houve um dia 18, há 3 dias.
Mas ...
Por vezes, sinto-me tão parada no tempo que todos os dias são o mesmo dia.
Dias todos 18.
Mas este dia 18 que passou foi especial.
Terminei o livro e enviei-o para duas editoras.
Agora, tenho de esperar.
Sinto-me um pouco à toa ... agora que decidi pôr um ponto final no livro e enviá-lo.
O ponto final encerrou o livro ... eu andava a cirandar, a cirandar ...
Com medo deste agora.
E, agora, David ... que faço?

Um beijo de gratidão à minha cunhada!
Foi a opinião dela que me deu alento a publicar o livro.


Cool

Após o momento de viragem que o Bebop causou no jazz ,veio outro estilo chamado Cool.

Esta foi mais uma maneira de tocar, uma sonoridade, um raciocínio do que propriamente um estilo ou um movimento cultural.

Nesta época que abrange os anos 40 e 50, surgiram músicos com discursos musicais mais descontraídos, tocando sonoridades lisas, sem vibrato. Tudo muito, cool...

As vedetas deste estilo foram: Stan Kenton, Lennie Tristano, Miles Davis, Stan Getz e o pianista Dave Brubeck.

Esta foi uma época na qual os músicos de jazz pensaram nas expressões da música europeia. Sobretudo em termos rítmicos. O cool estava sobretudo longe da transpiração quente do bebop.

Deixo-vos agora com o... Jazz Faz Tarde

Até logo...

David Sobral

13 julho 2010

Outra e outra vez!

Aqui.

Talvez só aqui ... me seja permitido sentir que a morte do meu filho se repete ...

Todos os dias.

E dizê-lo, ... porque é verdade.

Porque a recordo, todos os dias.

Dói ... sobretudo à noite.

E não me deixa dormir.

Ando exausta de sofrer.

Cansada de fingir que "dei a volta por cima" ...

Não dei ... sei que não darei!

Resta-me continuar, com o coração afogado na dor das saudades

Sem que os olhos sejam o seu reflexo.

Porque me dizem "Há muita gente que precisa de ti!"

Mesmo assim, só pela metade de mim?

Talvez ...

Quero acreditar que sim ...

Só por isso resisto!


Olá caros ouvintes, hoje o convidado do jazz faz tarde é o pianista louco Cecil Taylor. Este senhor começou a sua carreira nos já longínquos anos 50 e continua a tocar ainda hoje.

Este senhor é um louco do free jazz e cedo deixou de tocar clássicos e jazz normal. As suas actuações são fortes e bastante intensas assim como a sua música e o seu estilo de tocar piano. O seu som é forte e a sua música é algo atonal.

Escusado será dizer que a música de Cecil Taylor não é para todos mas também tem o seu culto e os seus seguidores, como todos os outros artistas.

Vamos ouvir o senhor Cecil Taylor e até logo que Jazz Faz Tarde ...

David Sobral

30 junho 2010

Sequências

Mais um dia passado no IPO.
Gente até mais não.
O ambiente estava pesado.
Hoje, havia mulheres que choravam ...
Mas ninguém as interrompeu, ninguém se chegou!
Ninguém lhes põs a mão no ombro.
Eu também não o fiz.
E senti-me impelida a abeirar-me delas.

Mas quem sou eu para as poder consolar?
Quem sou eu para lhes dizer que devem ter força?
Que vale a pena acreditar?

Acabaria por chorar ... como acabei por fazer durante as duas consultas que tive.
Não por mim (está tudo bem) mas pelo David.
Será que a partilha se pode fazer em silêncio?

Mais tarde, ao sair, alguém chamava "David!". Virei-me. Uma senhora acompanhava ... talvez o marido.
Por fora da camisa, este "David" transportava a "bomba" da quimioterapia. Aquela bolsinha azul que se leva para casa, para continuar o tratamento por mais 24 ou 48h ...
Pormenores em que reparo!?
São as minhas imagens do passado!

Que pena não se poder ouvir a voz do David, a apresentar estes programas!
Que saudades!



Caros ouvintes, o programa de hoje é dedicado a um jovem compositor Nova Iorquino chamado Jason Lindner.

Este senhor ganhou fama, no final dos anos 90, devido à sua bestial Big Band que tocava todas as segundas-feiras à noite, no famoso clube de Nova Iorque chamado “Smalls”.

Lindner tocou com muita gente e fez parte da geração de outros músicos novos já mencionados em programas anteriores: Kurt Rosenwinkel, Avishai Cohen e Diego Urcola.

Hoje, vamos ouvir um dos temas do disco “Premonition”. Espero que gostem e até logo que ... Jazz Faz Tarde

David Sobral


28 junho 2010

Nem antes nem depois!

Existe o antes e o depois da morte de um filho.

Do meu filho David.

O depois é tão pesado e intenso que esmaga o antes. Como se tudo o que vivi tivesse sido apenas sonhado.

No entanto, existiu, eu sei; tenho a memória de ter havido um passado … e aprisiono as imagens, na tentativa de lhes rever os contornos.

Mas as imagens são baças e só por breves, brevíssimos instantes, consigo, às vezes, colocar-me no centro delas.

E, nunca, nenhuma das imagens corresponde ao que sinto ter sido; apenas as palavras com que falo ou ouço falar delas me colam ao tempo, aos factos, aos lugares.

Mesmo essas palavras, que me situam, apodrecem e quebram-se, muitas vezes e subitamente, sob a carga do esforço que faço para me fixar, no antes ...

E tudo se perde, novamente, nas brumas desse tempo antigo onde eu sei que estive, do qual tenho marcas visíveis e amigos verdadeiros que percorreram comigo os dias de antes e se mantêm no depois que é este agora. Um presente esfacelado.

O passado que, às vezes, partilham comigo e onde eu estive, certamente, por inteiro ... parece-me estranho e só muito tenuemente o sinto como comum.

Porque esta que sou, agora, reergueu-se diminuída, fragilizada, incompleta ... no dia em que o David morreu.

Uma parte de mim perdeu-se.

Não se transformou nem deu lugar a um outro eu ...

Mesmo que diferente.

Mesmo que mais ausente.

Mesmo que mais sonâmbulo.

Perdeu-se, definitivamente, com a morte do David.

Sinto-o, a cada dia que passa ...

Hoje, está a ser um dia mais triste.

Porquê?

Porque me acontece.

Apenas.