30 novembro 2009

Moto contínuo



Como dizer, sem dizer a ninguém, que estou triste?
Como fazer para manter o silêncio, o único que me faz não chorar?
Como desfazer o nó que me aperta a garganta?
E esta vontade de ficar enrolada até que o Natal passe.
Até que o ano acabe e outro comece, ...
Mesmo que nada comece.
Mesmo que nada acabe.
E o tempo e o sol e a lua e os dias e as noites se vão sucedendo, na orla de um nevoeiro inquieto, monótono e cinzento, ao ritmo do bater do meu coração e nunca mais pelos ponteiros dos relógios que costumam comandar as vidas.
Sim, é de tristeza, da saudade que falo.
Uma saudade, de que só agora vou conhecendo o verdadeiro significado.
Uma saudade que me rasga em pedaços e me esvazia de força.
Como dizer, sem que ninguém me ouça, que estou dorida de saudade?

29 novembro 2009

Mais fundo



O meu sentir quer esconder-se mais fundo.
De tanto o querer encobrir dos olhos vizinhos amigos.
Este sentir-me trancada em mim.
Mesmo, no sossego e silêncio desta casa.
Onde nunca me foi difícil descobrir-me.

Chego aqui
Vinda de mim
O coração pesado
A cabeça envolta em cismas
A saudade à boca da garganta
Os sonos adiados
A inquietação de querer libertar
Esta tristeza que se acumula
Nas palavras proibidas
Nos olhares velados

Chego aqui!
Venho libertar-me duma dor
escondida.
Venho em busca de um sorriso
que me era dirigido.
Já não.

O meu sentir, sinto-o mais fundo.
Mais perdido.
Mais distante das palavras
com que me liberto
para recomeçar.
Já não lhe chego, mesmo aqui.

Como chegarei mais leve
Ao dia que se segue?


JAZZ FAZ TARDE



Joe Lovano

Olá, caros ouvintes, hoje o convidado do jazz faz tarde é um dos saxofonistas mais conhecidos e aclamados e chama-se Joe Lovano.
Este sax tenor é um inovador e o seu maior trunfo é conseguir ser totalmente livre e expressivo quando toca “por cima” de formas musicais tradicionais.

Lovano é filho do também reputado saxofonista Tony Lovano. Joe começou a tocar sax alto aos 5 anos, ensinado pelo seu pai.
Muito cedo, também começou a ouvir jazz e a interessar-se por outros músicos como John Coltrane ou Ornette Coleman. Depois do liceu, Joe Lovano foi para a reputada escola Berklee, em Boston.


O tema que vamos ouvir hoje faz parte do disco ...
Espero que gostem,


Até logo que...
David Sobral


28 novembro 2009

Existimos em cada um dos lados




"Os nossos são apenas gestos, projectos de cumplicidade consigo que sem sabermos, a podem magoar quando queremos aliviar."
É o que a Manuela me diz.
Sossegue, minha querida.
Sosseguem.
Ninguém me magoa, desse lado.
Sinto a cumplicidade.
Sinto a amizade.
Torna-se-me mais fácil, por não ter que confrontar a minha dor com a desolação de quem sente comigo mas não sabe o que me "há-de fazer".
Custa-me por eles.
Sempre sorri, ao David ... naqueles tão curtos 18 meses.
Habituei-me a não chorar quando não podia.
Ainda, agora, tento não "chorar" onde não devo.
Nem sempre consigo.
Não sei que fazer com o "não saber que fazer" dos outros.
Por isso, tento não falar com os meus ... sobre o David.
O David anda colado a mim.
Todo o dia, toda a noite ...
É assim ...
Continuamente.
Se o pensamento falasse ...
Não seria possível!
Mas fala aqui, onde se sente mais livre.

Fala aqui, para os olhos bondosos e pacientes que, daí, me ouvem ...
E respondem muitas vezes, nem que seja uma palavra, apenas.

Neste caminho de palavras, que vai de mim para aí e daí para mim, está o David.
Apenas, por um poucochinho?
O caminho que nos liga chama-se David.
E isso basta-me.

25 novembro 2009

O silêncio



Silêncio não é esquecimento.
Silêncio não é serenidade.
Silênio, este meu silêncio significa uma tristeza tão excessivamente pesada que não há palavras que a tornem mais leve.
Tenho ocasiões assim; em que tudo me parece impenetrável, incompreensível.
Tudo tão lento, tudo tão imenso, tudo tão intenso que não há sono que me vença.
E as noites escorrem por entre acordares entrecortados de sonhos em que nada é o que ficou; só o que foi.
E não há pastilhas, as mesmas de antes ou as novas, que me façam adormecer.
E acordo exausta, de olhos molhados, logo pela manhã …
Nos meus sonhos, sempre iguais, o David continua vivo, doente, muito doente e eu luto, numa luta que se repete e recomeça sempre e sempre …
E sei que ele vai morrer.
Tal como D. Quixote, luto contra moinhos, conta as telas de moinhos ... não sopradas pelo vento.
São gestos de dizer adeus.


09 novembro 2009

Dizer nada



Ah, se eu pudesse controlar o tempo.
E dormir, na hora de dormir.
Sobretudo, dormir.
Mas não, demasiadas coisas se enovelam, aqui dentro de mim.
O calar é excesso que não me permite, sequer, saber como começar.
Fui ver os "Três Cantos" com o Zé Mário Branco, o Sérgio Godinho e o Fausto.
Agora, só muito raramente, vou a espectáculos.
Emoção a mais, olhar o palco, olhar as luminusidades, ouvir os sons.
Sons, palco, luzes.
O David.
Não deixo de me emocionar. Sempre, ali no escuro.
As lágrimas vão caindo. Ninguém vê; não as seco.
Mas estes três cantautores, não podíamos deixar de os ir ver.
Era o David a empurrar-nos.
Dos três, qual o preferido do David? Não sei dizer...
Mas o Fausto, com aquela voz límpida e timbrada...
Mas o Sérgio, com aquelas difíceis ondulações de voz, paragens e avanços repentinos... inimitável
Mas o Zé Mário Branco e a poesia irreverente das suas canções e os arranjos musicais lindíssimos...
Não podíamos deixar de ir.

Talvez tenhamos sido primeiro nós, eu e o Manel, a encher a casa destas canções.
Foi, com certeza, o David a mostrar-nos, depois, uma outra forma diferente, talvez mais sensível de ouvir os mesmos sons.
E, no Coliseu, revivi os últimos tempos na companhia do meu filho. Ele estava lá, inteiro, ...
E chorei durante a maior parte do tempo, por não lhe ter sido permitido ver estes três cantores juntos. Ouvir muitas das canções, aqui, cantadas.
A multidão, que enchia o Coliseu, aplaudiu aplaudiu e aplaudiu em pé, como só o Porto sabe.
Eu fiquei sentada.
No meio da multidão.. ao meu lado, havia um lugar vago.


Do que um homem é capaz
As coisas que ele faz
P'ra chegar aonde quer
É capaz de dar a vida
P´ra levar de vencida
Uma razão de viver

A vida é como uma estrada
Que vai sendo traçada
Sem nunca arrepiar caminho
E quem pensa estar parado
Vai no sentido errado
A caminhar sozinho

Vejo a gente cuja a vida
Vai sendo consumida
Por miragens de poder
Agarrados alguns ossos
No meio dos destroços
Do que nunca vão fazer

Vão poluindo o percurso
Co'as sobras do discurso
Que lhes serviu pr'abrir caminho
À custa das nossas utopias
Usurpam regalias
P´ra consumir sozinho

Com políticas concretas
Ímpões essas metas
Que nos entram casa dentro
Como a Trilateral
Co'a treta liberal
E as virtudes do centro

No lugar da consciência
A lei da concorrência
Pisando tudo p´lo caminho
P´ra castrar a juventude
Mascaram de virtude
O querer vencer sozinho

Ficam cínicos, brutais
Descendo cada vez mais
P´ra subir cada vez menos
Quanto mais o mal se expande
Mais acham que ser grande
É lixar os mais pequenos

Quem escolhe ser assim
Quando chegar ao fim
Vai ver que errou o seu caminho
Quanda a vida é hipotecada
No fim não sobra nada
E acaba-a sozinho

Mesmo sendo poderosos
Tão fracos e gulosos
Que precisam do poder
Mesmo havendo tanta gente
P´ra quem é indiferente
Passar a vida a morrer

Há principios e valores
Há sonhos e há amores
Que sempre irão abrir caminho
E quem viver abraçado
À vida que há ao lado
Não vai morrer sozinho

E quem morrer abraçado
À vida que há ao lado
Não vai viver sozinho

José Mário Branco - Resistir é Vencer