23 outubro 2009

Azul na noite



23 horas.
Saio da escola, de regresso a casa.
Só consigo trabalhar à noite; de dia, a pressão é demasiado grande.
Às vezes, tenho que ceder a vez às ambulâncias que passam. O hospital é logo ao lado.
A sirene apita. Sigo-a com o olhar.
Como se sentirá quem lá vai dentro?
Irá sozinho ou terá uma mão amiga? Sei que a solidão aumenta, nestas situações.
Sentimo-nos pequeninos, indefesos.
Isolados de nós próprios; quase nos desconhecemos.
Outra ambulância.
A noite cerra-se à nossa volta, a angústia aumenta e o medo leva-nos a procurar as urgências.
Avanço, então.
Atrás da solidão de quem ali vai.
De quem vai entrar deitado numa maca, transportado por estranhos que mais não fazem que o seu trabalho, mesmo que bem feito.
Atrás de quem vai ser olhado de cima por todos os que aguardam, à porta.
Que bom o David nunca ter tido que ir na ambulância!
Foi sempre o Manel que nos levou e ficava até altas horas da madrugada, cá fora, sentado no muro, à espera.
O David entrou sempre pelo seu próprio pé; nunca curvado.
O David nunca deixou de ter a minha mão fechada na dele.
Faz tanta falta uma mão na nossa, quando abandonamos o nosso canto seguro e nos entregamos à incerteza daqueles corredores cheios de gente que nos olha como mais um número ou uma cor no pulso e que pode esperar...
O David nunca foi assim ... transportado por uma luz azul a atravessar a noite, nas ruas da cidade.
Havia sempre uma mão, um ombro, uma voz que tranquilizava.
Nunca soube se era ele que precisava do amparo da minha mão ou se era eu que precisava de um pouco da enorme coragem dele.
Nunca o saberei.
Gostaria de pensar que era eu a mais solitária, nesses momentos de maior dúvida e desânimo que nos levavam a sair de casa, pela noite, há já muito, escura.
Assim saberia que o David se sentia forte e certo de que tudo se ia resolver.
Assim saberia que, pelo menos, o sofrimento dessa ansiedade o teria poupado.
A ambulância, já não a vejo...
Desapareceu no escuro da entrada da urgência do hospital, ali ao lado.
Continuo de regresso a casa.
As saudades do David apertam-me a garganta e não é raro percorrer o resto do caminho a chorar.
Sei que ele foi sempre o mais forte de nós os dois.
Sei que, até ao fim, se preocupou comigo.
Sei tanta coisa que aprendi com ele...
Mas as lágrimas não me pertencem.
Não sabem nada.

7 comentários:

Filipa disse...

Isabel,

E... essas lágrimas são um bálsamo para o seu coração sofrido. Chorar faz bem, chorar alivia a pressão que se sente mas nunca alivia a saudade. Essa, tem de ser transformada na certeza de que um dia se volta a encontrar, com o David, na forma que mais desejar. Também não tenho certezas, também não sei se todos estarão à minha espera quando eu partir, mas sinto que aquilo que eu mais desejar e em que acreditar se concretizará.
A mão que apertou a mão do David precisa de apertar outras mãos, precisa de deixar que outras mãos a segurem para que deixe de sentir essa falta tão intensamente. Tem de aceitar que a vida contínua, que o caminho é para continuar a ser percorrido...o David é a luz ao fundo desse caminho....estará à sua espera no dia em que a Isabel tiver terminado a sua missão na Terra.
Tudo que fez e viveu com o David foi amor, foi feito com amor e o amor é a única coisa que é real. É tempo de olhar o sol e descobrir que há muitas pessoas a precisar do seu sorriso.
Deixo aqui um pouco do que sinto quando a leio e que possa em cada amanhecer sentir que nada acontece por acaso.
Um forte abraço com muita luz

Silenciosamente ouvindo... disse...

Coragem, coragem, coragem...
precisa de ter muita, afinal o
David gostaria que você seja
sobretudo agora A MAIS FORTE.
Um bj.

Jaime Latino Ferreira disse...

PARADOXO


Que sorte o David Vos ter tido, ao Manel e a Si, sempre do seu lado.

Que sorte a dele ...!

Quem é mais forte!?

Mais forte é quem tem a força do seu lado, a força que é um Manel, a força que é a minha amiga, a força que o David tinha e que lhe vinha, também, de algum lado.

A força cria-se e cada vez que a minha amiga aqui vem plantar, regar a sua saudade imensa, é à sua força que também a rega!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Outubro de 2009

manuela baptista disse...

Era uma vez uma bela e solitária mão.

Quando o sol brilhava, a mão estendia-se, os dedos virados para o infinito e ficava ali quente e quieta.

Se chovia, ficava na horizontal e os pingos de água deslizavam suavemente primeiro, com mais intensidade depois e a mão sentia-se bem assim, inundada como um barco.

Para contemplar o céu nocturno,a mão abria-se, separava os dedos e entre cada um segurava uma estrela, quatro estrelas na mão.

Se entristecia fechava-se, escondia os dedos, como um gatinho enrolado, perdido num sono manso,

a bela e solitária mão.

Um abraço, Isabel

Manuela Baptista

António disse...

Acreditemos ou não na eternidade da alma, e eu acredito, a verdade é que o ser humano é pessoa concreta.O desaparecimento dos entes queridos, permaneçam ou não espiritualmente vivos,provoca-nos inevitável e prolongada dor.No fundo,crentes ou não crentes,andamos todos a tactear na busca do sentido da vida ou da sua ausência.Será que há algo mais para além do que vemos e tocamos que devamos aprender ? Tenho pensado que o David já sabe a resposta e que, subtilmente,a tem tentado transmitir.E confesso que fiquei preso deste davidiano Mistério...

Canduxa disse...

Isabel,
Venho deixar-lhe um pouco de força para viver mis uma semana que está quase a chegar.
A vida é para ser vivida com fé e muita aceitação. Tudo que podia ser feito...foi feito! O caminho agora é sempre em frente. O David ficará contente se a vir sorrir.

Um beijinho grande

Já tinha aqui deixado uma mensagem…ficou com o nome Filipa, que é minha filha.

Brancamar disse...

Curiosamente também a mim me afligem as ambulâncias e a solidão de quem vai lá dentro.
Ouço-as passar e essa passagem deixa sempre uma marca em mim.

Que bom que o David sempre a teve a si, que bom que sempre estiveram um com o outro e isso deve ser muito gratificante, apesar da saudade.

As lágrimas sempre existirão, às vezes são um bálsamo libertador, apesar de muitas outras poderem ser sinónimo de um dia pesado, mas de uma forma ou outra acredito que a ajudarão a libertar a dor e a amenizá-la.

E, nós estamos sempre aqui para a ouvir, sempre aqui para aprendermos diferentes formas de enfrentar a vida, porque nenhum de nós sabe o que nos espera e a Isabel é apesar da sua enorme dor um exemplo de força, de bravura.
Passou tão pouco tempo para quem tanto se deu...

No mesmo ano de 2007, entre finais de Fevereiro e Abril também me entreguei dia após dia, de manhã à noite, velando sonos, dando a mão a uma filha, a quem foi diagnosticada doença crónica (sem possibilidades de cura para já - doença de crohn), no mesmo hospital de Stº António no Porto e é por essa entrega total que os filhos nos levam a fazer, ao ponto de abandonarmos tudo o resto, que sei avaliar um pouco, apenas um pouco o que sente depois de tudo isso...o vazio que deve vir depois dessa entrega incondicional, mas a Isabel já percorreu um caminho bem difícil nestes dois anos e está a demonstrar ser uma mulher com força, pelo seu neto, pelo seu outro filho, por todos os familiares que precisam de si e que tanto a amam, como a sua irmã que tantas vezes vejo por aqui e pelos seus amigos e que transpira para nós todo o amor que tem por si e pelo David.

Toda esta riqueza de afectos que a rodeiam é consoladora e há-de ajudá-la a chegar ao cimo da montanha.

Beijinho grande
Branca