08 setembro 2009

Papagaios de papel


Moledo - O David e um papagaio de papel

A escola reabriu.
Apresentei-me no dia estipulado para a 1ª reunião geral.
Muitas caras novas.
Muitos beijos e abraços, depois de um mês de férias.
A nova Directora.
Desejo-lhe que tudo corra bem; afinal, participei na eleição dela, através do Conselho Geral.
Se não correr bem, também nós seremos, de alguma forma, responsáveis.
Reuniões de Departamentos.
Uma passagem pela Direcção para ver o meu horário.
Nocturno.
Chegada ao carro, fumei um cigarro e chorei, até casa.
E chorei à mesa, ao jantar.
.................
Nada simplesmente é igual.
Estranho-me no meio de tantos que foram meus parceiros, durante tantos anos.
Nada tenho dizer sobre a escola; sobre as férias; sobre o novo ano... sobre mim.
Aquela, que antes conheciam, não existe.
Eu era alegre, entusiasta, amiga e brincalhona; a 1ª a convocar jantares; profissional muito dedicada aos miúdos por quem chegava ao final do ano "apaixonada".
Agora, as imagens são difusas; pouco penetra esta carapaça que me envolve.
............
Não consigo evitar sentir-me deslocada no meio de gente.
Sinto-me sufocar.
Não estou preparada para enfrentar as alegrias ou o sucesso dos outros; ainda não tenho força para partilhar.
Não confundam; não é inveja...
São meus amigos, foram muito, muito amigos do David e só lhes desejo bem.
Eles partilharam da minha dor.
..............
Mas a vida tem que continuar.
Ou o mundo seria uma casa inabitável, já deserta, escura e silenciosa.
.............
Mas eu.
Eu preciso de tempo para mim e para os outros; muito tempo, talvez...
Repartido em bocadinhos, um pouco de cada vez.
Devagarinho.
Parando, muitas vezes, no caminho.
Trago uma outra vida comigo.


O tempo de cada dia, dedico-o ao meu neto.
É ele que, todas as manhãs, me abre a porta que dá para a vida.

10 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

ISABEL VENÂNCIO

( ... )

" O tempo de cada dia, dedico-o ao meu neto.
É ele que, todas as manhãs, me abre a porta que dá para a vida."

Gosto, gosto particularmente, deixe-me que Lhe diga assim, desta Sua deixa final!

Mas sinto-me na obrigação de acrescentar:

Os nossos são os nossos mas em toda a sua autonomia e mesmo se se tratando do Seu neto.

A minha vida, neto não tenho ainda mas tenho um filho, não depende deles e a deles tenderá a depender cada vez menos da minha como ditam as leis da vida e mesmo se elas se abatem sobre nós na inversa do que seria desejável ...!

A minha vida depende do que eu faça dela e mesmo se me encontre num aparente beco sem saída.

E eu tenho feito, perdoar-me-á (!), o máximo e pese como pesa o aparente beco sem saída em que me defronto!

O que Lhe escrevo não é retórica e sempre que escrevo, saiba, os aparentes becos em que me encontro desanuviam-se e dão margem de respiração adicional ...

Como se escrevendo, ao filho que também é o Livro que vou escrevendo se recriasse e, ele também, nova e recriada aura adquirisse.

Aparente contradição!?

Pois é, mas a vida é, em si mesma, contraditória e é da complexidade do contraditório que sempre encontro mais e adicional alento e forças inesperadas.

Porquê?

Porque não quero perder nem o meu amor nem o amor de meu filho que esses, são perpétuos e para toda a Eternidade!

Um beijinho


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Setembro de 2009

Isabel Venâncio disse...

Caro Jaime

Muito bem! Tem toda a razão; é assim, como diz: A nossa filosofia de vida devia pautar-se por uma contínua conquista da nossa realização pessoal.
Mas, como eu disse, o tempo é inimigo porque foi curto quando a vida ia sorrindo e alonga-se quando a má sorte bate à porta.
Talvez um dia ...
Um beijo
Isabel

Jaime Latino Ferreira disse...

ISABEL VENÂNCIO


Minha Querida Amiga,

Esperava, apreensivo, uma reacção Sua e veio!

Dela registo e sublinho que admite que talvez um dia se venha de novo a pautar pelo desidério da realização que afirma ter-Lhe escapado.

No entanto, ela já se pauta, sempre se terá pautado por ele e para tal, se não bastasse já toda a Sua vida que a quem apenas A lê escapa, acrescenta-se o que de Si lemos e que não é, seguramente, menos relevante ...

Talvez um dia, escreve, mas a proximidade desse dia está também nas Suas mãos como está fazer deles, dos dias, dias mais longos ou mais curtos ou tão só dias cheios de ainda que penosa realização!

Os Seus filhos e o Seu neto ficariam, seguramente, contentes!

Um beijo que, como sabe, é solidário


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Setembro de 2009

Anónimo disse...

Isabel, amiga virtual...sinto que o seu caminho só será feito por si, o seu luto só será superado por si. Não há palavras, mesmo as do Jaime sempre, sempre tão ricas e fortes, que a possam ajudar nesse seu percurso. Só posso dizer-lhe uma coisa,nós vamos estando por aqui ao seu lado. Estenda a mão, nós temos a nossa pronta.
Um beijo grande,MM

Jaime Latino Ferreira disse...

MM


Querida Amiga,

Antes de mais obrigado pelas palavras que me dirige ...

Obrigado, também, pelo que escreve que não contraria o que eu digo!

Claro que só a Isabel poderá reencontrar o Seu caminho mas para tal precisa de força e essa força, não me atrevo eu a puxá-la para baixo antes Lhe devo dar razões, se o puder fazer, que A acalentem e ... desembaracem.

Vou ter um atrevimento final:

Se eu fosse, não o David mas o Sérgio, o irmão do David, e se tivermos em conta apenas este mundo virtual, o que aqui, na Casa da Venância, se passa, como é que ele leria Sua mãe?

Que espaço encontraria aqui, para Si?

Que lugar na vida de Sua mãe que também a ele o acalentasse?

Que lugar o do Sérgio, no reconforto de Isabel?

Peço desculpa, eu não tenho procuração de ninguém, pessoalmente nem conheço o Sérgio nem a Isabel e apenas me pauto pelo pulsar que nesta Casa se partilha, porque ele é para ser partilhado ou não estaria aqui!

Mas estas interrogações ponho-as, eu próprio, e como entendo que o que sinto e pesem os riscos, ao escrevê-lo deve também ser partilhado, quem me garante que adicionada aqui esta virtual perspectiva, fornecida por estas interrogações, a Isabel, com elas, não possa vir a reforçar outros pretextos, excelentes pretextos (!), para ter ainda mais força!?

Em nome dos mortos, sim, em nome deles (!), se devemos preservar-lhes a memória, é aos vivos que devemos dar toda a força!

Desculpem-me, querida MM, Sérgio e Isabel, com um beijinho, Vosso e sempre


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 11 de Setembro de 2009

Branca disse...

Querida Isabel,

Extremamente comovida li-a e acabei em lágrimas na parte final:
"O tempo de cada dia, dedico-o ao meu neto.
É ele que, todas as manhãs, me abre a porta que dá para a vida."

Esta porta para a vida há-de ajudá-la a ultrapassar aquela sensação de estar só na multidão e mesmo entre amigos. À medida que fui lendo percebi muito bem o porquê, pese embora a amizade que as pessoas nos merecem, sinto como tudo lhe parece tão pequenino e fútil perante a sua dôr. Não é uma questão de relatividade, mas de facto depois de acontecimentos fortes como o que ocorreu na sua vida, há "coisinhas" que não fazem o menor sentido. No entanto aos poucos aprenderá a encontrar um sentido para a vida...
Li o Jaime e percebi o seu generoso alento, li a MM e acho que realmente o seu luto só será superado por si.
Jaime, querido amigo, tal como diz, partilhamos apenas aqui alguns desabafos da Isabel, o Sérgio nunca se sentirá numa outra dimensão da vida de sua mãe e sei o que digo, porque a minha avó fez o mesmo percurso da Isabel e ao fim de 30 e muitos anos de ter perdido o filho mais velho, que contava 21 na altura, levado pela onda de tuberculose que assolou o país, apesar de todos os sanatórios que frequentou e que eram bons, apesar de umas gramas de penicilina custarem uma fortuna e terem que vir importadas para quem conseguia dinheiro para elas (era uma descoberta recente), ele não teve a sorte de ficar doente na fase posterior em que se criou um serviço exemplar no nosso país, que irradicou a doença. Na fase em que adoeceu ter tuberculose era uma sentença de morte, por isso, porque estava no auge da vida e até tinha casamento marcado, tudo afectou atrozmente a alma da minha querida avó, no entanto nunca nenhum de nós na família se sentiu de fora no mundo dela. Ao fim de trinta e muitos, quase quarenta anos desta perda, como dizia eu, claro que já vivia, ria e brincava connosco, juntava-se com os amigos, mas transformava-se na semana antes de Natal ou numa qualquer data dessa natureza em que se lhe sentia a tristeza e não deixava nunca de falar nele, de tal maneira que amei e amo o meu tio sem nunca o ter conhecido, penso até um dia destes fazer-lhe uma homenagem no meu blog.
E foi nas vésperas de Natal que ao vir de junto da campa do filho, a minha avó faleceu, com 82anos, sem nunca ter estado própriamente doente. Mesmo sentindo-se mal e já em casa e com todos os filhos e alguns netos à sua volta, levantou-se, foi dar um beijo na fotografia do filho e só depois se deitou e fechou os olhos para sempre.

Isabel desculpe esta história triste, mas apesar de tudo a minha avó foi feliz tantos e tantos momentos, viveu tanto, deu-nos tanto, que é a prova de que aos poucos e apesar da saudade haverá um rumo para a sua vida e muitas alegrias para viver.

Um grande beijinho
Gostei de estar aqui consigo.
Branca

Ana Cristina disse...

Deixo aqui um grande beijinho para os meus dois queridos sobrinhos -Sérgio e David.

O Sérgio é meu afilhado:)e,como a Diana costuma dizer, um grande borracho,rsrsrsr!

Jaime,sabe uma coisa, a Diana já acabou a licenciatura em Biologia, com média de 16 val.

Este ano vai ser assim tipo um ano "sabático" para consolidar competências e adquirir outras.

Para o ano,de certo,o mestrado ou algum programa doutoral na área da oncologia ou oncobiologia.

Caminhos escolhidos pelo livre arbítrio mas igualmente determinados pelas vivências dos seus jovens 21 anos.

Entre a informática,a arte e a biologia, assim cresceram o Sérgio,o David e a Diana (que é afilhada da minha irmã e lhe deve o lindo nome que tem).

Mana,

Ontem em mais uma reunião que tive aqui por Gaia(Madalena),mais uma abordagem igual a tantas que já tive desde que regressei:"...desculpe,por acaso não é irmã da Isabel Venâncio?", "...parecem gémeas,a certa altura pensei que estava a ouvir a minha Prof. de Português quando andei na Escola Soares dos Reis...".

Uma jovem mãe que me disse ter sido tua aluna e é filha da tua colega Helena Marques.
Mandou-te um abraço.

Hoje tenho a casa cheia de jovens amigos da Diana que vieram de Cascais para passar o fim de semana no Porto.

Mais à noite vão juntar-se a outros amigos do Porto, algures entre o Piolho e as Galerias de Paris,que bom ;)

Em Cascais a nossa casa estava sempre cheia...sabe bem ouvir as vozes e os risos deles.

Beijinhos da Nini.

manuela baptista disse...

Falando de Portas

Hoje abri esta e entrei! Ainda temi que a Isabel perguntasse:
-É o Miguel, a esta hora?!
E eu tivesse que responder timidamente "Não. Sou apenas eu.." e a porta se fechasse.

Não tenho batido nesta porta, porque quando batemos seja a que porta fôr temos que ter um objectivo, um sentimento, um recado para entregar e ficamos ligados a quem nos recebe e ficamos também responsáveis pelo que trazemos e levamos.

São assim as portas. Umas vezes complicam, outras descomplicam.

E eu tenho andado confusa, sem ter a certeza de que quando aqui venho trago mais alguma coisa do que lágrimas.

As lágrimas rolam, os poetas falam de pérolas, os pintores sem talento desenham-nas no rosto de crianças de olhos verdes, as lágrimas carregam a dor, as lágrimas lavam a dor.

Mas eu gostaria de trazer aqui o riso e para isso é preciso ter uma coragem danada, porque Isabel, é mais fácil chorar consigo do que ter a coragem de a desafiar a rir.

Falando de Gente

Eu sei de cor o nome das pessoas que andam por aqui e aponto de longe os seus avatares.

Também sei quem não anda por aqui, mas está aqui e todos têm um lugar que não tem medida, nem peso.
Não, peso tem. Vinte e um gramas, que é o peso da alma para uns, do coração para outros, da vida para todos nós.

Aqui chegada

quero dizer que o meu riso hoje vai para si,
para a Diana e a Biologia do seu coração,
para os amigos de Cascais que ainda estou a ouvir rir,
para o afilhado da Nini, para o Miguel
e para a Ana Cristina.

E agora vou-me embora e não diga que falei demais, porque foi aqui neste blog que me começaram a dar trela.

Um grande abraço

Manuela Baptista

Isabel Venâncio disse...

Manuela

Bateu e a porta abriu-se.
Fez bem em dar um pulinho aqui, vinda das suas Histórias com Mar ao Fundo.
Ouvi, ao longe, esse seu timbre de voz, entre o maroto e atrevido, que não admite portas cerradas.
E sei que seria eu quem ficaria a perder, se não lhe abrisse a porta.
Não teria oportunidade de sorrir perante os belos textos que escreve.
Reparou que eu disse que sorri?
Agradeço-lhe.
É sempre bem vinda.
Por mim e creio que por quem aqui vem.
Isabel

Brancamar disse...

Eu também sorri com a Manuela e que bom que fez a Isabel sorrir, só podia, tem um dom extraordinário de o fazer!
Beijinhos.
Branca